ISSN 0365-4508
ARQUIVOS
DO
MUSEU NACIONAL
Nunquam aliud natura, aliud sapienta dicit
Juvenal, 14, 321
In silvis academi quoerere rerum,
Quamquam Socraticis madet sermonibus
Ladisl. Netto, ex Hor
VOL.LXVI
RIO DE JANEIRO
Abril/Junho
2008
ARrQuivOs DO MUSEU NACIONAL
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
REITOR
Aloísio Teixeira
Museu NacIONAL
DIRETOR
Sérgio Alex K. Azevedo
EDITORES
Miguel Angel Monné Barrios, Ulisses Caramaschi
EDITORES DE ÁREA
Adriano Brilhante Kury
Alexander Wilhelm Armin Kellner
Cátia Antunes de Mello Patiu
Ciro Alexandre Ávila
Claudia Petean Bove
Débora de Oliveira Pires
Guilherme Ramos da Silva Muricy
Izabel Cristina Alves Dias
João Alves de Oliveira
João Wagner de Alencar Castro
Marcela Laura Monné Freire
Marcelo de Araújo Carvalho
Marcos Raposo
Maria Dulce Barcellos Gaspar de Oliveira
Marília Lopes da Costa Facó Soares
Rita Scheel Ybert
Vânia Gonçalves Lourenço Esteves
INORMALIZAÇÃO
Vera de Figueiredo Barbosa, Suely Alves Ano Bom
DIAGRAMAÇÃO E ÁARTE-FINAL
Lia Ribeiro
SERVIÇOS DE SECRETARIA
Thiago Macedo dos Santos
(CONSELHO EDITORIAL
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Universidade Federal de Minas Gerais
David G. Reid
The Natural History Museum - Reino Unido
David John Nicholas Hind
Royal Botanic Gardens - Reino Unido
Fábio Lang da Silveira
Universidade de São Paulo
François M. Catzeflis
Institut des Sciences de "Evolution - França
Gustavo Gabriel Politis
Universidad Nacional del Centro - Argentina
John G. Maisey
Americam Museun of Natural History - EUA
Jorge Carlos Della Favera
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
J. Van Remsen
Louisiana State University - EUA
Maria Antonieta da Conceição Rodrigues
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Maria Carlota Amaral Paixão Rosa
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Maria Helena Paiva Henriques
Universidade de Coimbra - Portugal
Maria Marta Cigliano
Universidad Nacional La Plata - Argentina
Miguel Trefaut Rodrigues
Universidade de São Paulo
Miriam Lemle
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Paulo A. D. DeBlasis
Universidade de São Paulo
Philippe Taquet
Museum National d'Histoire Naturelle - França
Rosana Moreira da Rocha
Universidade Federal do Paraná
Suzanne K. Fish
University of Arizona - EUA
W. Ronald Heyer
Smithsonian Institution - EUA
ARQUIVOS
DO
MUSEU NACIONAL
VOLUME 66
NÚMERO 2
ABRIL/JUNHO
2008
RIO DE JANEIRO
Arquivos do Museu Nacional, mais antigo periódico
científico do Brasil (1876), é uma publicação trimestral
(março, junho, setembro e dezembro), com tiragem de
1000 exemplares, editada pelo Museu Nacional/
Universidade Federal do Rio de Janeiro. Tem por
finalidade publicar artigos científicos inéditos nas áreas
de Antropologia, Arqueologia, Botânica, Geologia,
Paleontologia e Zoologia. Está indexado nas seguintes
bases de dados bibliográficos: Biological Abstracts, ISI -
Thomson Scientific, Ulrich's International Periodicals
Directory, Zoological Record, NISC Colorado e Periodica.
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se disponíveis em cada número dos Arquivos e em
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são avaliados por, pelo menos, dois especialistas na área
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Fundação Universitária
ISSN 0365-4508
Arquivos do Museu Nacional, the oldest Brazilian scientific
publication (1876), is issued every three months (March,
June, September and December). It is edited by Museu
Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro, with a
circulation of 1000 copies. Its purpose is the edition of
unpublished scientific articles in the areas of Anthropology,
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Científico e Tecnológico
Arquivos do Museu Nacional - vol.1 (1876) -
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Trimestral
Até o v.59, 2001, periodicidade irregular
ISSN 0365-4508
1. Ciências Naturais - Periódicos. I. Museu Nacional
(Brasil).
CDD 500.1
Arquivos do Museu Nacional, Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.311-321, abr./jun.2008
ISSN 0365-4508
DINÂMICA DE OCUPAÇÃO, CONTATOS E TROCAS
NO LITORAL DO RIO DE JANEIRO
NO PERÍODO DE 4000 A 2000 ANOS ANTES DO PRESENTE :
(Com 5 figuras)
MARIA CRISTINA TENÓRIO ?
DIOGO DE CERQUEIRA PINTO º
MARISA COUTINHO AFONSO *
RESUMO: Colocam-se em discussão os resultados obtidos no desenvolvimento do projeto “Dinâmica de
ocupação, contatos e trocas no litoral do Rio de Janeiro no período de 4000 a 2000 anos antes do presente”,
em desenvolvimento no litoral sul (Ilha Grande) e sudeste (Arraial do Cabo) daquele estado. O foco do projeto
é a delimitação das unidades culturais, a reconstituição da mobilidade, da dinâmica de ocupação e dos
sistemas de trocas existentes no litoral. Os resultados obtidos permitiram que fosse proposto que os grupos
que ocuparam a Ilha Grande eram exímios canoeiros e que mantiveram extensa rede de trocas. Nas pesquisas
desenvolvidas posteriormente no município de Arraial do Cabo, a cerca de 280km pela linha da costa, foi
possível identificar elementos na cultura material que permitiram propor a hipótese de contatos e trocas
entre os grupos que ocuparam as áreas estudadas.
Palavras-chave: Arqueologia. Sambaqui. Pescadores. Identidade. Trocas.
ABSTRACT: Dynamics of occupation, contacts, and exchanges at the coast of the State of Rio de Janeiro from
4.000 to 2.000 years before present.
We discuss the results obtained through the project “Dynamics of occupation, contacts and exchanges at the
coast of the State of Rio de Janeiro from 4.000 to 2.000 years before present”, held at the southern (Ilha
Grande) and southeastern (Arraial do Cabo) coast of that state. The project aims the delimitation of cultural
units and also to reconstitute the mobility, dynamics of occupation, and exchange systems that existed at
the coast. The results allowed the interpretation that the groups that occupied Ilha Grande, besides being
excellent canoeists, kept an extense network of exchanges. Further researches held at the Arraial do Cabo,
280km away by the coastline, allowed the identification of elements in the material culture that provide
support that contact and exchanges existed between the groups that occupied the studied areas.
Key words: Archaeology. Shellmound. Fishermen. Idendity. Exchanges.
INTRODUÇÃO
Partindo dos resultados obtidos nos 15 anos de
pesquisas desenvolvidas na Ilha Grande, litoral
sul do Rio de Janeiro, foi possível propor a
existência de intensa rede de trocas sendo
desenvolvida no litoral a cerca de 3.000 anos
antes do presente (TENÓRIO, 2003). Foi também
possível propor a existência de locais onde
ocorriam eventos que envolviam grande
concentração de pessoas, onde provavelmente
eram realizadas trocas e rituais.
! Submetido em 17 de abril de 2006. Aceito em 28 de março de 2008.
Como elemento da cultura material utilizado como
instrumento estruturador da pesquisa, foram
utilizados os amoladores polidores fixos
encontrados no litoral brasileiro e com alta
concentração na Ilha Grande. Embora ocorram em
vários pontos do litoral brasileiro, estão
concentrados no litoral sul do Estado do Rio de
Janeiro e na Ilha de Florianópolis. As similaridades
encontradas nesses conjuntos permitiram que se
trabalhasse com a hipótese de que foram deixados
por grupos que compartilhavam uma importante
característica cultural (Tenório, 20083).
? Museu Nacional/UFRJ. Cientista do Nosso Estado/FAPERJ. Departamento de Antropologia. Quinta da Boa Vista, São Cristóvão, 20940-040, Rio de
Janeiro, RJ, Brasil. E-mail: ctenorio(ydomain.com.br
* Museu Nacional/UFR, Departamento de Antropologia. Quinta da Boa Vista, São Cristóvão, 20940-040, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. E-mail:
falecomdiogo(Dhotmail.com.
* Museu de Arqueologia e Etnologia - MAE/USP. Av. Professor Almeida Prado, 1466, Cidade Universitária, 05508-900, São Paulo, SP, Brasil. E-mail:
Marisa(Mbr2001.com.br.
342 M.C.TENÓRIO, D.C.PINTO & M.C.AFONSO
A presença de amoladores polidores fixos no
município de Arraial do Cabo, no litoral sudoeste do
Estado do Rio de Janeiro, próximos ao sítio Ponta
da Cabeça (Tenório et al, 1992), que é contemporâneo
ao sítio Ilhote do Leste, permite que seja levantada
a hipótese da existência de intenso contato e
transmissão cultural no litoral deste estado.
(Os AMOLADORES POLIDORES FIXOS
Os amoladores polidores fixos (Fig.1l) são
testemunhos arqueológicos constituídos por
conjuntos de rochas que apresentam sulcos
resultantes da ação de polir peças líticas. São
encontrados em ilhas, em antigas ilhas isoladas
por períodos de transgressão marinha e em pontas;
estão quase sempre localizados próximos a cursos
d'água doce que desembocam nas praias. São
encontrados no Estado de Santa Catarina, na Ilha
de Florianópolis e em ilhas adjacentes, conforme
referido por TiBurTIUS & BIGARELLA (1953), RoHR
(1950/1959/1961/1977/1984), Beck (1971),
FossarI et al. (1987/1988/1989), AmaraL (1995);
na ponta das Laranjeiras, por RUTHSCHILLING &
ScHmirz (1990). No Estado de São Paulo, na Ilha
Comprida, por UcHôa (1978/79/80); em
Picinguaba e na Ilha de Couves, por Amenomoni
(com. pes.); no Estado do Rio de Janeiro, na Ilha
Grande, por MacnaniInI (1982), Gaspar & TENÓRIO
(1990) e Tenório (1992); na Ilha de Marambaia,
por MENEZES et al. (1999) e KngiP & OLIVEIRA (2001);
no promontório de Cabo Frio, por Dias Jr. (1959);
na ponta de Arraial do Cabo, por Tenório (1999).
No Estado da Bahia, foi registrado na Ilha de
Cajaíba, por CaLDERON (1969/1974).
A partir dos resultados obtidos em
experimentações (Tenório, 2003), estima-se que,
para a formação da totalidade dos sulcos que
constituem os amoladores polidores fixos
encontrados na Ilha Grande, seria necessária a
elaboração de pelo menos 278.952 lâminas de
machado. Este número foi alcançado após a
realização de experimentações que tiveram por
objetivo obter uma estimativa do desgaste
provocado na rocha suporte na fabricação de uma
lâmina de machado semelhante às encontradas
no sítio Ilhote do Leste. Constatou-se que, após
serem polidos e afiados os gumes de 11 lâminas
elaboradas a partir de seixos, provocou-se um
desgaste de apenas 0,155cm no bloco de rocha.
Fig.1- Amoladores-polidores fixos. (Foto: Maria Cristina Tenório). Escala = 20cm.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.311-321, abr./jun.2008
DINÂMICA DE OCUPAÇÃO, CONTATOS E TROCAS NO LITORAL DO RIO DE JANEIRO 313
Como a profundidade média dos 1.154 sulcos
existentes na ilha, excluídos os que se encontram
atualmente submersos ou enterrados na praia, é
de 2,5cm, o resultado final foi o número de lâminas
descrito anteriormente. A disparidade entre o
número de sulcos e o de lâminas encontradas
permitiu que fosse elaborada a hipótese de que
poderiam ter sido trocadas por outros itens, o que
teria permitido a existência de um sistema de trocas
no litoral do Rio de Janeiro há pelo menos 3000
anos antes do presente.
Nas escavações do sítio Ilhote do Leste, também
localizado na Ilha Grande, foi possível observar,
através da reconstituição do processo de formação
de suas camadas ocupacionais, uma
diferenciação clara entre centro e periferia
indicando que as camadas na parte central do
sítio teriam se formado mais rapidamente,
sugerindo ter havido, neste local, eventos que
envolveram concentração de número muito maior
de pessoas do que a população habitual estimada
para o sítio.
Sírio ILHOTE DO LESTE
O sítio Ilhote do Leste está localizado à meia encosta
de um morrote do mesmo nome, situado na parte
meridional da Ilha Grande, na área delimitada pela
Reserva Biológica Praia do Sul (Fig.2). Esse morrote
divide as praias do Sul e do Leste. Sua ocupação se
deu inicialmente sobre dois “platôs”, estando o mais
baixo localizado a 13m e o mais alto a 20m de altura
em relação ao nível do mar atual, e ambos situados
na parte anterior do morrote. Sua área é de 440m?,
tendo sido escavados 15% de sua área total.
O sítio está localizado ao lado de um canal por
onde escoam as águas de duas lagoas interligadas
e no centro de cinco ecossistemas: restinga,
manguezal, laguna, mata de encosta e o litoral
rochoso. As datações e dados obtidos indicam que
o início da formação do sítio deve ser
contemporâneo ao da restinga externa e das lagoas
do Sul e do Leste, formadas há cerca de 3.000
anos (AmaDOR, 1987/88), devido a um movimento
regressivo do mar.
O sítio tem a forma de um semiciírculo. O material
arqueológico ocorre predominantemente na área
central, entre grandes blocos de pedra e na borda
do morro. Suas camadas ocupacionais
acompanham o declive do morro; são mais
espessas nos bordos, sugerindo que o refugo foi
empurrado morro abaixo. Na parte plana, as
camadas malacológicas apresentam montículos,
indicando que as valvas de moluscos, quando não
eram empurradas, eram amontoadas. O material
arqueológico está concentrado no meio do sítio;
apenas o material lítico lascado predomina na
área periférica.
O centro do sítio, onde ocorre maior concentração
de material, apresenta fogueiras cercadas por
seixos que devem ter sido mantidas acesas por
dezenas de anos.
É à volta do Ilhote do Leste que está a maior
concentração de amoladores-polidores fixos
encontrada na Ilha Grande. Eles também estão no
costão rochoso que o cerca, indicando que foram
feitos numa época em que o mar estava mais baixo,
quando a barra dos canais de drenagem ficava mais
a frente. As lâminas de machado encontradas no
sítio, sempre associadas aos enterramentos,
comprovam a relação dos habitantes do sítio com
os amoladores polidores fixos (Fig.3).
Fig.2- Sítio Ilhote do Leste. (Foto: Turisrio).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.311-321, abr./jun.2008
314 M.C.TENÓRIO, D.C.PINTO & M.C.AFONSO
Fig.3- Enterramento com lâmina de machado. (Foto: Maria Dulce Gaspar).
COMPARAÇÃO CENTRO E PERIFERIA
Comparando-se os perfis com os setores, observa-
se que as camadas malacológicas aparecem mais
nitidamente na beira da encosta, dissipando-se à
medida que se segue para dentro dos platôs, voltando
a se concentrar em bolsões. Constata-se a existência
de uma camada-matriz, caracterizada pela presença
de material esparso, interrompida por camadas finas
de osso triturado, por fogueiras de longa duração,
por bolsões de material ósseo e malacológico, ou por
concentrações de restos malacológicos. Isto permite
supor que se trate de uma ocupação constante de
toda a área do sítio, com a preocupação em manter,
durante muito tempo, áreas limpas e fogueiras
sempre acesas nos mesmos locais.
As datações obtidas revelam que as camadas foram
construídas muito rapidamente. A camada óssea
teria se formado em cerca de 100 anos. A diferença
de datas entre a amostra coletada debaixo do piso
de argila e a retirada do meio da camada de conchas
também é de cerca de 150 anos (Fig.4).
A variação observada na morfologia das camadas
sugere a ocupação diferenciada no centro e na
periferia do sítio. No centro, as camadas são mais
espessas e apresentam grandes fogueiras que
permaneceram acesas por grandes períodos de
tempo. Na periferia, as camadas são mais finas e
apresentam pequenas fogueiras e montes de restos
alimentares. A presença de refugos maiores no
centro e pequenos na periferia dos montes sugere
que estes resultaram da acumulação de dejetos
varridos com a intenção de manter áreas limpas,
provavelmente relacionadas a unidades domésticas.
A presença de um piso com buracos de estaca
também pode indicar a intenção da manutenção
de áreas limpas ou de espaços especiais.
Áreas estéreis contendo apenas objetos
minúsculos, como dentes de cação ou outros
adornos, foram interpretadas, segundo proposta
de ScHirrER (1996), como fundos de cabana. Em
uma dessas áreas foram encontrados dois
enterramentos, que apresentaram o maior número
de acompanhamento funerário.
Foram encontrados 30 sepultamentos com 33
esqueletos. Apenas dois são de crianças, mas
chama a atenção o grande número de indivíduos
com mais de 30 anos.
Foi constatada grande variabilidade no padrão de
enterramentos; no entanto, foi observada a repetição
de alguns elementos, tais como: o sedimento limpo
cercando os membros superiores, a posição fletida,
a presença de restos de alimentos sobre eles, a
associação com fogueiras, com lâminas de machado,
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.311-321, abr./jun.2008
DINÂMICA DE OCUPAÇÃO, CONTATOS E TROCAS NO LITORAL DO RIO DE JANEIRO 315
2910 + 90
2650 + 350
3060 + 40
Camada de ossos esparsos
Camada malacológica
Conchas fragmentadas
Concreção
Camada óssea
Concha e osso
Fogueiras
Terra preta
Fig.4- Morfologia das camadas no centro e na periferia do sítio e datações obtidas.
com pedras próximas ao crânio, com as ossadas de
mamíferos marinhos e a presença de adornos, como
os colares de dentes perfurados de cação, felídeo,
canídeo e golfinho. Uma hipótese para explicar a
variedade no padrão de enterramento é que o sítio
Hhote do Leste foi construído por indivíduos com
laços de consangúinidade unidos por casamentos a
outros indivíduos pertencentes a vários grupos.
A cerca de 1500m de praia foi localizado um outro
sítio denominado Ponta do Leste.
Sírio PonTA DO LESTE
O sítio Ponta do Leste está localizado sobre uma
duna de três metros, ao lado de um leito seco de
rio, no extremo sul da Praia do Leste.
A única parte preservada do sítio é a parcela da duna
cortada pela ação do mar que expôs um perfil,
deixando à mostra um enterramento em ótimo estado
de preservação. O indivíduo encontrado pertence ao
sexo masculino, com mais de 35 anos de idade e
1,60m de estatura. Sua estrutura é menos robusta
do que a dos esqueletos encontrados no sítio Ilhote
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.311-321, abr./jun.2008
do Leste e também apresenta patologias ósseas.
As datações obtidas (2880+40 anos AP) e a
localização dos amoladores-polidores fixos nos
costões relacionados aos sítios Ilhote do Leste e Ponta
do Leste indicam contemporaneidade.
O enterramento do indivíduo fora do sítio reforça a
hipótese de que a grande variabilidade encontrada
nos acompanhamentos e na deposição do morto se
deve à presença de indivíduos que carregavam
consigo resquícios de diferentes rituais relacionados
a sua identidade cultural, o que indica a existência
de elementos de diferentes grupos compartilhando
o mesmo espaço, provavelmente através de laços
matrimoniais. A grande variabilidade de artefatos
encontrados no Ilhote do Leste pode sugerir também
intenso contato com outros grupos da costa.
A alta incidência de guapuvuru, madeira utilizada
para fazer canoas, na Ilha Grande, as lâminas de
machado, adicionadas à presença de peixes de
águas mais profundas, como os elasmobrânquios
de grande porte, e também as inserções musculares
apresentadas nos esqueletos encontrados reforçam
a hipótese da existência de pequenas embarcações
316 M.C.TENÓRIO, D.C.PINTO & M.C.AFONSO
e de que esses grupos teriam predileção pela
ocupação de ilhas, fato alicerçado na localização
dos amoladores-polidores fixos.
Apoiado no que foi apresentado, parte-se do
princípio de que o sítio Ilhote do Leste foi construído
por pescadores, caçadores, coletores, exímios
canoeiros que tinham alta mobilidade na costa, com
maior fixação na Ilha Grande; não constituíam um
grupo grande, mas o fato de elaborarem lâminas
de machado lhes oferecia um status especial, que,
provavelmente, os incentivava a contatar e realizar
trocas com outros grupos que habitavam o litoral
do Estado do Rio de Janeiro.
No Estado do Rio de Janeiro, os amoladores
polidores fixos aparecem em dois pontos distantes
cerca de 280km de litoral: na baía da Ilha Grande
e em Arraial do Cabo.
ARRAIAL DO CABO
A região tem a forma de uma pequena peninsula e
é cercada por um cordão de 30km de praias
arenosas, tendo ao centro um complexo rochoso
denominado Morro do Atalaia. Apresenta também
formações lacustres, destacando-se a Lagoa de
Araruama, onde predominam exuberantes dunas
e vegetação própria das restingas (GurceL, 1992).
Apresenta um conjunto arqueológico notável por
sua concentração no espaço e pela diversidade dos
locais escolhidos para os assentamentos. Foram
identificados 21 sítios, sendo que: cinco estão
localizados sobre dunas em praias de mar aberto:
Sítios Ponta da Cabeça, Colônia de Pesca,
Massambaba I, Massambaba II, Massambaba III;
três estão em elevações superiores a 50m acima do
nível do mar: Sítio do Condomínio da Atalaia,
Boqueirão e Usiminas; dois em ilha, sendo que, um
sobre dunas e um em elevação superior a 50m: Sítio
da Ilha de Cabo Frio e Usiminas (já citado também
como sítio localizado acima de 50m); quatro, em
abrigos em alturas entre cinco e 20m: Abrigo do
Boqueirão, Abrigo sob rocha do Atalaia, Abrigo da
Praia dos Anjos, Abrigo da Praia do Forno; cinco
localizados em pequenas enseadas: Praia dos Anjos,
Praia do Forno Ie II, Praia do Pontal e Prainha; e
três conjuntos de amoladores-polidores fixos:
Amolador do Diogo, Praia Grande le II.
Os sítios pesquisados apresentam datas que variam
de 4200 a 1200 anos AP (ver Tab.1). Desses, apenas
os sítios Usiminas e Ponta da Cabeça apresentam
período de ocupação concomitante com a ocupação
do Ihote do Leste; no entanto, apenas o sítio Ponta
da Cabeça apresenta evidências tais como lâminas
de machado e pontas ósseas elaboradas a partir de
espinho de cocoroca (Haemulidae) que permitem
propor que os construtores desse sítio seriam os
responsáveis pelos amoladores polidores fixos
encontrados na praia de Massambaba e que teriam
tido contato com os habitantes da Ilha Grande.
Sírio PONTA DA CABEÇA
O sítio Ponta da Cabeça está localizado no canto
esquerdo da Praia Grande (Massambaba), no topo
do morro do Itirinho a 20m de altura, segundo as
coordenadas UTM 23 k 0804434 Le 7456368 N.
Atualmente, encontra-se totalmente destruído pela
ação antrópica. O que restava do sítio foi pesquisado
no ano de 1991 (Tenório et al., 1992), através de um
trabalho de salvamento apoiado pelo Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
A ocupação do sítio se deu inicialmente no topo do
morro, estendendo-se posteriormente sobre uma
duna escalonar consolidada e colada ao complexo
rochoso (Tenório et al, 2005).
Segundo os resultados de pesquisas recentes
coordenadas pelo Prof. João Wagner de Alencar
Castro (com.pes., fev. 2006), a restinga externa
ainda não havia fechado na época no início da
ocupação do sítio, o que daria ao local uma
configuração insular.
O sítio, na sua parte mais densa apresenta três
camadas de ocupação que totalizam 1,70m de
camada arqueológica. A primeira camada é menos
densa que as posteriores e é constituída por
pequenas fogueiras acesas em reentrâncias do
terreno, contendo lascas de quartzo, artefatos
ósseos e restos de moluscos; está datada em
3270+70 anos AP.
Na segunda camada de ocupação, as fogueiras são
maiores e formam uma continua camada escura
de 40cm de espessura, contendo restos de peixes e
moluscos, lascas de quartzo e pontas elaboradas
em osso. Nessa camada também foi encontrado o
enterramento de uma criança de seis anos,
sepultada em decúbito lateral esquerdo. Se houve
contato desses grupos com os construtores do Ilhote
do Leste, este teria se dado nesse momento, do final
da segunda para a terceira camada de ocupação,
um momento de aumento da população do sítio. É
também neste momento que ocorre maior atenção
para o consumo de moluscos, pois até então os
grupos responsáveis pela construção do sítio eram
quase que essencialmente pescadores.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.311-321, abr./jun.2008
DINÂMICA DE OCUPAÇÃO, CONTATOS E TROCAS NO LITORAL DO RIO DE JANEIRO 317
TABELA 1. Datações relativas aos sítios trabalhados.
SÍTIO DATAÇÃO TRADICIONAL DATAÇÃO CALIBRADA NÍVEL Nº DO LABORATÓRIO
Ponta da Cabeça 2080+40 AP 2107 a 1884 AP 70-80cm Gif-110441
3270+70 AP 3610 a 3335 AP 160-170cm Beta-84332
Condomínio do Atalaia 1690+90 AP 1815 a 1375 AP 40-50cm Beta - 84333
4190+130 AP 5035 a 4405 AP 90-100cm Beta - 95597
4120+110 AP 4865 a 4350 AP 80-90cm Beta - 95559
Ilhote do Leste 2650+350 AP 3095 a 2320 AP 100-110cm Beta - 84808
2830+50 AP 3070 a 2800 AP 80-100cm Beta - 147283
2910+90 AP 3323 a 2852 AP 90-100cm GIF - 8991
3060+40 AP 3360 a 3160 AP 130-140cm Beta - 147284
Ponta do Leste 2880+40 AP 3140 a 2880 AP 150cm Beta - 148615
Usiminas 1503431 AP 3470 a 3340 AP 40-50cm “14 CHONO Centre*2
1533+31 AP 45-50cm “14 CHONO Centre*
3180+40 AP 130-140cm Beta -205960
Ilha de Cabo Frio 1630+100 AP
2210432 AP
Boqueirão 1623+32 AP
1720 a 1300 AP 130-140cm
Beta - 205960
80-90cm “14 CHONO Centre*
20-30cm “14 CHONO Centre*
1 Datação fornecida por Rita Scheel-Ybert. 2 * Datações fornecidas por Rodolfo Ângulo.
O início da terceira camada está datado em 2080+40
anos AP (ScHEEL-YBERT, 1998), quando a ocupação
teria sido mais intensa, resultando em adensamento
da camada arqueológica.
Os moluscos mais consumidos foram a Astraea sp.,
a Olivancillaria sp., o Thaumasthus sp., O
Megalobulimus sp. e a Pinctata sp., que passa a
predominar nos níveis superiores. Da pesca,
destacam-se a enxova (Pomatomidae) e o sargo-de-
dente (Sparidae), mas também foram encontrados
muitos animais de grande porte, como cações
(Lamidae, Carcharhinidae), raias (Dasyatidae) e
mamíferos marinhos. O consumo de peixes também
aumentou consideravelmente no início do terceiro
momento de ocupação. Também foram consumidos
ouriços (Echinodermata) e vegetais, estes
representados por coquinhos calcinados. Como
instrumentos, foram identificados seixos
percutores, raspadores, lâminas de machado, além
de lascas de quartzo hialino de excelente qualidade.
A indústria óssea está representada por grande
quantidade de pontas, dentes perfurados, vértebras
trabalhadas e por espátulas. Como matéria-prima
para a elaboração das pontas foram preferidos os
mamíferos, seguidos das raias e finalmente das aves.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.311-321, abr./jun.2008
São também encontradas valvas de moluscos
apresentando desgaste por uso, trabalhadas e
também carapaças perfuradas.
A quarta camada indica um momento de declínio
da ocupação; de coloração mais clara, apresenta
bolsões de restos malacológicos e são encontrados
cinco fragmentos cerâmicos sem decoração, não
identificados.
DISCUSSÃO
O padrão de assentamento verificado na Ilha
Grande e em Arraial do Cabo apresenta pontos em
comum e também elementos divergentes. Como
traços compartilhados, observam-se: a presença de
sítios localizados em morros e morrotes associados
a sítios sobre duna; a proximidade com lagunas e
mar aberto; a ênfase na pesca; a introdução tardia
da coleta de moluscos e a exploração intensa de
espécies malacológicas que, nos sítios que
apresentam espessas camadas malacológicas, são
coletados apenas como segunda opção.
O molusco mais coletado no sítio Ilhote do Leste foi
a Lucina pectinata (Gmelin, 1791) (44%), bivalve que
apresenta grande quantidade de carne e que,
318 M.C.TENÓRIO, D.C.PINTO & M.C.AFONSO
provavelmente, teria sido um dos alimentos de maior
previsibilidade; no entanto, o consumo de moluscos
teve de ser complementado por Iphigenia brasiliana
(Lamarck, 1808) e Tagelus plebeius (Ligthfoot, 1788),
bivalves de pequeno porte encontrados num canal
que corre do lado do sítio. Já nos sítios de Arraial do
Cabo, há o predomínio da Astraea sp., gastrópode
coletado no costão que não apresenta grande
quantidade de carne, seguido de Taumasthus sp. e
Megalobulimus sp., gastrópodes terrestres pouco
presentes em sítios litorâneos que apresentam
espessas camadas malacológicas.
Em relação aos rituais funerários, existem também
pontos convergentes nas ocupações da Ilha Grande
e de Arraial do Cabo, tais como a presença de
enterramentos associados a grandes blocos de pedra,
a diversidade das posições e das orientações em que
o morto era depositado; a presença de grande variedade
de acompanhamentos funerários; o gesto de acender
fogueiras com alimentos em volta do morto; e, em
relação às ocupações nas dunas, o ato de colocar
grande quantidade de ocre a ponto de tingir de
vermelho a areia que circunda os membros superiores
do indivíduo e a deposição do morto em covas.
Como pontos divergentes nos padrões de
assentamentos das áreas estudadas, observa-se que
na Ilha Grande as ocupações são mais compactas,
enquanto em Arraial do Cabo são mais espalhadas;
na Ilha Grande, a ocupação sobre morrote é mais
intensa e nas dunas é muito menor, enquanto que
em Arraial do Cabo ocorre o inverso, sendo mais
intensa nas dunas; Arraial do Cabo apresenta sítios
em grandes elevações, em locais acima de 50m, o
que não ocorre na Ilha Grande. Arraial do Cabo
apresenta clima seco com baixa precipitação anual,
já a llha Grande apresenta alto índice pluviométrico.
Na Ilha Grande, é muito alto o número de conjuntos
de amoladores polidores fixos (42 conjuntos),
enquanto que em Arraial do Cabo só existem três
conjuntos.
Em relação às divergências presentes nos rituais
funerários, em Arraial do Cabo não foram
encontradas lâminas de machados associadas a
enterramentos, fato recorrente na Ilha Grande.
No entanto, no tocante a pontos específicos,
comparando-se a cultura material encontrada nos
sítios Ilhote do Leste (Ilha Grande) e Ponta da
Cabeça (Arraial do Cabo), cnama a atenção, além
da proximidade dos amoladores polidores fixos, a
presença dos artefatos mais característicos da Ilha
Grande no sítio Ponta da Cabeça, tais como as
lâminas de machado e as pontas elaboradas a partir
de espinho de cocoroca.
As pontas elaboradas a partir de espinhos de
cocoroca constituem o artefato de maior visibilidade
do sítio Ilhote do Leste, com cerca de 90% das
pontas localizadas nesse sítio, onde foram
encontrados 2480 exemplares divididos em 10 tipos
(Tenório & PintO, 2006). Em Arraial do Cabo, apenas
no sítio Ponta da Cabeça, foram encontrados quatro
exemplares deste artefato (Tenório & Pinto, 2006).
Outra observação importante é que, a partir de
algum momento próximo a 2830+50 anos AP,
espécies malacológicas predominantes no sítio Ponta
da Cabeça tais como, Olivancilaria auricularia
(Lamarck, 1810) e a Astraea sp. passam a aparecer
em pouca quantidade no sítio Ilhote do Leste. Além
dos moluscos, dois artefatos característicos do sítio
Ponta da Cabeça também foram percebidos no sítio
Hhote do Leste, como as quatro espátulas em osso
que serviam com acompanhamento num
enterramento e a presença de duas pontas
elaboradas a partir de esporão de raia.
Além das similaridades pontuais apontadas,
constata-se que as formas dos amoladores polidores
fixos encontrados em Arraial do Cabo não diferem
das encontradas na Ilha Grande (Fig.5).
CONCLUSÃO
Na discussão apresentada pode-se observar que
evidências de contatos e trocas são dificeis de serem
identificadas no estudo da cultura material, mas
podem ser percebidas nos elementos destoantes e
de ocorrência sutil (Tenório, 2006a,b), os quais foram
observados na abordagem dos pontos específicos.
Elementos destoantes são itens que se destacam
na cultura material de cada sítio, seja por uma
grande distorção quantitativa, seja por sua
associação a rituais que evidenciam uma
importância simbólica para o grupo. Assim sendo,
considerando a distribuição de elementos
destoantes nas duas áreas estudadas pode-se
concluir que o fato de que tivessem sido
encontradas quatro pontas elaboradas a partir de
espinhos de cocoroca no sítio Ponta da Cabeça,
elemento destoante no sítio Ilhote do Leste,
associado ao fato de que artefatos destoantes do
sítio Ponta da Cabeça tivessem sido também
encontrados em pequena quantidade, no mesmo
momento, no sítio Ilhote do Leste, pode ser
interpretado como evidência da presença de contato
e de transmissão tecnológica. A introdução no Ilhote
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.311-321, abr./jun.2008
DINÂMICA DE OCUPAÇÃO, CONTATOS E TROCAS NO LITORAL DO RIO DE JANEIRO 319
do Leste do consumo de novas espécies
malacológicas, consumidas no Ponta da Cabeça, e
a presença dos amoladores polidores fixos nas duas
áreas estudadas também corroboram a hipótese.
Embora se leve em consideração a diferença da
amostragem, pois só foi escavada uma área de 1%
no sítio Ponta da Cabeça, enquanto foi escavada
15% da área total do sítio Ilhote do Leste, os dados
apresentados constituem fortes indicadores de
contato entre os ocupantes da Ilha Grande e de
Arraial do Cabo em determinado momento de sua
ocupação pré-colonial.
Fig.5- Sulcos encontrados na Praia de Massambaba (a) e em Lopes Mendes (b). (Fotos: Maria Cristina Tenório).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.311-321, abr./jun.2008
320 M.C.TENÓRIO, D.C.PINTO & M.C.AFONSO
As semelhanças e divergências verificadas em
Arraial do Cabo e na Ilha Grande indicam que estas
áreas foram ocupadas por grupos que
compartilhavam muitos traços culturais, mas que
também apresentavam elementos diferenciadores
regionais, conforme modelo proposto por Tenório
(2006b). Segundo este modelo, teria existido no
litoral brasileiro uma cultura sambaquiana muito
antiga formada por grupos marítimos,
caracterizados por possuírem um profundo
conhecimento de técnicas necessárias à exploração
do meio aquático marinho. À essa cultura eram
constantemente agregados novos costumes trazidos
por grupos que alcançavam a costa, oriundos do
interior. Apesar deste intenso contato, essa cultura
não perdeu sua supremacia até a chegada dos
ceramistas, pois detinha o conhecimento
tecnológico necessário à exploração marítima e
também porque possuía uma cosmologia bem
estruturada, constantemente reforçada em rituais
que envolviam contatos e trocas realizados em
eventos com concentração de pessoas.
AGRADECIMENTOS
As pesquisas em Arraial do Cabo contaram com o
apoio da Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado
do Rio de Janeiro (FAPERJ) e do Conselho Nacional
de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPg)
e também fizeram parte das atividades de pós-
doutorado desenvolvido no Museu de Arqueologia
e Etnologia - MAE /USP.
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Arquivos do Museu Nacional, Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008
ISSN 0365-4508
EUPHORBIACEAE NATIVAS DE CERRADO E CAMPO RUPESTRE DA SERRA
DE SÃO JOSE, MINAS GERAIS, BRASIL:
(Com 13 figuras)
DEBORA MEDEIROS *
LUCI DE SENNA VALLE º
RUY JOSE VALKA ALVES º
RESUMO: A Área de Proteção Ambiental Serra de São José (21º03-07'S, 44º06-13'W) tem como vegetação
predominante os campos rupestres. O trabalho de campo no período de 2001/02 registrou a ocorrência
de 10 espécies subordinadas a três gêneros de Euphorbiaceae: Chamaesyce caecorum (Mart. ex Boiss.)
Croizat, Croton antisyphiliticus Mart., C. arlineae D.Medeiros, Senna & Alves, C. campestris A.St.-Hil., C.
floribundus Spreng., €. gnidiaceus Baill., C. timandroides (Didr.) Múll. Arg., C. urucurana Baill., C. vestitus
Spreng. e Euphorbia chrysophylla Klotzsch ex Boiss. O táxon Croton seção Medea (Klotzsch) Baill. sensu
Webster foi o mais expressivo em número de espécies e espécimes: C. arlineae, C. gnidiaceus, C.
timandroides e C. vestitus. Euphorbia chrysophylla mostrou-se escassa, restrita a afloramentos rochosos,
geralmente associados a córregos temporários. A análise comparativa do indumento foliar de Croton L.
através da microscopia eletrônica de varredura (MEV) mostrou que apenas C. urucurana e C. floribundus
apresentam dois tipos morfologicamente diferentes de tricomas conforme a superfície adaxial ou abaxial.
O tipo simples só ocorre adaxialmente, com nítidas gradações na redução dos raios distais, que
provavelmente resultam da transição do tricoma estrelado para o tipo simples (estado derivado). As
demais espécies apresentam apenas o tipo estrelado com pequenas variações morfológicas. Apresentam-
se chave analítica para identificação, descrições, dados complementares de fenologia, distribuição
geográfica, habitat e ilustrações de cada táxon, também classificados em Categorias de Conservação de
acordo com a União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN/2001).
Palavras-chave: Campo rupestre. Euphorbiaceae. Florística. Taxonomia.
ABSTRACT: Native Euphorbiaceae of “cerrado” and “campo rupestre” of the São José Range, Minas
Gerais, Brazil.
The São José Range (21º03-07'S; 44º06-13'W) is na Environmental Protection Area mostly composed
by “campos rupestres”. A year of field work was done and ten species subordinated to three genera
were found: Chamaesyce caecorum (Mart. ex Boiss.) Croizat, Croton antisyphiliticus Mart., C. arlineae
D.Medeiros, Senna & Alves, C. campestris A.St.-Hil., C. floribundus Spreng., C. gnidiaceus Baill., C.
timandroides (Didr.) Múll. Arg., C. urucurana Baill., C. vestitus Spreng. and Euphorbia chrysophylla
Klotzsch ex Boiss. The taxon Croton section Medea (Klotzsch) Baill. sensu Webster was the richest
group in number of species and specimens: C. arlineae, C. gnidiaceus, C. timandroides and C. vestitus,
the later was the most spread taxon in the area. Euphorbia chrysophylla showed a sparse distribution,
restricted to rocky outcrops, generally associated with temporary water courses. Analysis of foliar
indument on both surfaces of Croton L. species through scanning electron microscopy (SEM) showed
that only C. floribundus and C. urucurana present two distinct morphological types of trichomes
depending on the surface. Simple type is restricted to adaxial surface of few species. Several development
gradations of stellate type distal rays were observed, probably as a result of the transition from stellate
trichome to simple one (derivated state). Identification key, morphological descriptions, illustrations,
notes on habitat, geographic distribution, phenological, general comments and classification according
to the Red List Categories of the International Union for Nature Conservation (IUCN/2001) of each
taxon are provided.
Key words: “Campo rupestre”. Euphorbiaceae. Floristic. Taxonomy.
! Submetido em 26 de maio de 2006. Aceito em 28 de março de 2008.
Parte da Dissertação de Mestrado de D.Medeiros, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas (Botânica), Museu Nacional/UFRJ.
2? Museu Nacional/UFRJ, Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas (Botânica). Quinta da Boa Vista, São Cristóvão, 20940-040, Rio de Janeiro,
RJ, Brasil. E-mail: debora(Whemisferio.com.br.
* Museu Nacional/UFRJ, Departamento de Botânica. Quinta da Boa Vista, São Cristóvão, 20940-040, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
324 D.MEDEIROS, L.S.VALLE & RJ.V.ALVES
INTRODUÇÃO
Euphorbiaceae Juss. sensu stricto tem distribuição
pantropical, principalmente na América e na África,
com 334 gêneros (RapcLirre-SmrrH, 2001) e cerca de
6300 espécies (GovaErRrTS et al., 2000), com todos os
tipos de hábito (exceto epífitas) e em todos os tipos
de vegetação. É uma das famílias mais expressivas
na flora brasileira, tanto em nível genérico quanto
específico. Apesar do recente incremento na
pesquisa multidisciplinar sobre a família, Secco
(2001) destacou a importância da resolução de
problemas taxonômicos que ainda dificultam a
compreensão de muitos gêneros.
Euphorbia L. e Croton L. constituem os
maiores gêneros da família, com cerca de
2000 e 800 espécies respectivamente
(RADCLIFFE-SMITH, 2001). Chamaesyce
S.F Gray compreende-cerca de 250
espécies cosmopolitas (GovaErTS et al., 2000)
e sua história taxonômica esteve
constantemente associada à delimitação do
gênero Euphorbia.
Croton possui uma classificação
infragenérica controversa. Atualmente
aceita-se a sinopse realizada por WEBSTER
(1993), na qual o autor reconhece 40 seções
para o gênero. Um dos caracteres
considerados como relevantes para esta
classificação é o tipo de indumento, uma
vez que a variação morfológica do tricoma é
útil na delimitação de seções e espécies.
A Serra de São José é uma Área de
Proteção Ambiental localizada no sul de
Minas Gerais (21º03-07'S, 44º06-13'W),
entre os municípios de São João del Rei e
Tiradentes (Fig.1), numa região de
transição entre os cerrados do Brasil
Central e florestas semideciduas das
regiões Sudeste e Sul do país, onde o
relevo acidentado e grandes altitudes
promovem grandes variações ambientais
(OLIVEIRA FILHO & FLUMINGHAM FILHO, 1999).
Os campos rupestres representam o
principal tipo de vegetação, ocorrendo
disjuntamente associados a afloramentos
rochosos (ALves, 1992), predominando
sobre matas de cerrado e de galeria. A
Serra estende-se no sentido leste-oeste
por cerca de 15km de extensão e 2km de so
largura. As altitudes variam entre 900 e
1430m. Os afloramentos rochosos na
maioria são compostos por quartzito e o tipo de
solo predominante é o cambissolo álico de
textura arenosa (OLIVEIRA-FiLHO & MAcHADO, 1993).
O clima regional é do tipo Cwa, clima continental
com inverno seco (KórPrEN, 1948). A temperatura
média anual é de 18ºC e as temperaturas
absolutas oscilam muito. A ampla variação
climática no ciclo de 24h constitui um fator de
estresse para as espécies, mesmo para aquelas
que se adaptaram à vida em superfícies rochosas
expostas a altas temperaturas. As famílias mais
numerosas no cerrado e nos campos rupestres
da Serra de São José são nesta ordem: Orchidaceae,
Asteraceae, Poaceae, Melastomataceae e
Cyperaceae (ALves, 1992).
as ao
Fig.1- Mapa do Brasil indicando a área de estudo.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008
EUPHORBIACEAE NATIVAS DO CERRADO E CAMPO RUPESTRE DA SERRA DE SÃO JOSÉ, MG, BRASIL 325
Como parte do projeto “Vegetação Rupestre e
Montana Neotropical do Museu Nacional/UFRJ”
(SID/UFRJ 370104P065-8), este trabalho teve
por objetivos levantar qualitativamente as
espécies nativas de Euphorbiaceae
ocorrentes em cerrado e campo rupestre;
ampliar o conhecimento morfológico e
taxonômico da família; analisar a distribuição
geográfica dos táxons e fornecer dados ecológicos
complementares.
MATERIAL E MÉTODOS
Realizou-se um levantamento bibliográfico dos
trabalhos existentes sobre a família
Euphorbiaceae, principalmente sobre os gêneros
Chamaesyce, Croton e Euphorbia. O material
examinado foi coletado na Serra de São José no
período de 2001-02, herborizado segundo as
técnicas comuns utilizadas em trabalhos
taxonômicos e depositado no Herbário do Museu
Nacional (R). Examinaram-se fototipos
pertencentes aos Herbários R e RB.
A terminologia botânica está de acordo com Fonr
Quer (1989) e WEBERLING (1989). A morfologia
da folha seguiu Rizzini (1977) e o padrão de
nervação, Hickey (1979). A abreviação dos
nomes seguiu Brummir & PowEeL (1992); a das
obras princeps, STAFLEU & Cowan (1973-1988) e
a dos periódicos, LAWRENCE et al. (1968).
As fotografias do indumento foliar das espécies
de Croton foram obtidas através de microscopia
eletrônica de varredura (MEV). As coletas foram
particularmente preparadas visando ao
tratamento específico para MEV: em campo, as
lâminas foliares (submersas em água numa
placa de Petri) foram cortadas em fragmentos
com nervura central e margem. Foram então
preservadas em álcool 70º GL, e gradualmente
desidratadas em série etílica, sendo submetidas
ao ponto crítico e metalização com ouro.
Para a análise morfológica do indumento utilizou-
se a classificação proposta por WEBSTER et al.
(1996), em que são reconhecidos sete tipos
básicos de tricomas: estrelado, com os raios
compondo um único ciclo num mesmo plano;
fasciculado, com raios em mais de um plano;
rosulado ou multiradiado, que assemelha-se ao
fasciculado, porém com um número maior de
raios (mais de 8); dendrítico, com raios inseridos
em diferentes níveis ao longo de um eixo principal
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008
vertical; lepidoto, semelhante a uma escama
devido à total fusão entre os raios; papilado
e glandular.
As descrições morfológicas e a chave de
identificação foram elaboradas com os dados da
análise taxonômica do material coletado. As
espécies ruderais encontradas (Chamaesyce
prostrata (Ait.) Small, C. hyssopifolia (L.) Small.;
Croton glandulosus L., C. lundianus Múll. Arg.
não foram tratadas neste trabalho.
Os dados referentes aos nomes populares, à
distribuição geográfica e ao habitat das
espécies foram obtidos a partir das etiquetas
do material dos herbários: BHCB, ESAL, FCAB,
GUASTE; HXBHS GUPRA By RB, «SPpecSPE
(HoLMGREN et al., 1990).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Euphorbiaceae Juss., Gen. Pl. 384. 1789.
Árvores, arbustos, subarbustos, ervas ou
lianas; monóicas ou dióicas, suculentas ou não,
geralmente latescentes ou resinosas. Folhas
simples ou compostas, alternas, raramente
opostas ou verticiladas; limbo inteiro ou
dividido em lobos ou segmentos, tri a
quinquefolioladas. Estípulas livres, diminutas
a bem desenvolvidas, glandulares ou não.
Nectários extraflorais geralmente presentes nas
folhas e nas brácteas. Indumento, simples,
tricomas uni ou pluricelulares, unisseriados,
ou ramificados (estrelados ou lepidotos); ou
espécies totalmente glabras. Inflorescências em
racemos, glomérulos, ciátios, tirsos, axilares ou
terminais; ou flores solitárias; brácteas
glandulares ou não. Flores unissexuadas,
actinomorfas, com ou sem vestígio do sexo
atrofiado, di ou monoclamídeas. Disco
nectarifero geralmente presente, segmentado ou
inteiro. Androceu com poucos a muitos estames:
filetes curtos ou longos, livres ou concrescidos;
anteras bitecas, rimosas, introrsas ou
extrorsas; grãos de pólen na maioria
tricolporados. Gineceu tricarpelar (1 a
múltiplos): ovário livre; 3 estiletes livres ou
parcialmente concrescidos, inteiros, bífidos,
multipartidos, lobados ou laciniados no ápice.
Frutos capsulares, tricocas, deiscentes ou não.
Sementes globosas, ovóides a angulosas,
carunculadas ou não.
326
D.MEDEIROS, L.S.VALLE & RJ.V.ALVES
CHAVE PARA AS ESPÉCIES
1. Inflorescências em racemos
2. Hábito arbóreo
3. Glândulas (2-5) na base do limbo; indumento rosulado; flores pistiladas junto às estaminadas ao
ONO dE tGLESCENCIAL coeso trt ecalria Ser ea SE ndreeç a qa e pena E Dl ca go sele ado eta Croton urucurana
3”. Glândulas ausentes na base do limbo; indumento estrelado-lepidoto; flores pistiladas na base e
estaminadas na-parte-supérior da raque «e ms ecunenpr saga rqu ara Cocina acc dare regeneraas Croton floribundus
2º. Hábito subarbustivo ou arbustivo
+ Cuandulas Ausentes no mb cegencepar aqui aceMs ros Rana en acre gens e ais aeee teresa di Croton campestris
4º. Glândulas presentes no limbo
5. Glândulas na face abaxial, na base e margem do limbo ........................ Croton antisyphiliticus
5”. Glândulas ausentes na face abaxial e presentes na margem do limbo
6. Presença de pétalas bem desenvolvidas na flor pistilada .................cccicicsicits Croton gnidiaceus
6”. Pétalas reduzidas na flor pistilada
ER VSTO TALE TEECRELLE OS 422008 bater gls dl se enipçi d , d D i S D j Croton arlineae
7º. Presença de indumento estrelado
8. Limbo com margem revoluta; estípulas glanduloso-laciniadas alongadas (1,7-2mm) multipartidas
de poa E ic EE a GRE SE oo a E UR CR 4 E OA pp E E pa a ira d Croton vestitus
8”. Limbo com margem plana; estípulas glanduloso-laciniadas, 3-5 partidas (0,7-1,0mm) digitadas
EPI SR RU CASA PONTA VU PO ELSA CONT ei PU E CNS AS CRIS RR PO ES eae Croton timandroides
1º. Inflorescências em ciátios
9. Folhas alternas, com base simétrica; apêndice petalóide notoriamente ungúiculado, coberto
inteiramente por nectário extrafloral na superfície adaxial ................. Euphorbia chrysophylla
9”. Folhas opostas junto à inflorescência, com base assimétrica; apêndice petalóide oval com nectário
extrafloral na base da superficie adaxial .............
1. Chamaesyce S.F.Gray
1.1 Chamaesyce caecorum (Mart. ex Boiss.) Croizat,
J. of the Arnold Arbor. 24:187. 1943 (Fig.2).
Ervas, 6,0-32cm alt., eretas, glabras, latescentes, com
xilopódio. Caule filiforme vináceo-avermelhado, áfilo
na porção basal. Folhas verticiladas (3-5), opostas
junto à inflorescência, uninérveas, membranáceas,
linear-lanceoladas, nervura mais proeminente na face
abaxial; limbo 1,4 x 0,3cm, base aguda assimétrica,
ápice agudo, apiculado, margem inteira, cartilaginosa;
pecíolo 0,8-1,2mm compr.; estípulas 1,0Omm x 2,/0mm,
triangulares, interpeciolares, fusionadas, fimbriadas
no ápice, levemente rugosas. Inflorescências ciátios
dispostos em dicásios de pleiocásios terminais em
AS CAS à Se a a pa a Chamaesyce caecorum
diferentes estágios de desenvolvimento, 2,8-3,0mm
de diâmetro; pedúnculos 1.0-2,0mm compr.;
invólucro campanulado-arredondado, ca. 3,5 x
3,0mm, glabro na parte externa, brácteas involucrais
modificadas palmado-divididas, translúcidas na parte
interna; lobos triangulares, ciliados, tricomas longos;
apêndices 4, petalóides, ovais, alvo-amarelados, 2,0
x 1,0mm; nectários extra-florais pateliformes, na base
do apêndice, 0,3 x 1,0mm; brácteas fimbriadas, 3-
partidas, 0,5 x 0,3mm, em meio aos lobos do
invólucro. Flores estaminadas ca. 15 por ciátio;
pedicelo 0,7-1,0Omm compr.; filete 0,3-0,5mm compr.;
antera globosa ca. 0,4 x 0,2mm. Flores pistiladas
monoclamiídeas; pedicelo 1,8-2,0mm compr.; ovário
1,0-2,0 x 1,0-2,0mm; estiletes bipartidos, curtos;
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008
EUPHORBIACEAE NATIVAS DO CERRADO E CAMPO RUPESTRE DA SERRA DE SÃO JOSÉ, MG, BRASIL 327
estigmas globosos. Frutos cápsulas, 2,0 x 3,0mm,
pedicelo ca. 3,)0mm compr. Sementes 83, 2,0 x 1,Omm,
testa rugosa, envoltório mucilaginoso.
Nomes populares — “Erva-de-andorinha” (MG, SP);
“erva-de-santa-luzia”; “poainha”, “poaia-de-leite”
(MT, GO)
Distribuição geográfica e habitat — Na área estudada
ocorre em campo rupestre, cerrado e zonas de
transição entre estas fitofisionomias. Em outras
localidades, há registros em campo rupestre (BA,
DF, MG); cerrado e cerrado ralo (SP); campo sujo
(GO); campo limpo (MT, GO, PR); campos altos
queimados (GO, MG, SP) e locais alterados (DF).
Material examinado — BRASIL, MINAS GERAIS,
Tiradentes, Caminho do Mangue, 14/X1/2000 (f),
R. J. V. Alves 6954 & D. Medeiros 08 (R); topo leste
da Calçada da Serra, 2'7/II1/2001 (fl), D. Medeiros
16 (R); encosta voltada para nororeste da Calçada
da Serra, 27/II1/2001 (fl), D.Medeiros 17 (R);
encosta oeste da Calçada da Serra, 2'7 /II1/2001 (fl),
D.Medeiros 19 (R); topo da Cachoeira do Bom
Despacho, 01/1IX/2001 (fl), L.Bernardo &
D.Medeiros 114 (R); subida da trilha da Cachoeira
do Bom Despacho, 01/1X/2001 (fl), L.Bernardo &
D.Medeiros 115 (R); Calçada da Serra, 24/X/2001
(fl), D.Medeiros 128 (R); topo da Calçada da Serra,
24/X/2001 (fl), D. Medeiros 135 (R); trilha Calçada
da Serra-Cachoeira do Mangue, 24/X/2001 (fl),
D.Medeiros 141 (R); margem esquerda da cachoeira
na trilha Calçada da Serra-Cachoeira do Mangue,
24/X/2001 (fl), D.Medeiros 142 (R); Águas Santas,
subida da trilha em direção à Cachoeira do Mangue,
25/X/2001 (fl), D.Medeiros 153 (R); margem da
Cachoeira do Mangue, 25/X/2001 (fl, fr),
D.Medeiros 155 (R); encosta norte de Águas Santas,
25/X/2001 (fl), D.Medeiros 156 (R); trilha da
Cachoeira do Bom Despacho, 21/X1I/2001 (fl),
D.Medeiros 178 (R).
Observou-se a floração de alguns indivíduos logo após
a ação do fogo e as coletas ocorreram principalmente
entre agosto e dezembro, período no qual os espécimes
eram mais facilmente visualizados devido à cor
amarela dos apêndices petalóides dos ciátios.
Realizaram-se cortes à mão livre do mesofilo de
indivíduos preservados em ácool 70ºGL para
observação da bainha de clorênquima ao redor das
nervuras (anatomia Kranz), o que foi nitidamente
constatado.
Esta espécie enquadra-se na categoria “Menor
Preocupação” (“Least Concern — LC?) da Red List
Categories (2001), elaborada segundo critérios
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008
estabelecidos pela União Internacional para a
Conservação da Natureza (IUCN).
2. Croton L.
2.1. Croton antisyphiliticus Mart., Reise Bras. 1:282.
1823 (Fig.3; Fig.12-A, B).
Subarbusto 10,0-30,0cm alt., ereto ou subereto,
estrelado-pubescentes, base subterrânea lenhosa.
Folhas alternas, subcoriáceas, oblongo-
lanceoladas, base e ápice agudos, peninérveas, 2-
o glândulas pateliformes na base do limbo e outras
espalhadas acompanhando as margens, indumento
estrelado, subglabras na face adaxial; limbo 3,0-
10,0 x 1,5-3,0cm, margem irregularmente serreada;
pecíolo 0,5-1,0cm compr.; estípulas lineares,
0,3mm compr., tricomas estrelados externamente.
Inflorescências em racemos densos, 5,2-11,0cm
compr., brácteas florais lineares. Flores
estaminadas mais de 20 por inflorescência; brácteas
2,0mm compr.; pedicelo 1,0Omm compr.; sépalas 5,
lanceoladas, 2,0 x 1,0mm, tricomas estrelados
apenas externamente; pétalas 5, lanceoladas, 1,4
x 0,7/mm, ciliadas; disco de 5 segmentos; estames
10-13; filetes 1,0mm compr., glabros; anteras
ovóides, 0,8mm compr. Flores pistiladas 4-16 na
base da inflorescência; sésseis; brácteas 3,5mm
compr., tricomas estrelados externamente; sépalas
5, ciliadas, 4,0 x 1,0mm, tricomas estrelados
apenas externos; disco de 5 segmentos achatados
sobre 2/3 basais das sépalas; ovário estrigoso,
2,0mm compr., tricomas 1,5mm compr.; estiletes
2-partidos na base e no ápice. Frutos cápsulas
globosas, ca. de 3,0 x 3,0mm, estrigosos. Sementes
3, elípticas, 3,3 x 3,0mm, testa lisa, castanha.
Nomes populares — “Pé-de-perdiz”, “canela-de-
perdiz” (MG).
Distribuição geográfica e habitat — Tocantins, Mato
Grosso, Goiás, Distrito Federal, Minas Gerais, São
Paulo, Paraná e Santa Catarina. Há registros em
campos rupestres (GO, SP, MG); cerrado (MT, GO,
MG); cerrado queimado (MG, SP); cerrado-ralo (MG);
campo sujo (MT, GO, DF). Na área estudada, é
frequente em regiões de cerrado e campos rupestres,
principalmente nas áreas da vertente norte, que
são mais secas.
Material examinado — BRASIL, MINAS GERAIS,
Tiradentes, Cachoeira do Mangue, 14/X1/2000 (fl),
R.J.V.Alves 6942 & D.Medeiros 06 (R); Cachoeira
do Mangue, 13/X1/2000 (fl, fr), R.J.V.Alves 6941 &
D.Medeiros 07 (R); 22/VI/2001, D.Medeiros 683 (R);
328 D.MEDEIROS, L.S.VALLE & RJ.V.ALVES
Cachoeira do Bom Despacho, lado esquerdo da
represa, 31/VIII/2001 (fl), D.Medeiros 95, 96 (R);
Calçada da Serra, 28/IX/2001 (fl), D.Medeiros 97,
99, 100 (R); trilha Calçada da Serra-Cachoeira do
Mangue, 24/X/2001 (fl), D.Medeiros 123 (R);
Cachoeira do Bom Despacho, 25/X/2001 (fl, fr),
D.Medeiros 147, 148, 150(R); Cachoeira do Mangue,
20/X1/2001 (fl, fr), D. Medeiros 162 (R).
Classifica-se na categoria “Menor Preocupação”
(“Least Concern — LC?) da Red List Categories (2001)
baseada nos critérios da União Internacional para
a Conservação da Natureza (IUCN).
2.2. Croton arlineae D.Medeiros, Senna & Alves,
Bradea 8(44):299-302. 2002 (Fig.4; Fig.12-C, D).
Subarbusto 0,40-1,0m alt., ereto, ramos paralelos,
cilíndricos, dicotômicos, total e permanentemente
glabro. Folhas subsésseis, densamente dispostas
na parte terminal dos ramos, subcoriáceas, oval-
lanceoladas, base aguda, ápice agudo a levemente
acuminado, curtamente palmatinérveas, sem
glândulas na base, glabérrimas, resinosas, viscosas
em ambas as faces; lâmina 0,5-1,5 x 0,3-0,4cm,
margem lisa com glândulas inclusas; pecíolo 0,3mm
compr., praticamente nulo; estípulas digitadas, 0,5-
0,7mm compr., glanduloso-laciniadas, 3-6 partidas.
Inflorescências racemos curtos, com poucas flores,
1,3-2,2ecm compr., com zona nua e estéril distinta
entre as flores pistiladas na base e as estaminadas
no ápice, glabras; brácteas glanduloso-laciniadas,
linear-lanceoladas, unifloras. Flores estaminadas
6-20 por inflorescência, pedicelo 1,0-2,0mm
compr.; brácteas 3,0-3,5mm compr.; sépalas 5,
oval-lanceoladas, 2,0-3,0 x 1,0-1,5mm, margem
glandulosa, ciliada no ápice; pétalas 5, oval-
lanceoladas, 1,5-2,1 x 0,7-1,0mm, membranáceas,
translúcidas, margem ciliada; disco 5 segmentos
truncados, pateliformes; estames 11; filetes 1,0-
2,0mm compr., glabros, marrons; anteras ovóides,
0,5-1,0 x 0,3-0,6mm. Flores pistiladas 1-3 na base
da inflorescência, pedicelo 0,7-1,)0mm compr.;
brácteas 4,0-4,2mm compr.; sépalas 5, oval-
lanceoladas, 5,0-6,0 x 1,5-2,0mm, glândulas na
margem e na face externa, dispostas em 3-4 linhas
verticais, frequente uma menor que as outras,
persistentes; pétalas 5, glanduliformes, alvas, 0,1-
0,4mm compr.; disco 5 segmentos pateliformes
opostos às sépalas; ovário globoso, 2,/0mm compr.,
glanduloso, glabro; estiletes 3-5 partidos, 1/3 basal
comum em forma de coluna cilíndrica, persistentes.
Frutos cápsulas globosas, 0,4 x 0,4mm. Sementes
3, 2,3-2,5 x 1,8-2,0mm, testa lisa.
Distibuição geográfica e habitat — Minas Gerais,
Serra de São José (vertente norte), Cachoeira do
Bom Despacho. Rupícola.
Material examinado — BRASIL, MINAS GERAIS,
Tiradentes: Cachoeira do Bom Despacho, 27/III/
2001 (fl), D. Medeiros 31, 32, 33, 34 35 (R); 24/X/
2001 (fl, fr), D. Medeiros 124, 131 (R); 22/11/2002
(fl), D. Medeiros 187, 188, 189, 190, 191, 192, 198,
194, 195,0196, 197; 198, 199, 200, 201,202; 2058,
204, 205 (R).
Observou-se uma população por cerca de um ano
e três meses, quando pôde-se constatar a ocorrência
simultânea de indivíduos em diferentes estágios de
desenvolvimento da inflorescência ou frutificação.
Indivíduos estéreis restringiram-se aos jovens.
Esta espécie apresenta viscosidade intensa e suas
folhas são pegajosas, fazendo com que partículas
do solo e vestígios de animais (ex.: penas) permaneçam
aderidos à sua superficie. Quando recém-herborizados,
é possível observar uma substância resinosa de
coloração castanha entre ramos, estípulas, folhas e
órgãos reprodutivos. Essa viscosidade pode estar
associada a dois fatores principais: cutícula espessa e
abundância de glândulas que se distribuem
amplamente pelos ramos, estípulas, flores (ovário,
sépalas, pétalas) e frutos.
As glândulas na margem do limbo foliar são muito
discretas e de difícil observação, assim como
acontece em C. gnidiaceus e C. timandroides. Elas
estão praticamente inclusas na margem, sendo
mais facilmente identificadas pela suave depressão
do limbo em seu ponto de localização e por
pequenas manchas de coloração escura
(provavelmente provocadas pela liberação das
substâncias de excreção presentes nas glândulas).
A espécie mais próxima de C. arlineae é C.
gnidiaceus, da qual diferencia-se pela ausência de
indumento, redução das pétalas femininas que são
glanduliformes ao invés de flabeliformes, e
presença de glândulas nos ramos, nas sépalas
(região dorsal) e no ovário. As pétalas
glanduliformes possuem uma pequena haste com
uma glândula globosa no ápice.
Croton arlineae só foi encontrada em uma parte da
serra, na área da Cachoeira do Bom Despacho,
situada na vertente norte, que é a mais seca. O
posicionamento geográfico pode estar diretamente
relacionado ao processo de especiação, pois esta área
apresenta mais rochas e escarpas do que as áreas
de ocorrência de C. timandroides, C. gnidiaceus e C.
vestitus Spreng. É interessante observar que estes
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008
EUPHORBIACEAE NATIVAS DO CERRADO E CAMPO RUPESTRE DA SERRA DE SÃO JOSÉ, MG, BRASIL 329
três táxons não foram encontrados nas proximidades
da população estudada de C. arlineae.
De acordo com os dados levantados e expostos
anteriormente e os critérios da União Internacional
para a Conservação da Natureza (IUCN),
estabelecidos na Red List Categories (2001), esta
espécie classifica-se como “Criticamente em Perigo”
(“Critically Endangered — CR”).
2.3. Croton campestris A.St.-Hil., Pl. Usuel. Bras.
T.60. 1827 (Fig.5; Fig.12-E, F).
Arbusto 1,0-1,5m alt., ereto, ramos cilíndricos,
indumento denso estrelado. Folhas pecioladas,
subcartáceas, oblongo-lanceoladas, base e ápice
obtusos, peninérveas, sem glândulas na base,
avermelhadas e caducas quando mais velhas,
indumento denso estrelado, subglabra na face
adaxial; lâmina 2,6-7,7 x 0,9-3,7cm, margem lisa;
pecíolo 0,7-1,5cm compr.; estípulas arredondadas,
1,5 x 1,0mm, tomentosas. Inflorescências em
racemos, 1,5-8,0cm compr.; brácteas lanceoladas,
tricomas estrelados alvos. Flores estaminadas 20-
30 por inflorescência, pedicelo 0,7mm compr.; 2-
3 flores por bráctea de 1,0 x O,ômm, tricomas
estrelados só no ápice internamente; sépalas 5,
lanceoladas, 2,0 x 1,0mm, tricomas estrelados
externos; pétalas 5, lanceoladas, 1,8 x 0,/mm,
ungúiculadas, tricomas estrelados no ápice; disco
de 5-segmentado; estames 14-17; filetes 1,2mm
compr.; anteras 0,ô5mm compr., ovóides. Flores
pistiladas sésseis, poucas ou apenas uma na base
da inflorescência; brácteas 2,5 x 1,0mm; sépalas
5-6, lanceoladas, 3,0 x 1,0mm, tricomas estrelados
externos; pétalas 5, glanduliformes, reduzidas;
disco inteiro, coloração alaranjada vistosa; ovário
globoso, 2,0 x 2,0mm, tricomas estrelados;
estiletes 2-partidos desde a base, 2-3 vezes mais
longos que o ovário, ca. 5,2mm compr. cada.
Frutos cápsulas globosas, 6,0 x 4,0mm, pilosos.
Sementes elípticas, 3-3,5mm X 1,ô5mm, testa
escura com manchas claras.
2” [44
Nomes populares — “Velame”, “velame-do-campo”
(BA, MG); “velame-de-bode” (BA)
Distribuição geográfica e habitat —- Bahia, Mato
Grosso, Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul,
Minas Gerais e São Paulo. Há registros em campos
rupestres (BA, MG), zona de transição campo
rupestre-cerrado (GO, MG), zona de transição campo
rupestre-caatinga (BA), cerrado (MT, GO, MG), cerrado
degradado (SP, MG), transição cerrado-floresta semi-
decidual (BA), cerrado-ralo (GO), cerradão (SP), campo
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008
sujo (MT, MG), campo recém-queimado (DF, MG) e
caatinga (BA). Na área estudada ocorre em campos
rupestres, em solos areno-pedregosos e afloramentos
de rochas quartzíticas.
Material examinado — BRASIL, MINAS GERAIS,
Tiradentes, Cachoeira do Mangue, 13/X1/2000 (fl),
R.J.V.Alves 6936 & D.Medeiros 01 (R); idem, 13/XI/
2000 (fl), R.J.V.Alves 6939 & D.Medeiros 04 (R); idem,
13/X1/2000 (fl, fr), R.J.V. Alves & D.Medeiros 05 (R);
Cachoeira do Mangue, 24/X/2001 (fl), D.Medeiros
138, 144 (R) topo da formação principal da Serra,
extremidade oeste, 277 /II1/2001 (fl), D. Medeiros 11 (R);
alto da Cachoeira do Mangue, 27/II1/2001 (fl),
D.Medeiros 21 (R); alto da Cachoeira do Mangue, 31/
VIII/2001 (fl), D.Medeiros 105 (R); alto da Cacheira
do Mangue, trilha Calçada de Serra-Cachoeira do
Mangue, 24/X/2001 (fl, fr), D.Medeiros 119, 120,
121 (R); Calçada da Serra, 24/X/2001 (fl),
D.Medeiros 125, 126, 127, 128, 129, 130, 1582 (R).
No levantamento de herbário pôde-se observar
ampla variação morfológica do limbo foliar e
indumento. As folhas variaram de largo-obovadas
(MT, GO, MS, SP) a agudo-lanceoladas (MT, GO,
DF, BA, MG), com ápice foliar agudo, levemente
acuminado (PE, BA, MG) a obtuso (GO). A margem
do limbo apresentou-se inteira (MG) e serrilhado-
pontuada (GO, MG, SP). O indumento apresenta-
se menos áspero (MT) e mais denso, com pêlos
espessos (DF). Lima & Pirani (2003) ressaltaram “a
necessidade de estudos deste grupo, uma vez que
a existência de indivíduos com caracteres
intermediários e a falta de descontinuidades
morfológicas impossibilitam a correta determinação
da espécie”. Na área estudada, os indivíduos
coletados apresentaram caracteres constantes
dentro de um mesmo padrão morfológico, não
ocorrendo a variabilidade observada nas exsicatas
e coletas de outras localidades. Observou-se que
este padrão constante das espécies da Serra de São
José é idêntico ao representado na estampa que
acompanha o protólogo de Saint-Hilaire (1827). As
quatro variedades estabelecidas inicialmente por
Baillon (1864) foram organizadas em seis, e mais
tarde em cinco por Múller-Argoviensis (1866, 1873).
Em todos estes tratamentos recebidos, os principais
critérios utilizados na distinção entre as variedades
foram o limbo foliar (dimensão e a forma) e o
indumento (tipo e coloração). Na última
classificação infraespecífica realizada, a de Múller-
Argoviensis (1873), os indivíduos aqui estudados
se enquadram na variedade C. campestris genuinus
Múll. Arg., ou seja, são representantes da espécie
330 D.MEDEIROS, L.S.VALLE & RJ.V.ALVES
propriamente dita. Atualmente, a denominação mais
adequada é C. campestris A.St.-Hil. var. campestris.
Entre as espécies de Croton arbustivas da Serra,
C. campestris é a que apresenta as inflorescências
mais vistosas, perfumadas, com estiletes mais
longos que os das demais, e a que desenvolve maior
estatura (até 1,80m). As flores pistiladas possuem
pétalas diminutas, globosas, glanduliformes,
glabras e alvas, quase imperceptíveis, junto ao disco
na base do ovário. Porém, observou-se um indivíduo
com uma das pétalas desenvolvida, alongada, com
cerca de metade do comprimento da sépala, o que
provavelmente representa um estágio intermediário
no processo de redução das pétalas. Constatou-se
a presença de látex incolor durante o corte de
ramos. Há registro de presença de xilopódio em
indivíduo coletado em Mato Grosso.
Apesar de amplamente distribuída no Brasil,
principalmente em Minas Gerais, não foram
encontradas grandes populações de Croton
campestris na Serra de São José. Foram coletados
indivíduos isolados ou em pequenos grupos,
esparsos, ao longo dos percursos de coleta.
Este táxon classifica-se como “Vulnerável”
(“Vulnerable — VU?, de acordo com a Red List
Categories (2001), da União Internacional para a
Conservação da Natureza (IUCN).
2.4. Croton floribundus Spreng., Syst. Veg. 3:873.
1826 (Fig.6; Fig.12-G, H).
Árvore até 10,0m alt., caule estrigoso, indumento
estrelado-lepidoto. Folhas pecioladas, limbo 11,0-
15,0 x 5,0-7,0cm, cartáceas, elípticas a oblongo-
elípticas, base aguda sem glândulas, ápice
acuminado, peninérveas, indumento estrelado-
lepidoto denso, subglabra (tricomas simples) na face
adaxial margem inteira; pecíolo 3,5-6,0cm compr.;
estípulas caducas, lanceoladas, foliáceas 1,0 x
0,3cm, tricomas lepidotos. Inflorescências racemos
terminais, ca. 22,0cm compr.; brácteas lanceoladas,
ápice agudo. Flores estaminadas mais de 50 ao longo
do eixo da inflorescência; pedicelo 4,0mm compr.;
brácteas 6,0mm x 1,0mm; sépalas 5, ovadas, 4,0 x
2,omm, pilosas; pétalas 5, lanceoladas, 3,0 x 1,0mm,
pilosas, delgadas; disco com 5 segmentos
pateliformes; estames ca. 16; filetes 3,)0mm compr.,
pilosos na base; anteras 1,5mm compr., rimosas.
Flores pistiladas, mais de 20 na base da
inflorescência; brácteas 6,0 x 1,0mm; pedicelo
5,0mm compr., tricomas lepidotos; sépalas 5,
lanceoladas, 6,0 x 3,ômm, tricomas lepidotos
externos e estrelados internos; pétalas linear-
lanceoladas, 2,5-3,0 x 0,2-0,3mm, tricomas
estrelados externos; disco 5 segmentos pateliformes;
ovário globoso, 3,0 x 3,0mm, tricomas lepidotos
alvos; estilete multipartido, 5,0mm compr., tricomas
lepidotos. Frutos cápsulas, ca. de 8,0 x 5,0mm.
Sementes 3, elípticas, 5,0 x 4,0mm.
Nomes populares — “Capixingui” (MG, ES, SP),
“cambará de lixa” (MG); “marmeleiro” (PA); “sangue-
de-dragão”, “cambraia” (SP).
Distribuição geográfica e habitat — Pará, Ceará,
Pernambuco, Bahia, Mato Grosso do Sul, Minas
Gerais, Espírito Santo, São Paulo, Rio de Janeiro e
Paraná. Na área estudada ocorre em floresta
semidecídua montana, em áreas de transição entre
matas de galeria, cerrado e campo rupestre.
Material examinado — BRASIL, MINAS GERAIS,
Tiradentes, Calçada da Serra, próximo ao ínicio do
calçamento da trilha, 24/X/2001 (fl), V.C.Maia &
D.Medeiros 134 (R); idem, 21/XI/2001 (fl) V.C.Maia
& D.Medeiros 175 (R).
Croton floribundus é árvore pioneira muito frequente
na floresta estacional semidecidual, ocorrendo
eventualmente em cerradões. É muito abundante
em formações secundárias.
Este táxon pode ser facilmente reconhecido no
campo, mesmo estando estéril, pois suas folhas são
acentuadamente discolores, cartáceas, com
indumento amarelado muito áspero ao toque e não
apresentam glândulas na base. As estípulas são
bem desenvolvidas, foliáceas, porém decíduas, o
que muitas vezes impossibilita sua observação em
material seco. Os estames são cerca de 16, pilosos
na metade inferior.
Os espécimes aqui estudados diferenciam-se da
variedade C. floribundus var. piauhyensis,
estabelecida por Rizzini (1976), quanto à forma,
tamanho e cor do indumento foliar. Representam a
variedade C. floribundus Spreng. var. floribundus.
Os racemos jovens são compostos exclusivamente
por botões estaminados congestos. As flores
pistiladas desenvolvem-se mais tarde, só sendo
observadas na base do racemo após seu total
crescimento, cerca de um mês depois. Estes dados
estão de acordo com os de Passos & Sazima (1995),
que relataram uma marcada dicogamia para esta
espécie no estado de São Paulo, “sendo o indivíduo
ora funcionalmente masculino, ora feminino”.
Observaram que as flores pistiladas permanecem
receptivas por cerca de dois dias e as estaminadas
por apenas um dia.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008
EUPHORBIACEAE NATIVAS DO CERRADO E CAMPO RUPESTRE DA SERRA DE SÃO JOSÉ, MG, BRASIL ERA
Este táxon enquadra-se na categoria “Menor
Preocupação” (“Least Concern — LC?) da Red List
Categories (2001), de acordo com os critérios
estabelecidos pela União Internacional para a
Conservação da Natureza (IUCN).
2.9. Croton gnidiaceus Baill., Adansonia 4:854.
1863-64 (Fig.7; Fig. 13-A, B).
Subarbusto 40-60cm alt., ereto, ramos paralelos,
delgados, ciliíndricos, glabros nos 2/3 basais,
pubérulos quando jovens. Folhas concentradas no
ápice do ramo, subsésseis; limbo 0,6-1,3 x 0,3-07cm,
subcoriáceas, oval-lanceoladas, base aguda, ápice
arredondado-obtuso curtamente acuminado,
curtamente palmatinérvea, sem glândulas na base,
glabras à primeira vista, porém com indumento
estrelado translúcido esbranquiçado em ambas as
faces, subglabra adaxialmente; margem
moderadamente crenada, diminuto glandulosa;
pecíolo praticamente nulo; estípulas alongadas, 0,6-
0,9cm compr., glanduloso-laciniadas.
Inflorescências racemos no ápice dos ramos,
escondidos entre as folhas, 1,0-1,5ecm compr.,
tricomas estrelados; brácteas linear-lanceoladas,
glanduloso-laciniadas, tricomas estrelados externos.
Flores estaminadas 10-18 por inflorescência;
brácteas 2,5 x 1,0mm, unifloras; pedicelo 2,0mm
compr.; sépalas 5, obovadas, 2,0 x 0,8mm, margem
fimbriada, tricomas estrelados em ambas as faces;
pétalas 5, obovadas, ápice fimbriado, tricomas
simples externos, glabras internamente; disco 5
segmentos pateliformes; estames 10; filetes 1,2mm
compr., viloso; anteras mais longas que largas, 1,0
x O,omm, glabras. Flores pistiladas 1-2 na base da
inflorescência; subsésseis; brácteas 3,0 x 0,6mm,
sépalas 5, triangular-lanceoladas, 7,0 x 2,8mm,
tricomas estrelados externamente, simples
internamente; pétalas 5, subflabeliformes, 3,0 x
0,6mm, membranáceas, margem ciliada, tricomas
esparsos, coloração castanha; disco 5 segmentos,
lobados; ovário ovóide, 2,8mm compr., tricomas
estrelados; estiletes multipartidos na base (14-17).
Frutos cápsulas globosas, 3,5 x 4,0mm. Sementes
elípticas a obovais, 2,5 x 2,0mm, testa lisa.
Distribuição geográfica e habitat — Minas Gerais,
Serra de São José, Cachoeira do Mangue. Ocorre
nos campos rupestres em solo argiloso-pedregoso
e de quartzitos areníticos da vertente norte da Serra.
Material examinado — BRASIL, MINAS GERAIS,
Tiradentes, Cachoeira do Mangue, VI/2001 (fl),
D.Medeiros 36 (R).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008
Croton gnidiaceus é muito semelhante a C.
timandroides, pois ambos são subarbustos com
ramos cilíndricos, dicotômicos, folhas subsésseis
de pequenas dimensões e inflorescências compactas
escondidas entre as folhas. Em campo, a
diferenciação de C. gnidiaceus pode ser difícil à
primeira vista, mas este táxon exibe indumento
claro, não aveludado.
Os caracteres diferenciais de Croton gnidiaceus em
relação a C. timandroides são: presença de pétalas
flabeliformes alvas na flor pistilada (ausentes nas
demais espécies do gênero ocorrentes em campo
rupestre estudadas); indumento estrelado denso-
lanoso e número de estames que pode variar de 10
a 14, sendo cerca de 10-11 também nas demais
espécies próximas.
Espécie menos frequente na área de estudo do que
as espécies que lhe são próximas: Croton
timandroides, C. vestitus e C. arlineae. Realizaram-
se buscas intensivas de coleta e apenas um
espécime foi encontrado. Uma espécie até pode ser
erroneamente definida como rara, devido à falta de
esforço em coleta nas demais regiões, o que
acreditamos não ser o caso. Comparando-se sua
taxa de ocorrência com a de outras espécies nesta
área de estudo, pode-se levantar a hipótese de que
este táxon deve estar em extinção, ou que talvez
devido a mutações ao longo do tempo, ou a
hibridizações, tenha sofrido um processo de
especiação, levando à formação de outra espécies,
no caso, a nova espécie encontrada.
O fato é que se coletou C. arlineae na forma de
população, e C. gnidiaceus apenas isoladamente. A
população de C. arlineae foi acompanhada e
amostrada por um ano e dois meses, tanto
aleatoriamente nos seus limites geográficos de
distribuição quanto com espécimes marcados.
Encontraram-se alguns indivíduos representando
formas de transição entre estas duas espécies,
caracterizados por apresentar os dois tipos de
pétalas na mesma flor, sendo a pétala típica de C.
gnidiaceus sempre em minoria (uma normal ou no
máximo duas, com uma normal e outra já reduzida
e as restantes glanduliformes, extremamente
reduzidas), como se fosse um vestígio de caráter,
num processo de redução ou involução das pétalas.
Alguns indivíduos apresentaram quatro pétalas
reduzidas e apenas uma petalóide, com uma
glândula globosa no ápice.
Não existem coletas de C. gnidiaceus depositadas
nos herbários visitados. Trata-se, a princípio, de
uma espécie endêmica da área de estudo. A
332 D.MEDEIROS, L.S.VALLE & RJ.V.ALVES
continuidade do trabalho de pesquisa de campo e
de herbário faz-se fundamental para a consolidação
destes dados. O levantamento florístico de serras
vizinhas, tais como o da Serra do Lenheiro e o da
Serra do Caraça, possibilitaria definir um padrão
de distribuição geográfica mais conciso e definitivo.
O levantamento bibliográfico realizado sobre esta
espécie indicou a total ausência de trabalhos desde
o tratamento de MULLER ARGOVIENSIS (1873) na Flora
Brasiliensis.
De acordo com os dados discutidos acima e com
os critérios da União Internacional para a
Conservação da Natureza (IUCN), estabelecidos na
Red lást Catevories. (2001) esta espécie--é
considerada “Criticamente Em Perigo” (“Critically
Endangered — CE”).
2.6. Croton timandroides (Didr.) Múll. Arg., Linnaea
34:132. 1865 (Fig.8; Fig.13-C, D).
Subarbusto 20,0-60,0cm alt., ereto, ramificado
dicotomicamente, ramos cilíndricos, estrelado-
pubescentes, marrons a avermelhados. Folhas
densas no ápice dos ramos, subsésseis, limbo 1,4-
3,4 x 0,3-0,7/cm, margem inteira, plana,
subcoriáceas, oval-lanceoladas, base obtusa, ápice
agudo, peninérveas, avermelhadas e caducas
quando velhas, indumento estrelado em ambas as
faces, concentrados nas nervuras e margem; pecíolo
1,0mm compr.; estípulas diminutas, 0.7mm
compr., glanduloso-laciniadas, 3-5 partidas,
caducas. Inflorescências em racemos,
glomeruliformes, 1,0-4,3cm compr., poucas flores,
escondidas entre as folhas; brácteas lanceoladas,
margem glandulosa e tricomas estrelados externos.
Flores estaminadas ca. 15 por inflorescência;
pedicelo 1,5mm compr.; brácteas 2,4 x 1,0ômm
compr.; sépalas 5, oval-lanceoladas, 1,4 x 1,Omm,
ciliadas nas margens, tricomas estrelados externos
e esparsos internos no ápice dos lobos; pétalas 5,
obovais, 1,9 x 0,6mm, ciliadas, translúcidas; disco
de 5 segmentos pateliformes; estames ca. 11; filetes
0,8mm compr., pilosos nos 2/3 basais; anteras
0,5mm compr., ovóides. Flores pistiladas 1-2 na
base da inflorescência, sésseis; brácteas 5,0mm
compr.; sépalas 5, 4,8-6,0 x 1,0-1,3mm, tricomas
estrelados externos; disco de 5 segmentos lobados;
ovário hirsuto, 0,5mm compr., tricomas estrelados
externamente; estiletes 4-partidos (raramente 5-6-
partidos). Frutos cápsulas globosas, 4,0 x
4,0mm., indumento estrelado. Sementes 3,
elípticas, ca. 3,0 x 2,0mm, testa pontuada.
Distribuição geográfica e habitat — Bahia e Minas
Gerais. Na área estudada, ocorre em campos
rupestres, em solos entre fendas de afloramentos
rochosos e solos quartzíticos e em áreas de
cerrado.
Material examinado — BRASIL, MINAS GERAIS,
Tiradentes, Cachoeira do Mangue, 13/X1/2000
(1), R.J.V.Alves & D.Medeiros 03 (R); arredores
da Cachoeira do Mangue, 27/II1/2001 (fl, fr),
D.Medeiros 10, S0(R); trilha para a Cachoeira do
Mangue, 28/11/2001 (fl), D.Medeiros 42, 43, 44,
45, 46, 48, 49, 50, 51, 52, 53 (R); idem, 01/1X/
2001 (fl), D.Medeiros 118 (R); arredores da
Cachoeira do Mangue, 25/X/2001 (fl), D. Medeiros
149, 151, 154, 159 (R); Cachoeira do Mangue,
20/X1I/2001 (fl), D.Medeiros 161 (R); início do
calçamento da trilha Cachoeira do Mangue-Águas
Santas, 22/11/2002 (fl), D.Medeiros 178, 179,
180, 181 (R).
Croton timandroides caracteriza-se pelas folhas oval-
lanceoladas, dispostas no ápice dos ramos
cilindricos, pubérulos quando jovens e
posteriormente glabros; por suas estípulas
inconspícuas, glabras, digitadas e ocultas no
indumento, e flores pistiladas sésseis. O indumento
foliar possui uma distribuição peculiar,
concentrando-se na margem e na nervura principal
do limbo, sendo esparso ao longo da superfície da
lâmina. O número de estames é 10, sendo comum
variar entre 10-11.
As estípulas são facilmente diferenciadas das de €C.
vestitus, pois são três a quatro vezes mais curtas,
digitadas e tri-partidas. Assemelham-se às
estípulas de C. gnidiaceus e de C. arlineae por serem
glanduloso-laciniadas, mas observou-se que em C.
timandroides elas são quase que invarivelmente
digitadas.
No exame de exsicatas, as folhas podem parecer
glabras à primeira vista, mas uma observação
mais acurada em estereomicroscopia evidencia a
presença de diminutos pontos referentes ao local
de inserção de tricomas estrelados que caíram.
Este táxon é facilmente encontrado nos herbários.
Porém foram encontradas algumas espécies
morfologicamente semelhantes, determinadas como
C. timandroides, entre as quais C. vestitus.
Classifica-se como espécie “Em Perigo”
(“Endangered — EN”), de acordo com a Red List
Categories (2001), baseada nos critérios da União
Internacional para a Conservação da Natureza
(IUCN).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008
EUPHORBIACEAE NATIVAS DO CERRADO E CAMPO RUPESTRE DA SERRA DE SÃO JOSÉ, MG, BRASIL 333
2.7. Croton urucurana Baill., Adansonia 4:335. 1864
(Fig.9; Fig. 13-E, F).
Árvore 4,0-10,0m alt., ramos estrelado-
pubescentes, tomentosos quando jovens; estípulas
foliáceas, partidas no ápice na forma de um gancho
lateral, bem desenvolvidas, 0,8-1,5ecm compr.
Folhas pecioladas, indumento rosulado, subglabra
(tricomas simples) na face adaxial; limbo cartáceo,
cordiforme, base cordada, auriculada, ápice
acuminado, palmatinérveas, 2-5 glândulas
pateliformes na base do limbo e/ou ápice do pecíolo,
6,5-16,0 x 4,5-11,0cm, margem inteira; pecíolo 4,5-
10,5em compr. Inflorescências em racemos longos,
eretos, 15,0-29,0cm compr., flores estaminadas na
porção superior e pistiladas na base ou ambas,
distribuídas conjuntamente ao longo da raque;
brácteas lineares. Flores estaminadas mais de 80
por inflorescência; pedicelo 4,0mm compr.,
tricomas estrelados; brácteas 1,0-4,0 x 1,0mm,
tricomas estrelados; sépalas 5, lanceoladas, 2,0 x
1,2mm, tricomas estrelados externamente; pétalas
5, lanceoladas, 2,0 x 1,0mm, tricomas estrelados;
disco de 5 segmentos pateliformes; estames 17;
filetes 0,/mm compr., pilosos na base; anteras
ovóides, 0,ômm compr. Flores pistiladas mais de
40 por inflorescência; pedicelo 2,0mm compr.;
brácteas 3,0 x 1,0mm, tricomas estrelados externos;
sépalas 5, espatuladas 3,0 x 1,3mm, tricomas
estrelados externos; pétalas filiformes, 3,0 x 0,3mm;
disco 5-segmentado; ovário tricoca, 2,3 x 2,5 mm,
tricomas estrelados; estiletes 2-partidos na base.
Frutos cápsulas tricocas, 5,0 x 6,0mm, muricados,
deiscência explosiva. Sementes 3, elípticas, 3,9 x
3,0mm, testa rugosa, castanha.
Nomes populares — Brasil: “sangue-de-drago” (DF,
MG, SP, RJ); “sangue-de-dragão” (MG, SP); “sangra-
d'água” (DF, MS, MG); “sangria-d'água” (SP);
“adraga” (MG); “adrago” (DF); “adrago-branco” (MG);
“urucurana” (MT, SP); “casutinga” (MG); “mangue”
(MG); “pau-de-sangue” (SP); “cambraia” (SP);
“cuitelão” (SP); “coração-de-cristo”, “algodoeiro-do-
rio”, “algodoeiro-do-mato” (RJ); “sangreado”
(Paraguai), “quichua” (Equador).
Distribuição geográfica e habitat — Brasil:
Maranhão, Tocantins, Bahia, Mato Grosso, Goiás,
Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais,
São Paulo, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Paraná
e Rio Grande do Sul. Na área estudada é muito
frequente em matas ciliares e em áreas de vegetação
secundária ao longo dos rios. Ocorre também, de
forma menos significativa, em zonas de transição
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008
de floresta estacional semidecidual submontana
para cerrado, localizadas na vertente sul da Serra.
Material examinado — BRASIL, MINAS GERAIS,
Prados, Serra de São José, margem do Córrego Baú,
Gruta do Ouro, 14/X1/2000 (f), R.J.V.Alves 6953
(R). BRASIL, MINAS GERAIS, Santa Cruz de Minas,
beira da estrada velha São João del Rei-Tiradentes,
VIII/2001 (fl, fr), D.Medeiros 113 (R). BRASIL,
MINAS GERAIS, Tiradentes, Serra de São José,
Caminho do Mangue, 27/11/2001 (fl), D.Medeiros
15 (Rj: “Calçada” da- Serra, 27/11/20001 (fl),
D.Medeiros 29 (R); Calçada da Serra, 28/11/2001
(fl), D.Medeiros 47 (R); início da trilha da Cachoeira
do Bom Despacho, VI/2001 (fl), D.Medeiros 71 (R);
Calçada da Serra, próximo a brejo, 31/VIII/2001
(fl), D.Medeiros 82 (R); beira da estrada São João
del Rei-Tiradentes, 31/VIII/2001 (fl), D.Medeiros
89; início da subida na trilha Calçada da Serra,
31/VIII/2001 (FL), D.Medeiros 90 (R); Calçada da
Serra, 31/VIII/2001 (fl, fr), D.Medeiros 91 (R);
Calçada da Serra, 21/XI/2001 (fl), V.C.Maia &
D.Medeiros 167 (R); Caminho do Mangue, 21/XI/
2001 (fl), V.C.Maia & D.Medeiros 176 (R).
Croton urucurana é uma espécie pioneira aluvial,
preferindo locais pouco sombreados, ou formações
vegetais em processo inicial de regeneração
natural.
Vegetativamente, destaca-se visualmente no campo
por apresentar as folhas mais velhas fortemente
laranja-avermelhadas. Porém, como foi observado
nas coleções de diversos herbários, este táxon pode
ser facilmente confundido com C. lagoensis Múll.
Arg., C. hemiargyreus Múll. Arg. e C. celtidifolius
Baill. Estas espécies são muito parecidas,
diferenciando-se pelo número de glândulas na base
do limbo e seu respectivo posicionamento em
relação ao mesmo, modo de inserção destas
glândulas (sésseis ou estipitadas); pelo
comprimento do pedicelo das flores pistiladas e pelo
número de estames.
MULLER-ARGOVIENSIS (1873) reconheceu três
variedades para este táxon na Flora Brasiliensis,
utilizando como caracteres diferenciais a cor e a
densidade do indumento foliar. Os indivíduos aqui
estudados enquadram-se na variedade C. urucurana
Baill. var. urucurana.
Durante as coletas da espécie, não houve
exsudação de látex ou resina avermelhada, tão
comumente citada na bibliografia e que
provavelmente deu origem ao nome popular
“sangue-de-drago”. O levantamento de herbário
334 D.MEDEIROS, L.S.VALLE & RJ.V.ALVES
forneceu registros de ocorrência de látex branco
em material coletado em Agudos (SP) e látex
vermelho em material de Alfenas (MG).
Observamos que este material parece se tratar
realmente da mesma espécie, e talvez possa se
estabelecer uma relação entre os meses de
coleta e a presença de látex. De qualquer
forma, registrou-se uma diferença na coloração
do mesmo.
De acordo com os critérios da União Internacional
para a Conservação da Natureza (IUCN),
estabelecidos na Red List Categories (2001), este
táxon enquadra-se na categoria “Menor
Preocupação” (“Least Concern — LC”).
2.8. Croton vestitus Spreng., Syst. Veg. 3:875. 1826
(Figs.10, 13G-H).
Subarbusto 0,40-1,0m alt., ereto, ramos
paralelos, cilíndricos, glabros, pubérulos quando
jovens. Folhas subsésseis; limbo 1,5-4,2 x 0,2-
0,6cm, margem glandulosa-laciniada,
adaxialmente revoluta; subcoriáceas, agudo-
lanceoladas, base angulosa, ápice arredondado-
obtuso, palmatinérveas, mais concentradas no
ápice do ramo, avermelhadas e caducas quando
mais velhas, sem glândulas na base, indumento
estrelado denso em ambas as faces, aspecto
lanescente de tom esbranquiçado; pecíolo 1,0-
2,0mm compr.; estípulas alongadas, 1,7-2,0 x
O,Imm, multipartidas, glanduloso-laciniadas,
caducas e vermelho-alaranjadas quando mais
velhas. Inflorescências em racemos curtos,
glomeruliformes, 1,5-3,0cm compr., paucifloras;
flores escondidas entre folhas, brácteas linear-
lanceoladas, tricomas estrelados externamente.
Flores estaminadas 20-30 por inflorescência;
pedicelo-ca. 0,2mm compr.: brácteas 3,0-x
0,3mm, unifloras; sépalas 5, lanceoladas, 2,0 x
1,0mm, tricomas estrelados externos e
internamente no ápice dos lobos; pétalas 5,
obovadas, 1,0 x 0,4mm, membranáceas, ciliadas;
disco 5-segmentado, lobado, pateliforme;
estames ca. 10-14; filetes 1,0mm compr.,
tricomas simples na base; anteras ovóides, 0,7
x 0,4mm. Flores pistiladas ca. 2 na base da
inflorescência; sésseis; brácteas 6,0 x 0,7mm
acompanhadas de 2 laterais menores, ca. de
1,0mm compr. cada; sépalas 5, triangular-
lanceoladas, 6,0 x 2,0mm, laciniado-
glandulosas, tricomas estrelados externos; disco
o-segmentado, lobado; ovário ovóide, 3,0 x
2,omm, tricomas estrelados; estiletes 2-partidos
na base e no ápice. Frutos cápsulas globosas,
4,8mm compr., pilosos. Sementes 3, elípticas,
3,0-4,0 x 2,0mm, testa pontuada, brilhante.
Distribuição geográfica e habitat — Minas Gerais
(Serra de São José, Itabira do Campo e Serra de
Ouro Branco). Na área estudada ocorre em
campos rupestres em solo argiloso-pedregoso e
de quartzitos areníticos da vertente norte da
serra e áreas de transição de cerrado-campo
rupestre.
Material examinado — BRASIL, MINAS GERAIS,
Tiradentes, borda da trilha para Cachoeira do
Mangue, 13/XI/2001 (fl), R.J.V.Alves 6937 &
D.Medeiros 02 (R); topo da formação principal da
Serra extremidade oeste, 27 MI /L2001 (tj;
D.Medeiros 12, 15 (R); alto da Calçada da Serra,
27/11/2001 (fl, fr), D.Medeiros 22, 283, 24, 27,
35, 38, 39, 40, 41 (R); topo da Calçada da Serra,
logo após o término do calçamento da trilha, VI/
2001 (fl), D.Medeiros 73, 74, 75, 76, TT, T8 (RB);
topo da Calçada da Serra, 31/VIII/2001 (fl),
D.Medeiros 107, 109 (R); topo da Calçada da
Serra, 24/X/2001 (fl), D.Medeiros 139 (R);
Cachoeira do Mangue, 25/X/2001 (fl), D. Medeiros
157, 160 (R); Calçada da Serra, 21/XI/2001 (fl),
D.Medeiros 168 (R).
À primeira vista, Croton vestitus assemelha-se a
C. timandroides e C. gnidiaceus. Estas espécies
são subarbustos ou arbustos com ramos
cilíndricos, dicotômicos, com folhas subsésseis
de pequenas dimensões e inflorescências
compactas escondidas entre as folhas. Em campo,
a diferenciação de C. vestitus pode ser difícil à
primeira vista, porém este táxon possui folhas
mais longas e estreitas, com margem recurvada
para cima, apresentando numerosas glândulas
(estipitadas nas folhas jovens) e indumento de
aspecto lanoso, denso, esbranquiçado,
contrastando com as folhas oval-lanceoladas, de
margem plana e indumento esparso, decíduo, de
C. timandroides e C. gnidiaceus.
O indumento e as glândulas na margem do limbo
sofrem nítida variação ao longo do desenvolvimento
dos indivíduos em C. vestitus. Os jovens
apresentam glândulas estipitadas e denso
indumento, enquanto nos adultos as glândulas são
discretas, de difícil visualização no campo, e o
indumento subadpresso torna-se bem menos
lanescente. Além disso, as folhas jovens, são
praticamente dobradas adaxialmente, tanto em
indivíduos jovens como em adultos.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008
EUPHORBIACEAE NATIVAS DO CERRADO E CAMPO RUPESTRE DA SERRA DE SÃO JOSÉ, MG, BRASIL 335
SPRENGEL (1826) e MULLER-ARGOVIENSIS (1873) não
citaram a presença de pétalas nesta espécie.
Porém observamos pétalas muito reduzidas, bem
menores que os segmentos do disco,
glanduliformes, semelhantes às encontradas em
C. arlineae.
Taxonomicamente, segundo MUÚLLER-VERSALETE
(1873), C. vestitus é próximo de C. josephinus
Múll. Arg., diferenciando-se deste pela margem
do limbo estipitado-glandulosa e pela distribuição
do indumento nos filetes e anteras. Outra espécie
citada como próxima a C. vestitus nesta mesma
obra, porém com menor similaridade, é C.
nitrariaefolio (Baill.) Múll. Arg. que se diferencia
pelo indumento, pela pilosidade nas anteras e por
ser dióica.
Croton vestitus é muito abundante na vertente sul
da Serra, e ocorre em densas populações, muitas
vezes em conjunto com Croton timandroides. É
mais frequente em solo arenoso, muito exposto e
em rochas que compõem os campos rupestres.
Existem pouquíssimas coletas deste táxon
depositadas nos herbários brasileiros, e todas
estas são de campos rupestres de serras de Minas
Gerais; e o levantamento bibliográfico realizado
sobre esta espécie indicou a total ausência de
trabalhos desde o tratamento de MULLER
ARGOVIENSIS (1873) na Flora Brasiliensis.
De Acordo Com os critérios: da União
Internacional para a Conservação da Natureza
(IUCN), estabelecidos na Red List Categories
(2001), esta espécie é considerada “Em Perigo”
(“Endangered — EN?).
3. Euphorbia L.
3.1. Euphorbia chrysophylla Klotzsch ex Boiss., DC.
Prodr. 15(2):194. 1866 (Fig.11).
Ervas, 20,0-80,0cm alt., eretas, ramos simples
ou ramificados, avermelhados na porção basal,
glabros, latescentes, parte basal subterrânea,
espessada. Folhas, alternas, verticiladas
tornando-se opostas perto da inflorescência,
limbo 2,8-3,0 x 0,4-0,7cm, base simétrica,
obtusa, ápice agudo, margem inteira, espessada,
linear-lanceoladas, crasso-membranáceas, verde-
acinzentadas, peninérveas; pecíolo ca. de 1.0mm
compr.; estípulas foliáceas, interpeciolares, 1,5
x 0,7mm compr. Inflorescências em ciátios,
dispostos em dicásios, geralmente terminais em
diferentes estágios de desenvolvimento;
pedúnculos dos ciátios 1,0-6,0mm compr.;
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008
invólucro ca. 2,0 x 2,0mm, glabro na parte
externa, viloso internamente; lobos triangulares
na parte superior, tricomas simples
esparsamente distribuídos; apêndices 5,
petalóides, ungúiculados, 1,3-2,0 x 1,0mm;
nectários glanduliformes, pateliformes, adnados
à base do apêndice, 2,0 x 1,0mm; brácteas 3-
partidas, fimbriadas 1,5 x 0,5mm, em meio aos
lobos do invólucro. Flores estaminadas ca. de
16 por ciátio, em meio à numerosas bractéolas
modificadas; pedicelo ca. de O,3mm compr.; filete
0,6-1,0mm compr.; antera 0,3-0,4mm larg.
Flores pistiladas monoclamídeas; pedicelo
3,0mm compr.; sépalas triangulares, 0,6-1,0mm
x O,5mm; ovário 1,3-2,0 x 1,5-3,0mm; estiletes
3, bipartidos no ápice, ca. 1,ô5mm compr.;
estigmas globosos. Frutos cápsulas, 4,0 x 4,0mm.
Sementes 3, 2,0 x 2,0mm, testa rugosa, envoltório
mucilaginoso.
Distribuição geográfica e habitat — Minas Gerais.
Há registros em formação rupestre, entre rochas
de quartzito e itacolomito; campo pedregoso e zona
de transição cerrado-campo rupestre. Na área
estudada ocorre em campos rupestres.
Material examinado — BRASIL, MINAS GERAIS,
Tiradentes, trilha de acesso pela Cachoeira do
Bom Despacho, 24/X/2001 (fl, fr), D. Medeiros
146 (R); Cachoeira do Mangue, encosta sul do
córrego, 25/X/2001 (fl, fr), D. Medeiros 152 (R).
O látex de Euphorbia chrysophylla é abundante e
extremamente viscoso e pegajoso, podendo ser
observado em todos os órgãos da planta.
Os indivíduos coletados habitavam solos
formados sobre rochas de quartzito, entre
fendas, próximos a fontes de água permanentes
e temporárias. Observamos que nas populações
vizinhas encontravam-se, quase que
invariavelmente, Phyllantus nirurie Chamaesyce
caecorum. Porém, sua distribuição geográfica e
frequência mostraram-se muito mais restritas
que esta última.
Acreditamos que o baixo número de exsicatas
depositado nos herbários visitados seja
proporcional ao esforço de coleta e não uma
consequência de uma possível redução
populacional. Entretanto, de acordo com os dados
obtidos até o momento e os critérios estabelecidos
pela União Internacional para a Conservação da
Natureza (IUCN), na Red List Categories (2001),
Euphorbia chrysophylla é considerada “Vulnerável”
(“Vulnerable — VU?).
336 D.MEDEIROS, L.S.VALLE & RJ.V.ALVES
A
Fig.2- Chamaesyce caecorum (Mart. ex Boiss.) Croizat. (A) hábito; (B) inflorescências; (C) ciátio, flor pistilada ao centro; (D)
parte interna do ciátio; (E) flor estaminada; (F) fruto; (G) semente (vista ventral). Escalas: (A) 2cm, (B) mm, (C) Imm, (D)
Imm, (E) Imm, (F) 2mm, (G) Imm; (D.Medeiros 153-R).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008
EUPHORBIACEAE NATIVAS DO CERRADO E CAMPO RUPESTRE DA SERRA DE SÃO JOSÉ, MG, BRASIL 337
Fig.3- Croton antisyphiliticus Mart. (A) ramo; (B) estípula; (C) detalhe da superfície foliar abaxial, (C” glândula; (D) detalhe
da base da folha com glândulas; (E) flor estaminada; (F) flor pistilada; (G) fruto; (H) semente (vista ventral). Escalas: (A)
2cm, (B) Imm, (C) 0,5mm, (C? 0,5mm, (D) 0,5mm, (E) 2mm, (F) Imm, (G) 2mm, (H) 2mm; (D.Medeiros 123-R).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008
338 D.MEDEIROS, L.S.VALLE & RJ.V.ALVES
Fig.4- Croton arlineae D.Medeiros, Senna & Alves. (A) ramo; (B) detalhe do ramo com glândulas e estípula ao centro; (C)
inflorescência, (D) flor estaminada: (E) sépala (vista ventral), (F) pétala (vista ventral); (G) flor pistilada; (G” pétala; (H)
fruto; (I) semente (vista ventral). Escalas: (A) 2cm, (B) 0,5mm, (C) 5mm, (D) 2mm, (E) Imm, (F) Imm, (G)2mm, (G? 0,5mm,
(H) 2mm, (1) 2mm; (D.Medeiros 33-R).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008
EUPHORBIACEAE NATIVAS DO CERRADO E CAMPO RUPESTRE DA SERRA DE SÃO JOSÉ, MG, BRASIL Sao
Fig.5- Croton campestris A.St-Hil.. (A) ramo; (B) inflorescência; (C) flor estaminada: (D) pétala (vista ventral); (E) flor pistilada:
(F]) sépala (vista ventral), (G) detalhe do disco com pétalas globosas reduzidas (seta) entre os segmentos; (H) fruto; (1)
semente (vista ventral). Escalas: (A) 2cm, (B) mm, (C) Imm, (D) Imm, (E) Imm, (F) Imm, (G) Imm, (H) 2mm, (1) 2mm;
(D.Medeiros 132-R).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008
340 D.MEDEIROS, L.S.VALLE & RJ.V.ALVES
Fig.6- Croton floribundus Spreng. (A) ramo; (B) estípula; (C) flor estaminada em botão: (D) sépala (vista dorsal), (E) pétala
(vista dorsal); (F) flor pistilada: (G) sépala (vista dorsal), (H) pétala (vista dorsal). Escalas: (A) 2cm, (B) mm, (C) 2mm, (D)
Imm, (E) Imm, (F) 2mm, (G) 2mm, (H) Imm; (D.Medeiros 175-R).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008
EUPHORBIACEAE NATIVAS DO CERRADO E CAMPO RUPESTRE DA SERRA DE SÃO JOSÉ, MG, BRASIL 341
Fig.7- Croton gnidiaceus Baill. (A) ramo; (B) estípula; (C) inflorescência; (D) flor estaminada: (E) sépala (vista dorsal), (F)
sépala (vista ventral), (G) pétala (vista dorsal); (H) flor pistilada: (I) sépala (vista dorsal), (J) pétala (vista ventral); (L) fruto;
(M) semente (vista ventral). Escalas: (A) 2cm, (B) Imm, (C) 5mm, (D) Imm, (E) Imm, (F) Imm, (G) Imm, (H) 2mm, (1) 2mm,
(J) 2mm (L) 2mm, (M) 2mm; (D.Medeiros 36-R).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008
342 D.MEDEIROS, L.S.VALLE & RJ.V.ALVES
— q
)
y
y:
=
ES
A
Fig.8- Croton timandroides (Didr.) Múll. Arg. (A) ramo; (B) estípula; (C) flor estaminada: (D) pétala (vista ventral), (E) pétala
(vista dorsal); (F) flor pistilada: (G) sépala (vista dorsal); (H) fruto; (1) semente (vista ventral). Escalas: (A) 2cm, (B) Imm, (C)
Imm, (D) Imm, (E) Imm, (F) 2mm, (G) 2mm, (H) 2mm, (1) 2mm; (D.Medeiros 159-R).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008
EUPHORBIACEAE NATIVAS DO CERRADO E CAMPO RUPESTRE DA SERRA DE SÃO JOSÉ, MG, BRASIL 343
; um a
))) a
Fig.9- Croton urucurana Baill. (A) ramo; (B) estípula; (C) detalhe da base da folha, (C” glândula; (D) flor estaminada; (E) flor
pistilada: (F) disco com pétalas filiformes reduzidas; (G) fruto; (H) semente (vista ventral). Escalas: (A) 2cm, (B) Imm, (C)
Imm, (C?) Imm, (D) 2mm, (E) 2mm, (F) Imm (G) 2mm, (H) 2mm; (D.Medeiros 71-R).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008
344 D.MEDEIROS, L.S.VALLE & RJ.V.ALVES
Fig.10- Croton vestitus Spreng. (A) ramo; (B) estípula; (C) inflorescência; (D) flor estaminada: (E) sépala (vista ventral), (F)
estame; (G) flor pistilada; (H) fruto; (1) semente (vista ventral). Escalas: (A) 2cm, (B) 2mm, (C) mm, (D) 2mm, (E) Imm, (F)
Imm, (G) 2mm, (H) 2mm, (1) 2mm; (D. Medeiros 38-R).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008
EUPHORBIACEAE NATIVAS DO CERRADO E CAMPO RUPESTRE DA SERRA DE SÃO JOSÉ, MG, BRASIL 345
: D
Fig.11- Euphorbia chrysophylla Boiss. ex Klotzsch. (A) ramo; (B) inflorescência; (C) flor pistilada (ao centro) e flores
estaminadas no ciátio; (D) flor estaminada; (E) fruto jovem. Escalas: (A) lcm, (B) ô5mm, (C) 2mm, (D) Imm, (E) 2mm;
(D.Medeiros 146-R).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008
346 D.MEDEIROS, L.S.VALLE & RJ.V.ALVES
EZRA TA A
Vi, Pora dy
Fig.12- Fotomicrografias (MEV) do indumento foliar em Croton (MEV): superficie abaxial (à esquerda) e adaxial (à direita). (A),
(B): C. antisyphiliticus; (C), (D): C. arlineae; (E), (F): C. campestris; (G), (H): C. floribundus. Escalas: (A-B, D-H) 100um, (C) 50um.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008
EUPHORBIACEAE NATIVAS DO CERRADO E CAMPO RUPESTRE DA SERRA DE SÃO JOSÉ, MG, BRASIL 347
- La SÁ ' |
Ap TO
Fig.13- Fotomicrografias (MEV) do indumento foliar em Croton (MEV): superficie abaxial (à esquerda) e adaxial (à direita).
(A), (B): C. gnidiaceus; (C), (D): C. timandroides; (E), (F): C. urucurana; (G), (H): C. vestitus. Escalas: 100um.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008
348 D.MEDEIROS, L.S.VALLE & RJ.V.ALVES
CONCLUSÕES
A Serra de São José possui sua maior parte coberta
por vegetação típica de campo rupestre, e
provavelmente o número de espécies encontradas
não representa o total real, pois é notável a riqueza
de endemismos neste tipo de ambiente. Apesar de
não estar entre as cinco famílias dominantes em
número de espécies, Euphorbiaceae está muito bem
representada em número de indivíduos de alguns
táxons, como Chamaesyce caecorum, Croton
antisyphuliticus, C. timandroides e C. vestitus.
Croton seção Medea, sensu Webster (1994), é o
grupo mais expressivo tanto em número de espécies
(C. arlineae, C. gnidiaceus, C. timandroides e C.
vestitus) como em número de indivíduos. As
espécies de Croton ocupam diferentes áreas da
serra, de acordo com as vertentes norte e sul.
Apenas C. timandroides e C. vestitus foram
observados em áreas de contato num mesmo ponto
de coleta. O trabalho de herbário e a análise
taxonômica mostraram que o material depositado
nas instituições é escasso, e que na maioria das
vezes espécies taxonomicamente próximas são
igualmente identificadas como C. timandroides.
Entre as contribuições taxonômicas e morfológicas,
destacam-se a descrição de uma espécie nova para
a Ciência (Croton arlineae) e o primeiro registro de
recoleta de C. gnidiaceus desde o material-tipo
descrito por Baillon. A observação e a
esquematização das pétalas (reduzidas em C.
urucurana e em C. floribundus; extremamente
reduzidas em C. campestris e flabeliformes em C.
gnidiaceus) complementaram as descrições
originais e outras subsequentes.
A variação morfológica dos tricomas foliares
associada a outros caracteres constitui importante
caráter taxonômico em Croton, o que justifica a
realização de estudos morfológicos e anatômicos.
Os tricomas simples apresentaram-se como
exceções, tendo ocorrência restrita à superficie
adaxial de C. urucurana, como também em C.
antisyphiliticus e C. floribundus se considerarmos a
significativa redução dos raios distais, muitas vezes
ausentes de todo. As espécies arbustivas de campo
rupestre só apresentaram tricomas simples nas
estruturas florais, como filetes, anteras e face(s) das
pétalas. Os tricomas do tipo estrelado-lepidoto,
considerados uma categoria do tipo lepidoto,
restringiram-se a C. floribundus; e os do tipo
rosulado a C. urucurana.
Pôde-se caracterizar a distribuição geográfica dos
táxons em: ampla (América do Sul e Brasil), nos
casos de Chamaesyce caecorum, C. urucurana e €.
floribundus; moderada (cerrados do Brasil Central),
para C. antisyphiliticus e C. campestris; restrita
(campos rupestres de Minas Gerais e Bahia), para
C. timandroides, C. vestitus e Euphorbia
chrysophylla; e muito restrita, para C. gnidiaceus
e C. arlineae.
AGRADECIMENTOS
A Dra. Valéria Maia (Museu Nacional - Rio de
Janeiro), pela parceria no trabalho de campo; à
Direção da Floresta Nacional (FLONA) de Ritápolis/
MG e a Pedro Sérgio Fernandes (Tiradentes, MG),
pelo apoio logístico. Ao Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq),
pela bolsa concedida a D.Medeiros; à Coordenação
de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior
(CAPES), pela verba Pró-Reitoria de Administração
e Planejamento (PROAP) concedida ao Programa de
Pós-Graduação em Ciências Biológicas (Botânica)
do Museu Nacional.
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ISSN 0365-4508
Arquivos do Museu Nacional, Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.351-353, abr./jun.2008
DESCRIÇÃO DE UMA NOVA ESPÉCIE DE CYRTONEUROPSIS MALLOCH,
1925 (DIPTERA, MUSCIDAE) E PRIMEIRO REGISTRO DO GÊNERO
NO ESTADO DO MARANHÃO, BRASIL:
(Com 6 figuras)
MÁRCIA S. COURI 23
GABRIEL P. DA S. BARROS *?
MARCELO P. ORSINI 255
RESUMO: Cyrtoneuropsis maranhensis sp.nov. do Estado do Maranhão, Brasil, é descrita com ilustrações da
terminália do macho e da fêmea. O gênero é assinalado pela primeira vez no Estado do Maranhão, Brasil.
Palavras-chave: Diptera. Muscidae. Cyrtoneuropsis maranhensis sp.nov. Taxonomia. Novo registro.
ABSTRACT: Description of a new species of Cyrtoneuropsis Malloch, 1925 (Diptera, Muscidae) and first
record of the genus for the state of Maranhão, Brazil.
Cyrtoneuropsis maranhensis sp.nov. from the State of Maranhão, Brazil, is described with illustrations of
male and female terminalia. The genus is recorded for the first time from the State of Maranhão, Brazil.
Key words: Diptera. Muscidae. Cyrtoneuropsis maranhensis sp.nov. Taxonomy. New record.
INTRODUÇÃO
Cyrtoneuropsis Malloch, 1925 é um múscida de
distribuição neotropical com 33 espécies válidas
(CarvaLHO et al., 2005). Este gênero foi durante
muitos anos considerado sinônimo de Cyrtoneurina
Giglio-Tos, 1893, porém foi recentemente revalidado
(PamPLONA, 1999 e Pont & PampLONA, 2000).
Cyrtoneuropsis pode ser facilmente separado dos
demais múscidas na chave de CarvaLHO & CoURI
(2002) tendo como diagnose o seguinte conjunto
de caracteres: cerdas dorsocentrais 2:4, cerdas
caterpisternais 1:2, anepímero setuloso, parede
pós-alar nua, arista com longos cílios, podendo em
algumas espécies ter cílios secundários, nervura
R, setulosa na superfície ventral, nervura M
levemente curvada apicalmente.
O material referente à espécie aqui descrita foi
coletado em uma expedição na região de Igarapé
Paraqueú, Rosário, Maranhão no ano de 1970 pelo
ornitólogo e acarologista do Museu Nacional,
Universidade Federal do Rio de Janeiro Herbert
Franzoni Berla (1912-1985).
! Submetido em 06 de julho de 2007. Aceito em 14 de abril de 2008.
O material examinado encontra-se depositado na
coleção do Museu Nacional, Rio de Janeiro (MNRJ).
Cyrtoneuropsis maranhensis sp.nov.
(Figs.1-6)
Coloração geral — Castanha com pouca polinosidade
cinza; parafaciália, faciália e lânula castanha com
polinosidade prateada; gena castanha com
polinosidade cinza; antena e palpo amarelos. Pós-
pronoto e ápice do escutelo amarelo escuro. Asas
hialinas com ápice da nervura subcostal e nervuras
transversais r-m e dm-cu com manchas castanhas.
Caliptra hialina, alguns exemplares com a borda
da caliptra inferior castanha; halteres amarelos;
espiráculos brancos, o posterior com a borda
castanha. Pernas castanhas. Abdome castanho com
tergito 1 e metade basal do tergito 2 amarelos,
tergito 2 com duas manchas triangulares castanhas
na metade basal.
E > Comprimento: corpo: 5,0-6,0mm; asa: 5,0-
S,omm.
Cabeça — Olhos nus; antena inserida na altura
? Museu Nacional/UFRJ, Departamento de Entomologia. Quinta da Boa Vista, São Cristóvão, 20940-040, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
* Bolsista de Produtividade em Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico (CNPq).
E-mail: mcouri(aterra.com.br
* Bolsista UFRJ/PIBIC.
* Bolsista CNPq/PIBIC.
352
M.S.COURL G.P.S.BARROS & M.PORSINI
da metade dos olhos, flagelo cerca de 2,5-3 vezes cerda mediana nas faces ântero-ventral, ântero-
mais longo que o pedicelo; arista longamente dorsal e póstero-dorsal e uma cerda apical nas faces
ciliada com 20-24 cílios e com cílios secundários ântero-dorsal e ventral.
curtos. Vibrissa forte, com
comprimento semelhante ao da
arista. Palpo com cílios longos
ventrais e curtos dorsais.
Tórax — Cerdas acrosticais O:l;
dorsocentrais 2:4; pré-alar
presente; intralares 0:2;
supralares 2; prosterno com
cerdas na margem e propleura
nua. Escutelo com um par de
cerdas basais e um par de
cerdas apicais, ambos longos;
anepisterno com uma série de
quatro cerdas longas; cerdas
catepisternais 1:2; anepímero com
cílios longos e retos no disco;
catepimero com grupo de cílios
nos 2/3 anteriores. Asas com
nervura R, com cílios dorsais em
toda sua extensão e cerca de três
cílios ventrais; R,,, com cílios
dorsais, mais espaçados depois da
transversal r-m e com cílios
ventrais em toda sua extensão.
Fêmur anterior com uma fileira de
cerdas fortes nas superfícies
dorsal, póstero-dorsal e póstero-
ventral. Tíbia anterior com uma
cerda apical nas superfícies
dorsal, posterior, ventral e
póstero-dorsal. Fêmur médio com
uma fileira de cerdas anteriores no
terço basal; uma fileira de cerdas
ântero-ventrais no terço basal;
uma fileira de cerdas póstero-
ventrais nos dois terços apicais,
duas cerdas apicais póstero-
dorsais fortes; uma cerda apical
posterior forte. Tíbia média com
duas cerdas posteriores fortes
inseridas no limite dos terços, uma
cerda apical nas faces ântero-
ventral, póstero-dorsal, póstero-
ventral e ventral, a última mais
forte. Fêmur posterior com uma
fileira completa de cerdas na face
ântero-dorsal; face ântero-ventral
com cerca de 2-3 cerdas no terço
apical e face dorsal com uma cerda
apical. Tíbia posterior com uma
Cyrtoneuropsis maranhensis sp.nov.: fig.1- esternito 5, O ; fig.2- placa cercal, vista
frontal, O; fig.3- complexo fálico, vista dorsal; fig.4- complexo fálico, vista lateral;
fig.5- ovipositor, vista dorsal; fig.6- ovipositor, vista ventral. Escalas = 0,2mm.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.351-353, abr./jun.2008
DESCRIÇÃO DE UMA NOVA ESPÉCIE DE CYRTONEUROPBSIS E 1º REGISTRO DO GÊNERO NO MARANHÃO, BRASIL 353
Abdome — Tergito 5 com uma fileira discal e uma
apical de cerdas finas. Esternito 5 com cerdas mais
concentradas no terço apical, mais longas
lateralmente (Fig.1).
Terminália — Sustilo longo ultrapassando a margem
da placa cercal; edeago arredondado no ápice
(Figs.2-4).
Pa comprimento: corpo; 5,0-6,0mm; asa: 5,0-5,0mm.
Semelhante ao macho, porém com olhos afastados
cerca de um terço da largura da cabeça; seis cerdas
frontais; cerdas verticais internas e externas mais
longas e fortes que as do macho; cerdas
interfrontais cruzadas presentes.
Ovipositor — Tamanho médio; tergitos e esternitos
estreitos e longos; membrana do segmento 8 com
curtos espinhos ventrais (Figs.5-6).
Variação cromática — A série examinada apresenta
variação cromática especialmente nos tergitos
abdominais que podem variar de amarelo a
castanho; nas manchas castanhas triangulares na
base do tergito abdominal 2 que podem ser pouco
nítidas; nas manchas das asas que podem variar
de castanho bem claro a castanho escuro e na
coloração dos palpos, de amarelo a castanho.
Material examinado - Holótipo G : BRASIL:
Maranhão, Igarapé Paraqueú, Rosário, 20-22/XI/
1970; Berla col. Parátipos : 89 e 409, mesmos
dados de coleta do holótipo (MNRJ).
Etimologia — O nome da espécie refere-se à
procedência do material (Estado do Maranhão, Brasil).
DISCUSSÃO
Na chave de CarvaLHO & Court! (2002), Cyrtoneuropsis
maranhensis sp.nov. aproxima-se de C. dubia
(Snyder, 1954), sendo morfologicamente bastante
semelhante a ela, porém diferindo pela presença
de mancha castanha clara na dm-cu e
principalmente pela morfologia bastante distinta
das terminálias masculina e feminina. SnyDER (1954)
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.351-353, abr./jun.2008
comentou sobre a existência de espécies deste
gênero tanto com quetotaxia muito diferente e
terminálias muito semelhantes, quanto outras
distintas apenas pela morfologia das terminálias.
Couri (1995) descreveu C. pararescita e discutiu a
sua semelhança morfológica com C. rescita Walker,
1861 porém com terminálias distintas.
Cyrtoneuropsis maranhensis sp.nov. corresponde ao
primeiro registro deste gênero no Estado do
Maranhão, Brasil.
AGRADECIMENTO
Ao MsC André Mallemont Cunha (MMNR), pela
ajuda na confecção da prancha.
REFERÊNCIAS
CARVALHO, C.J.B., COURI, M.S., PONT, A.C.,
PAMPLONA, D. & LOPES, S.M., 2005. A catalogue of
the Muscidae (Diptera) of the Neotropical Region.
Auckland: Zootaxa 860. 282p.
ARVALHO, C.J.B. & COURI, M.S. 2002. Part I. Basal
roups. In: CARVALHO, C.J.B. (Ed.) Muscidae (Diptera)
f the Neotropical Region: Taxonomy. Curitiba. Editora
niversidade Federal do Paraná, p.17-132.1
OURI, M.S., 1995. Uma nova espécie de Cyrtoneurina
iglio-Tos do Brasil (Diptera, Muscidae). Revista
rasileira de Zoologia, 12(2):229-232.1
AMPLONA, D., 1999. Nova caracterização de
yrtoneurina Giglio-Tos, 1893 e descrição de
aracyrtoneurina gen. nov. (Diptera, Muscidae). Revista
rasileira de Entomologia, 43(1/2):9-24.1
ONT, A.C. & PAMPLONA, D., 2000. A note on the genus
aracyrtoneurina Pamplona, 1999 (Diptera, Muscidae).
tudia Dipterologica, 7:223-224.1
NYDER, F.M., 1954. A revision of Cyrtoneurina Giglio-T
os, with notes on related genera (Diptera, Muscidae).
ulletin of the American Museum of Natural History,
03:417-464.
ISSN 0365-4508
Arquivos do Museu Nacional, Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.355-358, abr./jun.2008
A NEW SPECIES OF GALL MIDGE (DIPTERA, CECIDOMYINDAE)
ASSOCIATED WITH SEBASTIANIA GLANDULOSA (EUPHORBIACEAE) !
(With 14 figures)
UELLINTON PEREIRA DE OLIVEIRA 2º
VALÉRIA CID MAIA 2 *
ABSTRACT: Clinodiplosis conica sp.nov., a new cecidomyiid that induces conical bud galis on Sebastiania
glandulosa (Mart.) Pax (Euphorbiaceae) is described (larva, pupa, adults male and female) based on material
from restinga areas of the State of Rio de Janeiro (Brazil).
Key words: Diptera. Cecidomyiidae. Clinodiplosis conica sp.nov. Gall. Taxonomy.
RESUMO: Uma nova espécie de mosquito galhador (Diptera, Cecidomyiidae) associado com Sebastiania
glandulosa (Euphorbiaceae).
Clinodiplosis conica sp.nov., um novo cecidomiídeo que induz galhas cônicas nas gemas de Sebastiania
glandulosa (Mart.) Pax (Euphorbiaceae) é descrito (larva, pupa, adultos macho e fêmea) com base em material
coletado em áreas de restinga do Estado do Rio de Janeiro (Brasil).
Palavras-chave: Diptera. Cecidomyiidae. Clinodiplosis conica sp.nov. Galha. Taxonomia.
INTRODUCTION
Three kinds of insect galls have been recorded on
Sebastiania glandulosa (Mart.) Pax (Euphorbiaceae):
conical bud gall, spherical bud gall, and marginal
leaf roll (Figs.35-37, respectively, in Maia, 2001).
All of them are induced by not determined species
of gall midges (Diptera, Cecidomyiidae). In this
paper, the inducer of conical bud gall is identified
and described based on material from the restinga
areas of the State of Rio de Janeiro.
MATERIAL AND METHODS
Part of the examined specimens was previously
incorporated into the Diptera collection of Museu
Nacional, Rio de Janeiro (MNRJ) by V.C.Maia as
voucher material of previous ecological investigations.
As few specimens were deposited, field works were
done in order to obtain more material.
Samples of conical galls on Sebastiania glandulosa
were collected in June and July 2000, August 2002,
and July 2008 at the restinga of Barra de Maricá
(Maricá, Rio de Janeiro). The samples were carried
to the laboratory in plastic bags, where they were
'! Submitted on September 27, 2005. Accepted on March 28, 2008.
transfered to plastic pots in order to obtain adults
and pupal exuviae. These pots were checked daily.
The material obtained were first preserved in 70%
ethanol and then mounted on slides following the
methodology of Gaank (1994). All specimens
(including the types) are deposited in the Diptera
collection of Museu Nacional, Rio de Janeiro
(MNRJ). Terminology for adult and immature
morphology follows Gacné (1994).
Clinodiplosis conica sp.nov.
(Figs.1-14)
Diagnosis — Spatula with two divergent anterior
teeth; prothoracic spiracle digitiform and long
(larva); abdominal segments 2-7 with dorsal spines
restricted at basal 1/3 and integument sculptured
beyond midlength; abdominal segments 8 and 9
without spines (pupa); tarsal claws simple, curved
beyond midlength, empodium rudimentary; female
tergites 1-7 rectangular with a row of caudal and
mesal setae (adult).
DESCRIPTION
Adult - Body length: 2.0-2.3mm (n=4). Head
(Fig.1): Eye facets circular, closely approximated.
2? Museu Nacional/UFRJ, Departamento de Entomologia. Quinta da Boa Vista, São Cristóvão, 20940-040, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
* E-mail: vellintonoliveira(dyyahoo.com.br.
* E-mail: maiavcid(macd.ufr;.br.
356 U.POLIVEIRA & V.C.MAIA
Antenna with hemispherical and setose scape,
globose and setose pedicel, binodal and
tricircumfilar male flagellomeres (circumfila with
loops regular in length) (Fig.2), bare necks in both
sexes; female with cylindrical and mesally
constricted flagellomeres, female circumfila as
two interconnected rings (Fig.3). Flagellomere 12
with a setulose apical process in both sexes.
Frontoclypeus with 10 setae (n=4). Labrum long-
attenuate with three pairs of ventral sensory
setae. Hypopharynx of the same shape as labrum,
with long, anteriorly directed lateral setulae.
Labellae elongate-convex, each with several
lateral setae and a pair of short mesal sensory
setae. Palpus with four setose crescent cylindrical
segments.
Thorax. Anepimeron with 5-10 setae (n=3), other
pleural sclerites asetose. Wing (Fig.4) length: 1.75-
1.9mm (n=4). Tarsal claws simple, curved beyond
midlength; empodium not reaching to the bend of
the claw (Fig.5).
Abdomen. G (Fig.6): tergites 1-7 rectangular with
a complete row of caudal setae, several lateral
setae, two basal trichoid sensilla and elsewhere
with scattered scales. Tergite 8 not sclerotized,
with two trichoid sensilla. Sternites 2-7
rectangular with setae more abundant mesally, a
complete row of caudal setae, several lateral
setae and two basal trichoid sensilla; sternite
8 rectangular with a complete row of caudal
setae, scattered mesal setae, lateral setae and
two basal trichoid sensilla. Female (Fig.7) —
tergites 1-7 rectangular with a complete row of
caudal setae, a row of mesal setae, lateral setae,
two basal trichoid sensilla and elsewhere with
scattered scales; tergite 8 not sclerotized with a
pair of trichoid sensilla. Sternites 2-7 rectangular
with setae more abundant mesally, a complete
row of caudal setae and two basal trichoid
sensilla. Sternite 8 not sclerotized and with a pair
of trichoid sensilla.
G terminalia (Fig.8). Gonocoxites wide with a
setose mesobasal lobe, gonostylus slightly curve,
with 0.78 gonostylus long; cerci secondarily
lobed and setose; hypoproct elongate, deeply
bilobed (lobes narrow) and longer than cerci;
aedeagus long-attenuate, rounded at apex and
longer than hypoproct.
Ovipositor (Fig.9). Barely protrusible, cerci
elongate ovoid, separate and setose (a pair of
apical setae stronger than the others); hypoproct
sligthly bilobed and setose. Length from distal
margin of sternite 7 to end: 0.42-0.45mm.
Pupa. Color: brownish. Length: 2.2-2.4mm (n=83).
Head (Fig.10): antennal horn triangular, simple,
short (length: 0.0lImm; n=3); cephalic seta 0.04-
0.05mm long (n=3); two pairs of setose lower facial
papillae: one pair with a seta 0.0iImm long (n=3)
and the other asetose; three pairs of lateral facial
papillae (one pair setose and the others asetose).
Upper cephalic margin thickened laterally.
Thorax: prothoracic spiracle digitiform and well
developed (length: 0.18-0.19mm, n=2) (Fig.11);
wing sheath reaching 1/2 of abdominal segment
3; foreleg sheath ending at midlength of
abdominal segment 5; midleg sheat ending at 2/
3 of abdominal segment 5; hindleg sheath ending
at distal 1/3 of abdominal segment 5. Abdomen:
segments 2-7 with well developed dorsal spines
at basal 1/3, dorsal papillae at midlength and
striae near distal 1/3 (Fig.12); segments 8 and 9
without spines.
Larva. Body cylindrical and tapered at both ends.
Color: yellow. Length: 2.1-2.7mm (n=4).
Integument rough. Spatula with two divergent
anterior teeth and stalk long (Fig.13). Sternal
papillae asetose.Two groups of three lateral
papillae on each side of spatula. Ventral papillae
asetose, terminal segment with three pairs of
corniform papillae (a pair shorter than the others)
and a pair of setose papillae (setae 0.025-0.03mm
long, n=4) (Fig. 14).
Gall (Fig.35 in Maia, 2001). Conical bud gall,
reddish or green, one-chambered.
Type-material —- BRAZIL, RIO DE JANEIRO: Maricá
(Restinga da Barra de Maricá), 13/VIII/2002,
V.Maia leg., Holotype O . Paratypes: same data —
1S ; same locality and collector - 11/VII/2003,
2 larvae; 18/VII/2003, 2 pupal exuviae and 19:
11/11/2005, 29 . MNRJ.
Other material — BRAZIL, RIO DE JANEIRO:
Maricá (Restinga da Barra de Maricá), 12/VI/
2001, Maia and Azevedo colis, 2 pupae and 1
pupal exuvia; 18/VII/2003, Costa and Maia cols,
1S and 1 pupal exuvia. Carapebus, 29/VI/1998,
V.Maia leg., 2 pupal exuviae; same locality and
collector, 29/VI/1998, 2 pupal exuviae; 24/VII/
1998, 19; 26/1X/1998, 1 larva; 28/XI/1998, 1
pupal exuvia. MNRJ.
Etymology — The name conica refers to the shape of
the gall.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.355-358, abr./jun.2008
357
A NEW SPECIES OF GALL MIDGE ASSOCIATED WITH S. GLANDULOSA
Clinodiplosis conica sp.nov.— fig.1- O, head (frontal); fig.2- O, antennal flagellomere 5; fig.3- 2, antennal flagellomere 5;
fig.4- O , wing; fig.5- O , foreleg, tarsal claw and empodium (lateral); fig.6- O , abdominal segment 6 to 8 (dorsolateral); fig.7-
P , abdominal segment 5 to end (dorsolateral); fig.8- O, terminalia (lateral); fig.9- ? , cerci and hypoproct (lateral). Scale
bars: 1=0.16mm; 2-3=0.05mm; 4=0.5mm; 5=0.3mm; 6,8-9=0. Imm; 7=0.45mm.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.355-358, abr./jun.2008
358 U.POLIVEIRA & V.C.MAIA
e sa
Pupa of Clinodiplosis conica sp.nov.— fig. 10- head (frontal); fig. 11- prothoracic spiracle; fig. 12- abdominal segment 7 (dorsal);
fig.13- larva, spatula prothoracic and associated papillae (ventral); fig.14- abdominal segments 8 and 9 (dorsal). Scale
bars: 10,12=0.2mm; 11,13-14=0. Imm.
ACKNOWLEDGEMENTS REFERENCES
We are grateful to Fundação de Amparo à Pesquisa GAGNÉE, R.J., 1994. The gall midges of the Neotropical
do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) (Proc. region. Ithaca: Cornell University Press, 352p.
171.290/06), for financial support. MAIA, V.C., 2001. The gall midges (Diptera,
Cecidomyiidae) from three restingas of Rio de Janeiro
State, Brazil. Revista Brasileira de Zoologia
18(2):583-629.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.355-358, abr./jun.2008
ISSN 0365-4508
Arquivos do Museu Nacional, Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.359-362, abr./jun.2008
GALL MIDGES (DIPTERA, CECIDOMYIIDAE)
ASSOCIATED WITH HETEROPTERIS NITIDA DC. (MALPIGHIACEAE) '
(With 20 figures)
ROBERTA NOVO-GUEDES 2º
VALÉRIA CID MAIA 24
ABSTRACT: Four species of gall midges (Diptera, Cecidomyiidae) were obtained from flower buds of Heteropteris
nitida DC. (Malpighiaceae). Clinodiplosis floricola sp.nov. (larva, pupa, male and female) is described based on
material collected at the restinga of Barra de Maricá, Maricá, Rio de Janeiro.
Key words: Diptera. Cecidomyiidae. Clinodiplosis floricola sp.nov. Gall. Malpighiaceae.
RESUMO: Mosquitos de galhas (Diptera, Cecidomyiidae) associados com Heteropteris nitida DC. (Malpighiaceae).
Quatro espécies de mosquitos de galha (Diptera, Cecidomyiidae) foram obtidas de botões florais de Heteropteris
nitida DC. (Malpighiaceae). Clinodiplosis floricola sp.nov. (larva, pupa, macho e fêmea) é descrita com base
em material coletado na restinga da Barra de Maricá, Maricá, Rio de Janeiro.
Palavras-chave: Diptera. Cecidomyiidae. Clinodiplosis floricola sp.nov. Galha. Malpighiaceae.
INTRODUCTION
Heteropteris nitida DC. (Malpighiaceae) occurs from
Bahia to Paraná and is very abundant at the restinga
of Barra de Maricá, where it is easily found along
the road of Zacharias Beach (Mais, 2001). The closed
flowers of this plant are frequently destroyed by
larvae of Clinodiplosis sp. (Diptera, Cecidomyiidae),
which leave the plant and pupate in the soil. In this
paper, this species of Clinodiplosis is described.
Phytophagous larvae of other species of
Cecidomyiidae were found at the same time in the
closed flowers. These species are recorded herein.
MATERIAL AND METHODS
Part of the examined specimens was previously
obtained by Maia (2001). Additional material was
obtained by rearing. For this, samples of closed
flowers were collected at the restinga of Barra de
Maricá (Maricá, RJ) in April, 2005 and carried to
the laboratory of Diptera, where they were kept in
plastic pots containing a layer of soil on the bottom
(as the larva pupates in the soil) and covered by a
fine screening. The pots were checked daily. Adults
and pupal exuviae were preserved in 70% ethanol.
'! Submitted on September 28, 2005. Accepted on March 28, 2008.
Later, they were mounted on microscope slides
following the methodology of Gacné (1994).
The Cecidomyiidae genera were identified based on
the keys of Gacnk (1994).
All material was deposited in the Diptera collection
of Museu Nacional, Rio de Janeiro (MNRJ).
RESULTS
Four species of gall midges (Diptera, Cecidomyiidae)
were obtained from the closed flowers of Heteropteris
nitida, namely: Clinodiplosis floricola sp.nov.,
Youngomyia sp., Lestodiplosis sp., and a not
determined Cecidomyiidi.
Clinodiplosis floricola sp.nov. is described and
illustrated as larva, pupal exuviae, male, and female
(Figs.1-20). Youngomyia sp. and Lestodiplosis sp.
(probably both new species) are recorded for the
first time on this host plant.
Clinodiplosis Kieffer, 1895 is a cosmopolitan genus
with 93 known species. Most are fungivorous, but
many Neotropical species are phytophagous (GacnÉ,
2004). Twelve species have been recorded from
Brazil on Asteraceae (n=3), Lamiaceae (n=1),
Melastomataceae (n=1), Moraceae (n=1), Myrtaceae
(n=1), Orchidaceae (n=1), Rubiaceae (n=2) and
2? Museu Nacional/UFRJ, Departamento de Entomologia. Quinta da Boa Vista, São Cristóvão, 20940-040, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
* E-mail: roberngue(Dyahoo.com.br.
* E-mail: maiavcid(acd.ufr;.br.
360 R.NOVO-GUEDES & V.C.MAIA
Verbenaceae (n=2) (Gacnk, 2004). This is the first
record on Malpighiaceae.
Youngomyia Felt, 1908 is a genus known from six
species. It has been recorded from Neotropical,
Neartic and Oriental regions and includes gall
forming species and inquilines. Only one species,
Youngomyjia pouteriae Maia, 2001 has been recorded
from Brazil (Gacné, 2004).
Lestodiplosis Kieffer, 1894 is a cosmopolitan genus
with 168 described species. It comprises only
predaceous species. Seven species have been
recorded from the Neotropical region and a single
one is known from Brazil (Gacnk, 2004).
Clinodiplosis floricola sp.nov.
(Figs.1-20)
Larva — Body length: 1.90-2.23mm (n=6). Spatula
(Fig.1) 2-toothed; length: 0.09-0.12mm (n=6).
Sternal papillae asetose, two groups of three lateral
papillae on each side of spatula (two pairs setose).
Terminal segment (Fig.2): three pairs of corniform
papillae and one pair of setose papillae (setal length:
0.03-0.04; n=6).
Pupa -— Length: 1.70-1.92mm (n=3). Head (Fig.3):
antenal horn short with 0.015mm of length (n=1);
apical seta long (length: 0.07; n=2) (Fig.4); two pairs
of lower facial papillae (one asetose and the other
setose, setal length: 0.0lImm, n=2) (Fig.5); three
pairs of lateral facial papillae, one pair setose and
two without seta (Fig.6). Prothoracic spiracle (Fig.7)
elongate with 0.25-0.30mm oflength (n=5) and thin.
Foreleg sheath reaching the distal margin of
abdominal segment 5, midleg sheath reaching basal
1/9 abdominal segment 6 and hindleg sheath
reaching the basal 1/3 of abdominal segment 6.
Abdominal segments 2-8 with conspicuous spines
at basal 1/3, restricted to mesal region; distal
spines gradually crescent (Fig.8).
Adult — Head (Fig.9): occipital process present. Eye
facets hexagonal, all closely approximated. Antenna:
male flagellomeres binodal and tricircumfilar,
circumrfila loops regular in length, flagellomere necks
subequal to distal node length (Fig.10); female
flagellomeres cylindrical with neck well developed,
measuring 0.36 times the total length of the
flagellomere, female circumfila as two connected
horizontal rings (Fig.11). Flagellomere necks bare
in both sexes. Flagellomere 12 with apical process,
setulose in both sexes. Frontoclypeus with 8 setae
(n=8). Labrum triangular, long-attenuate, with 3
pairs of ventral sensory setae. Hypopharynx as long
as labrum, with anteriorly directed lateral setulae.
Labella elongate-convex, each with several long
lateral setae and two pairs of short mesal sensory
setae. Palpus with four crescent cylindrical
segments, all with setae (Fig. 12).
Thorax. Wings: length: 1.14-1.67mm (n=6) in male
(n=6), 1.6mm in female (n=1); venation (Fig.13): R,
as long as 2/5 of wing length, R, present and
evanescent, R, curved, joining C beyond wing apex,
M, evanescent; CuA forked. Anepisternum bare.
Anepimeron with 4-6 setae (n=6). Tarsal claws
simple, bent before midlength and irregular in
width, abruptally attenuate subapically; empodium
short, reaching bent in claws (Fig. 14).
Abdomen. O (Figs.15-16): tergites 1-7 rectangular
with a distal row of setae and a basal pair of trichoid
sensilla, tergite 8 not sclerotized with only a pair of
trichoid sensilla. Sternites 2-7 rectangular with a
caudal row of setae, irregular mesal rows of setae
and a pair of trichoid sensilla; sternite 8 sclerotized,
rectangular, conspicuously shorter than sternite 7,
with scattered setae near distal margin and at mesal
region and a pair oftrichoid sensilla. Female (Fig. 177):
tergites 1-7 rectangular with rounded lateral margin,
a caudal row of setae, some lateral setae near mesal
region and a pair oftrichoid sensilla; tergite 8 shorter
than the precedent, elongate, with a pair of trichoid
sensilla and no setae. Sternites 2-7 rectangular,
sternite 8 quadrate, with a caudal row of setae,
scattered setae at mesal region, lateral setae present
and a basal pair of trichoid sensilla. Male terminalia
(Fig.18): gonocoxite with mesal lobe; gonostylus about
4/5 of gonocoxite length, thin, regular in width, striate
except near basis, basis setulose; cercus setose and
secondarily lobed; hypoproct narrow, conspicuously
longer than cercus, deeply bilobed, and setose;
aedeagus elongate conspicuously longer than
hypoproct and rounded at apex. Ovipositor (Fig.19)
protrusible, female cerci (Fig.20) elongate-ovoid and
setose, with a pair of apical seta stronger than others,
female hypoproct narrow, elongate and setose.
Material examined — Holotype, O . BRAZIL, RIO DE
JANEIRO: Maricá (Barra de Maricá), 05/VI/1998,
V.Maia leg., MNRJ. Paratypes, same locality, date
and collector, 2? ; same locality and collector, 28/
1/1998, 6 larvae; same locality, 20/1X/2000, Maia
& Azevedo leg., 26 , 19 , 1 pupal exuviae (slide with
more one species); same locality, 30/11/2004,
V.Maia leg., 10 larvae; same locality, 11/V/2004,
V.Maia leg., 1S, 19 ; same locality, 11/11/2005,
V.Maia leg., 36 ; same locality, 16/IV/2005, Guedes
& Maia leg., 46, 1? and 2 pupal exuviae, MNRJ.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.359-362, abr./jun.2008
GALL MIDGES ASSOCIATED WITH AH. NITIDA 361
Clinodiplosis floricola sp.nov. - fig.1- larva, prothoracic spatula, sternal and lateral papillae, ventral view; fig.2- larva,
segments terminal, dorsal view; fig.3- pupa, head, frontal view; fig.4- pupa, apical seta, dorsal view; fig.5- pupa, lower
facial papillae, frontal view; fig.6- pupa, lateral facial papillae, frontal view; fig.7- pupa, prothoracic spiracle; fig.8- pupa,
abdominal segment 2, lateral view; fig.9- adult, female head, frontal view; fig.10- adult, male flagellomere 5; fig.11- 2,
flagellomere 3; fig.12- 9, palpus; fig.13- 2, wing; fig.14- 2, hindleg, tarsal claw; fig.15- O , abdominal segments 6 to 8,
tergites, lateral view. Scale bars: 1, 14=0.02mm; 2, 4, 5=0.10mm; 3=0.30mm; 6, 8, 10, 12=0.05mm; 7, 9, 15=0.20mm;
11=0.03mm; 13=0.50mm; 14=0.02mm.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.359-362, abr./jun.2008
362 R.NOVO-GUEDES & V.C.MAIA
Clinodiplosis floricola sp.nov., adults - fig. 16- G , abdominal segments 6 to 8, esternites, lateral view; fig.17- 2 , abdominal
segments 5 to end; fig.18- male terminalia, dorsal view; fig. 19- ovipositor, lateral view; fig.20- female cerci and hypoproct,
ventral view. Scale bars: 16-17=0.2mm; 18-19=0.Imm; 20=0.05mm.
Etymology — The name floricola refers to the part
of the plant where the larva lives.
Remarks — This species is distinctive by the apical
process of flagellomere 12 with setulae; tarsal
claw simple, bent before midlength and abruptally
attenuate subapically; male cerci secondarily
lobed and male tergite 8 not sclerotized.
Other material — Youngomyia sp.: BRAZIL, RIO DE
JANEIRO: Maricá (Barra de Maricá), 05/VI/1998,
V.Maia leg., 20 ; 16/IV/2005, Guedes & Maia leg.,
86 , MNRJ.
Lestodiplosis sp.: BRAZIL, RIO DE JANEIRO:
Maricá (Barra de Maricá), 05/VI/1998, V.Maia
leg., 32 ; 16/IV/2005, Guedes & Maia leg., 19,
MNRJ.
Not determined Cecidomyiidi: BRAZIL, RIO DE
JANEIRO: Maricá (Barra de Maricá), 16/IV/2005,
Guedes & Maia leg., 10, MNRJ.
ACKNOWLEDGEMENTS
We are grateful to Dr. Maria Antonieta Pereira de
Azevedo (MNRJ), for help during field work, and
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio
de Janeiro (FAPERJ -— Proc. 171290/06), for
financial support.
REFERENCES
GAGNÉ, R.J., 1994. The gall midges of the Neotropical
region. Ithaca: Comstock Cornell University Press, 352p.
GAGNÉÊ, R.J., 2004. A catalog of the Cecidomyiidae
(Diptera) of the world. Memoirs of the Entomological
Society of Washington 25:408p.
MAIA, V.C., 2001. The gall midges (Diptera, Cecidomyiidae)
from three restingas areas of Rio de Janeiro State, Brazil.
Revista Brasileira de Zoologia 18(2):583-629.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.359-362, abr./jun.2008
Arquivos do Museu Nacional, Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.363-372, abr./jun.2008
ISSN 0365-4508
MORFOLOGIA COMPARADA DA TERMINÁLIA MASCULINA
DE QUATRO ESPÉCIES DE OXYSARCODEXIA TOWNSEND, 1917
(DIPTERA, SARCOPHAGIDAE):
(Com 20 figuras)
KARLLA PATRÍCIA SILVA 23
CÁTIA ANTUNES DE MELLO-PATIU 24
RESUMO: Muitas espécies de Oxysarcodexia, um dos gêneros neotropicais mais numerosos da família
Sarcophagidae, são conhecidas apenas por descrições que não fornecem argumentos suficientes para sua
segregação, principalmente pela falta de detalhamento da morfologia da genitália. Um estudo comparativo e
minucioso da terminália masculina de O. avuncula, O. confusa, O. diana e O. parva, espécies morfologicamente
bastante similares, resultou no levantamento de um conjunto de caracteres que permitem uma melhor
segregação das espécies.
Palavras-chave: Sarcophagidae. Oxysarcodexia. Terminália. Morfologia.
ABSTRACT: Comparative morphology of the male terminalia of four species of Oxysarcodexia Townsend,
1917 (Diptera, Sarcophagidae).
Many species of Oxysarcodexia, one of the most numerous neotropical genera of the family Sarcophagidae,
are known only by descriptions which do not supply enough arguments for species segregation, mainly by
the lack of detailed morphological study of the genitalia. A comparative and elaborate study of the male
terminalia of O. avuncula, O. confusa, O. diana and O. parva, species with very similar morphology, has
resulted in the survey of a character set which has allowed the species segregation.
Key words: Sarcophagidae. Oxysarcodexia. Terminalia. Morphology.
INTRODUÇÃO
O gênero Oxysarcodexia Townsend, 1917 está
representado por 79 espécies descritas até o
momento, a maioria de tamanho médio,
frequentemente coprófagas, mas algumas podem
ser predadoras (Pare, 1996). Dentre os
Sarcophaginae neotropicais, é um dos gêneros
com maior número de espécies, com distribuição
bastante ampla no Brasil (TiBana & MELLO, 1985;
Lores & TiBana, 1987; Pare, 1996).
Embora seja um grupo muito frequente e
abundante nas coletas e nas coleções, a
diferenciação de muitas espécies é bastante
complexa e, frequentemente, as diferenças
específicas são limitadas aos caracteres genitais
dos machos (Parc, 1996). Estes possuem edeago
sempre bem desenvolvido, com basifalo e distifalo
unidos. A ventrália (= vesica) se apresenta
articulada ou móvel e bastante ornamentada,
! Submetido em 18 de abril de 2007. Aceito em 14 de abril de 2008.
constituída fundamentalmente por uma formação
rija inserida na região mediana do edeago, de
onde partem expansões lateralmente dirigidas,
muitas vezes com bordos dentados ou com outros
tipos de ornamentações e/ou formações na forma
de lóbulos. A ventrália é uma estrutura com
características específicas neste gênero, devido a
grande diversidade que apresenta, o que a torna
um caráter de estudo essencial para a distinção
das espécies de Oxysarcodexia (LorEs, 1946). Elas
também apresentam uma estrutura que se
desenvolve na parte interna do distifalo, ligando
o estilo mediano à base da ventrália, funcionando
como uma alavanca para a elevação do estilo
mediano durante a cópula (Rosack, 1954). Esta
estrutura, denominada por Rosack (1954) como
“dorsal roads” e por GuiMaRrÃES (2004) como hastes
dorsais, está presente em todos os gêneros da
tribo Raviniini, entre eles Oxysarcodexia.
A identificação das espécies de Oxysarcodexia é
2? Museu Nacional, Departamento de Entomologia, Quinta da Boa Vista, São Cristóvão, 20940-040, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
* E-mail: karlla-patricia(dbol.com.br.
* E-mail: camello(dacd.ufr;.br.
364 K.PSILVA & C.A.MELLO-PATIU
muito complexa e, para Lores (1946), algumas
apresentam similaridade morfológica marcante,
especialmente quanto à forma do edeago. As
informações sobre distribuição geográfica
podem algumas vezes auxiliar nestes casos,
quando as espécies envolvidas na identificação
ocorrem em regiões ou ambientes distintos.
Nesse contexto, Oxysarcodexia parva Lopes, 1946,
O. confusa Lopes, 1946, O. avuncula (Lopes, 1933)
e O. diana (Lopes, 1933), constituem um grupo
de espécies com edeago muito similar,
simpátridas e atraídas pelas mesmas iscas (LOPES,
1946). As quatro espécies ocorrem ao longo da
América do Sul, com registros desde o México até
a Argentina e, mais especificamente no Brasil,
ocorrem do Ceará até Santa Catarina, incluindo
os estados da região Centro-Oeste (Park, 1996).
Logo, sabendo que os estudos até hoje realizados
não fornecem argumentos suficientes para
distinção entre elas, ressalta-se a importância de
uma revisão da morfologia da terminália
masculina que conduza ao levantamento dos
caracteres diferenciais e ao fornecimento de dados
para a identificação mais segura.
MATERIAL E MÉTODOS
Para estudo da terminália foram realizadas
dissecções dos segmentos genitais, na altura do
protândrio. Para a diafanização, o material foi
colocado em solução aquosa de hidróxido de
potássio (KOH) a 10%, aquecido em banho-maria
por cerca de cinco minutos, e passado pela
seguinte sequência: água destilada, ácido acético
a 50%, água destilada e etanol comercial 96ºGL.
A terminália foi transferida para lâmina contendo
glicerina não-hidratada, protegida por lamínula,
e foram observadas e ilustradas através de
estereomicroscópios e microscópios ópticos
providos com câmara-clara. Ao final do estudo,
cada peça foi depositada em tubo plástico
pequeno contendo glicerina, alfinetado ao seu
respectivo espécime.
A terminologia adotada para as estruturas
gerais da terminália segue McALrPINE (1981), para
as estruturas do edeago seguiu-se LorES &
TiBaNA (1987), exceto estilos laterais e medianos
usados como em MELLO-PariU & PaPE (2000). Todo
o material utilizado neste estudo pertence à
coleção do Museu Nacional, Rio de Janeiro
(MNRJ), Universidade Federal do Rio de Janeiro,
Rio de Janeiro, Brasil.
RESULTADOS
Oxysarcodexia avuncula (Lopes, 1933)
(Figs.1-5)
Sarcophaga avuncula Lopes, 1933:156.
Localidade-tipo — BRASIL, RIO DE JANEIRO, Rio
de Janeiro, Manguinhos. Lopes, 1939:119.
Oxysarcodexia avuncula; Lopes, 1946:98; Lopes &
Tibana, 1987:330.
Terminália — Sintergosternito 7+8 e epândrio
castanhos, cobertos com polinosidade dourada
na região dorsal; sintergosternito 7+8 com seis
cerdas pré-apicais bem desenvolvidas em série
e cerdas esparsas pouco desenvolvidas, mais
robustas na região dorsal; cerco curto, castanho-
avermelhado, com ápice truncado e apicalmente
enegrecido, apresentando largura similar à base
em vista posterior, com cerdas pouco
desenvolvidas e com uma pequena dobra apical
esclerosada em vista lateral (Figs.1-3); surstilo
claviforme, ápice com poucas cerdas próximas
a margem (Fig.1); parâmero alongado, pouco
menor que o gonópodo, com uma cerda mediana
lateral pouco desenvolvida; gonópodo robusto
com extremidade pontiaguda, apresentando uma
reentrância na região mediana (Fig.1); edeago
castanho, mais esclerosado na região apical,
basifalo e distifalo fundidos apresentando uma
cicatriz na região da união (Figs.1,4); estilos
laterais com base arredondada, apresentando
uma projeção lateral e com ápices afilados, com
ornamentações espinhosas pouco desenvolvidas
e projetados paralelamente; estilo mediano em
forma de calha, com metade do tamanho dos
estilos laterais (Fig.5); hastes dorsais presentes,
ligando o estilo mediano à base da ventrália;
ventrália esclerosada e articulada com o
distifalo, região mediana da face ventral
membranosa, ápice com dois lóbulos laterais
muito espinhosos e com porção membranosa,
apresentando entre eles uma formação
esclerosada e levemente denteada na face ventral
(Figs.1, 4-5).
Material examinado — BRASIL: MINAS GERAIS,
Cambuquira, 16, 08/X1I/1969, H.Hebert col.
ESPÍRITO SANTO, Linhares, 40, VII/1972,
P.C.Elias col.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.363-372, abr./jun.2008
MORFOLOGIA COMPARADA DA TERMINÁLIA MASCULINA DE QUATRO ESPÉCIES DE OXYSARCODEXIA 365
Oxysarcodexia avuncula (Lopes, 1933): fig.1- terminália, vista lateral; fig.2- cerco, vista posterior; fig.3- cerco, vista lateral,
fig.4- edeago, vista lateral; fig.5- edeago, vista ventral [(ba) basifalo; (ce) cerco; (di) distifalo; (el) estilo lateral; (em) estilo
mediano; (go) gonópodo; (hd) hastes dorsais; (pa) parâmero; (su) surstilo; (ve) ventrália]. Escalas = 0, Imm.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.363-372, abr./jun.2008
366 K.PSILVA & C.A.MELLO-PATIU
Oxysarcodexia confusa Lopes, 1946
(Figs.6-10)
Oxysarcodexia confusa Lopes, 1946:96.
Localidade-tipo — BRASIL, RIO DE JANEIRO, Miguel
Pereira. Lopes & Tibana, 1987:332.
Terminália — Sintergosternito 7+8 e epândrio
castanhos cobertos de polinosidade dourada na
região dorsal; sintergosternito 7+8 com oito
cerdas pré-apicais bem desenvolvidas em série
e cerdas esparsas pouco desenvolvidas, mais
robustas na região dorsal; cerco castanho com
ápice enegrecido, apresentando-se reentrante
na região mediana e muito divergente na metade
apical, em vista posterior (Fig.7), ápice
pontiagudo com uma projeção lateral dobrada,
em vista lateral (Fig.8), base bem mais larga
que o ápice, com cerdas longas e robustas
densamente dispostas (Figs.7-8); surstilo
claviforme com poucas cerdas próximas à
margem apical (Fig.6); parâmero alongado,
pouco menor que o gonópodo, sem a longa cerda
mediana usual; gonópodo com extremidade
pontiaguda e esclerosada (Fig.6); edeago
castanho-avermelhado, mais esclerosado na
região apical, basifalo e distifalo fundidos
apresentando uma cicatriz evidente na região
da união (Fig.6); estilos laterais com base
arredondada, ápices curtos, apresentando
ornamentações espinhosas; estilo mediano em
forma de calha, bem maior que os estilos
laterais e com ornamentações escamosas e
pilosidade na região basal; hastes dorsais
presentes, ligando o estilo mediano à base da
ventrália (Fig.10); ventrália bastante
esclerosada e curta, ricamente ornamentada
com placas escamosas por toda extensão, ápice
com dois lóbulos laterais esclerosados com
formações escamosas intensamente dispostas
e com uma pequena projeção mediana distal
entre eles, base com uma formação
membranosa na articulação com o distifalo
(Figs.6, 9-10).
Material examinado — BRASIL: MINAS GERAIS,
Cambuquira, 26 , 08/X1I/1969, H.Hebert col.;
RIO DE JANEIRO, Rio de Janeiro, Alto da Boa
Vista, 16, 05/IV/1984, H.Guimarães col.;
Petrópolis, 16, 13/11/1972, H.S.Lopes col.
PARANÁ, Castro, 10, 09/1/1972, H.S.Lopes col.;
SANTA CATARINA, São Bento do Sul, 20, 06/
XI[/1969, H.Hebert col.
Oxysarcodexia diana (Lopes, 1933)
(Figs.11-15)
Sarcophaga diana Lopes, 1933:156.
Localidade-tipo — BRASIL, RIO DE JANEIRO, Rio
de Janeiro. Lopes, 1939:119.
Oxysarcodexia diana; Lopes, 1946:98; Lopes &
Tibana, 1987.
Terminália — Sintergosternito 7+8 e epândrio
castanhos cobertos de polinosidade dourada na
região dorsal; sintergosternito 7+8 com oito
cerdas pré-apicais bem desenvolvidas em série e
cerdas esparsas pouco desenvolvidas, mais
robustas na região dorsal; cerco castanho, com
ápices esclerosados e escurecidos, apresentando-
se levemente reentrante abaixo da região
mediana, em vista posterior, ápice com uma
projeção lateral dobrada apicalmente e com
cerdas esparsas pouco desenvolvidas, base larga
com cerdas longas e robustas densamente
dispostas (Figs.11-13); surstilo claviforme com
poucas cerdas próximas à margem apical e
superfície interna apresentando uma pequena
peça esclerosada semitriangular (Fig.11);
parâmero alongado com tamanho similar ao
gonópodo e com uma cerda mediana lateral pouco
desenvolvida; gonópodo esclerosado com
extremidade arredondada (Fig.11); edeago
castanho escuro, mais esclerosado na região
apical, basifalo e distifalo fundidos apresentando
uma cicatriz na região da união (Figs.11,14);
estilos laterais com bases arredondadas e com
projeção alongadas e denteadas, ápices afilados,
com espinhos laterais; estilo mediano em forma
de calha, localizado pouco acima dos estilos
laterais e com pequenas ornamentações
escamosas e pilosidades na região basal (Fig.18);
hastes dorsais presentes, ligando o estilo mediano
à base da ventrália; ventrália curta e mais
esclerosada na região basal, apresentando
ornamentações escamosas a partir da região
mediana até o lóbulos apicais, ápice dividido em
dois lóbulos arredondados, inteiramente
membranosos, que se dobram lateralmente e
apresentam entre si uma formação esclerosada e
pontiaguda ventral (Figs.11, 14-15).
Material examinado — BRASIL: RIO DE JANEIRO,
Angra dos Reis, 26, 03/XI/1971, H.S.Lopes col.;
SÃO PAULO, São Paulo, Butantã, 26, O01/IX/
1971, L.F.Travassos col.; 10, 03/VIII/1971,
L.F.Travassos col.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.363-372, abr./jun.2008
MORFOLOGIA COMPARADA DA TERMINÁLIA MASCULINA DE QUATRO ESPÉCIES DE OXYSARCODEXIA 367
Oxysarcodexia confusa Lopes, 1946: fig.6- terminália, vista lateral; fig.7- cerco, vista posterior; fig.8- cerco, vista lateral,
fig.9- edeago, vista lateral; fig.10- edeago, vista ventral [(ba) basifalo; (ce) cerco; (di) distifalo; (el) estilo lateral; (em) estilo
mediano; (go) gonópodo; (hd) hastes dorsais; (pa) parâmero; (su) surstilo; (ve) ventrália]. Escalas = 0, Imm.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.363-372, abr./jun.2008
368 K.PSILVA & C.A.MELLO-PATIU
di
Oxysarcodexia diana (Lopes, 1933): fig.11- terminália, vista lateral; fig.12- cerco, vista posterior; fig.13- cerco, vista
lateral, fig. 14- edeago, vista lateral; fig.15- edeago, vista ventral [(ba) basifalo; (ce) cerco; (di) distifalo; (el) estilo lateral;
(em) estilo mediano; (go) gonópodo; (hd) hastes dorsais; (pa) parâmero; (su) surstilo; (ve) ventrália]. Escalas: 11, 14-15 = 0,Imm;
12-13 = 0,05mm.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.363-372, abr./jun.2008
MORFOLOGIA COMPARADA DA TERMINÁLIA MASCULINA DE QUATRO ESPÉCIES DE OXYSARCODEXIA 369
Oxysarcodexia parva Lopes, 1946
(Figs.16-20)
Oxysarcodexia parva Lopes, 1946:97.
Localidade-tipo — BRASIL, RIO DE JANEIRO, Rio
de Janeiro, Grajaú. Lopes & Tibana, 1987:332.
Terminália — Sintergosternito 7+8 e epândrio
castanhos cobertos de polinosidade dourada na
região dorsal; sintergosternito 7+8 com oito cerdas
pré-apicais bem desenvolvidas em série e cerdas
esparsas pouco desenvolvidas, mais robustas na
região dorsal; cerco castanho-avermelhado, com
ápice negro, em vista posterior apresentando uma
reentrância conspícua pouco abaixo da região
mediana, ápice convergente com pequenas cerdas
densamente dispostas e com uma pequena projeção
arredondada lateral, base larga com cerdas longas
e robustas densamente dispostas (Figs.16-18);
surstilo claviforme com ápice apresentando poucas
cerdas próximas à margem (Fig.16); parâmero
alongado, com cerca da metade do tamanho do
gonópodo, com uma cerda mediana lateral pouco
desenvolvida; gonópodo bem desenvolvido com a
extremidade pontiaguda e esclerosada (Fig.16);
edeago castanho, mais esclerosado na região apical,
basifalo e distifalo fundidos apresentando uma
cicatriz na região da união (Fig. 16); estilos laterais
com bases arredondadas com ápices afilados e
projetados paralelamente; estilo mediano em forma
de calha, com tamanho similar ao estilo lateral e
com ornamentações escamosas na região basal;
hastes dorsais presentes, ligando o estilo mediano
à base da ventrália (Figs.19-20); ventrália
esclerosada e articulada com o distifalo, região
mediana ornamentada com placas escamosas
laterais e face ventral membranosa, ápice dividido
em dois pequenos lóbulos, parcialmente
membranosos, que se dobram lateralmente,
apresentando entre eles, na face ventral, uma
formação esclerosada e denteada (Figs.16, 19-20).
Material examinado — BRASIL: RIO DE JANEIRO,
Angra dos Reis, 26 , 05/VII/1971 e 19/VIII/1972,
H.S.Lopes col.; Rio de Janeiro, Alto da Boa Vista,
1S, 02/11/1984, H.Guimarães col. (MNRJ); SÃO
PAULO, São Paulo, Butantã, 10, 27/VI/1971,
L.F.Travassos col.
DISCUSSÃO
LorEs (1946), ao fornecer uma chave para identificação
dos machos de Oxysarcodexia, diferenciou O. parva e
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.363-372, abr./jun.2008
O. diana das demais espécies por apresentarem os
ápices dos cercos não divergentes. Ao analisar os
cercos em ambas espécies, observou-se que esta
característica se confirma. O cerco de O. parva
também apresenta uma considerável reentrância
lateral pouco abaixo da região mediana e uma
pequena projeção arredondada lateral no ápice, em
vista posterior (Fig.18). Em O. diana, o cerco
apresenta uma dobra lateral esclerosada muito
peculiar (Figs.11-12). Lopes (1946) descreveu o cerco
de O. confusa como apresentando o ápice pouco
divergente. Após análise desta estrutura, verificou-
se que o cerco desta espécie se apresenta fortemente
divergente na região apical, capaz de distinguií-la
das demais (Fig.7). As considerações daquele autor
quanto às características do cerco de O. avuncula
se confirmam neste estudo, com cerco curto com
ápice alargado (Fig.2).
LorEs & TiBANA (19877), em uma chave ampliada para
o gênero Oxysarcodexia, ressaltaram as seguintes
características da ventrália: presença de lóbulos
terminais arredondados e bem visíveis para O. parva
e lóbulos da ventrália vestigiais para O. diana. LorEs
(1946) havia caracterizado esta estrutura apenas
como pequena e membranosa para ambas as
espécies. Examinando a ventrália destas espécies,
verificou-se que ambas apresentam a estrutura
ornamentada por placas escamosas laterais na região
mediana (Figs.14,19), sendo que em O. parva a
ventrália possui face ventral membranosa e ainda
presença de uma formação esclerosada e denteada
entre dois lóbulos parcialmente membranosos, que
se dobram lateralmente (Figs.16,19-20). Em O. diana,
os lóbulos são globulares, inteiramente membranosos
com uma formação esclerosada e pontiaguda entre
eles (Figs.11,14-15). Quanto à ventrália de O. confusa,
Lopes (1946) diferenciou a estrutura como sendo
pequena e muito espinhosa e LorEs & TiBaNa (1987) a
caracterizaram como apresentando apenas lóbulos
apicais reduzidos. Observou-se que a ventrália é
ricamente ornamentada com placas escamosas bem
desenvolvidas por toda sua extensão, apresentando
uma formação membranosa na articulação com o
distifalo e possuindo lóbulos muito esclerosados e
escamosos (Figs.6,9-10). Sobre a ventrália de O.
avuncula, LorEs (1946) descreveu a estrutura como
apresentando lóbulos reduzidos e espinhosos. Neste
trabalho, observou-se que a ventrália de O. avuncula
é bastante esclerosada, apresentando a região
mediana ventralmente membranosa e a região distal
com dois lóbulos muito espinhosos, parcialmente
membranosos, e uma formação esclerosada e
denteada entre eles (Figs.1,4-5).
370 K.PSILVA & C.A.MELLO-PATIU
16 17
Oxysarcodexia parva Lopes, 1946: fig. 16- terminália, vista lateral; fig.17- cerco, vista posterior; fig. 18- cerco, vista lateral,
fig. 19- edeago, vista lateral; fig.20- edeago, vista ventral [(ba) basifalo; (ce) cerco; (di) distifalo; (el) estilo lateral; (em) estilo
mediano; (go) gonópodo; (hd) hastes dorsais; (pa) parâmero; (su) surstilo; (ve) ventrália]. Escalas = O, Imm.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.363-372, abr./jun.2008
MORFOLOGIA COMPARADA DA TERMINÁLIA MASCULINA DE QUATRO ESPÉCIES DE OXYSARCODEXIA 371
LorEs (1946) relacionou O. parva como uma espécie
muito próxima de O. diana, distinguindo-se apenas
por características do ápice do cerco e,
principalmente, pela diferença no tamanho da
ventrália. Analisando ambas as terminálias,
admite-se que estas espécies são morfologicamente
muito próximas, podendo ser segregadas pelas
peculiaridades do ápice do cerco em vista posterior
e pela presença da formação esclerosada e denteada
entre os lóbulos da ventrália em O. parva
(Figs.17,19) e esclerosada e pontiaguda em O. diana
(Figs.12,14).
Lores (1946) também evidenciou semelhanças entre
O. confusa e O. diana, distinguindo-as pelo aspecto
do ápice do edeago, da ventrália e pelos ápices dos
cercos. No presente estudo, considera-se O. confusa
mais próxima morfologicamente de O. parva, pois
apresenta grande similaridade na ornamentação da
ventrália, formato do ápice do edeago e disposição
das suas estruturas internas.
Oxysarcodexia avuncula foi relacionada em LorES
(1946) como uma espécie nitidamente afim de O.
parva, O. confusa e O. diana, distinguindo-se apenas
pela forma achatada do cerco, característica
também observada por LorEs & TiBana (1987). Após
este estudo considerou-se esta espécie mais
próxima morfologicamente de O. confusa pelas
características da ventrália (Figs.1,4).
Em complemento à chave fornecida por Lopes &
TiBana (1987), alguns outros caracteres lhe são
acrescentados. Os passos da chave são
apresentados abaixo com seus números originais,
complementados com as observações resultantes
deste estudo (sublinhadas):
9. Cerco fortemente truncado no ápice em vista posterior. Ventrália apresentando ápice dividido em
dois lóbulos globulares distais muito espinhosos e parcialmente membranosos, apresentando
entre eles uma formação esclerosada e levemente denteada ................. O. avuncula (Lopes, 1933)
53. Abdome com polinosidade cinza, lóbulos terminais da ventrália arredondados bem visíveis,
ornamentados com placas escamosas e apresentando entre eles uma formação esclerosada e
denteada na face ventral. Ápice do cerco não divergente, com profunda reentrância lateral em
VISTO SECLLOL MO rota nar h o RA copa renR do Misa DUNA ATER coçar
ER ORI END o DA O CDU O. parva Lopes, 1946
Abdome com polinosidade dourada no quinto tergito, algumas vezes com abdome completamente
coberto por polinosidade cinza amarelado. Lóbulos da ventrália globulares e completamente
membranosos, ornamentados com placas escamosas, com uma formação esclerosada e
pontiaguda entre eles na face ventral ...................
sc RD, 8 = a MD O. diana ( Lopes, 1933)
59. Ventrália com lóbulos apicais reduzidos. Ápices dos cercos muito divergentes apresentando
uma reentrância logo abaixo da região mediana em vista posterior e uma formação pontiaguda
apical. emmuistastateral 2º, Seas nica toa A span a dora
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ISSN 0365-4508
FIRST RECORD OF EURYTHENES OBESUS (CHEVREUX, 1905)
(AMPHIPODA, LYSIANASSOIDEA, EURYTHENEIDAE)
IN BRAZILIAN WATERS !
(With 2 figures)
ANDRÉ R. SENNA ?º
CRISTIANA S. SEREJO 2
ABSTRACT: Currently, 14 lysianassoid species are known from the Brazilian waters. Material collected
from the Campos Basin, off Rio de Janeiro State, Brazil, during the “Campos Basin Deep-Sea Environmental
Project” coordinated by CENPES/PETROBRAS were analyzed. The samples were collected using a semi-
balloon door trawl at 1300 and 1608 m depth, aboard of the N/R Astro Garoupa. Eurythenes obesus
(Amphipoda: Lysianassoidea: Eurytheneidae) was found in these samples and is herein redescribed. The
species is widely distributed around the world, but there are no previous records of this species from
Brazilian waters.
Key words: Amphipoda. Eurythenes obesus. Campos Basin. Deep-sea. Brazil.
RESUMO: Primeiro registro de Eurythenes obesus (Chevreux, 1905) (Amphipoda, Lysianassoidea,
Eurytheneidae) para as águas brasileiras.
Atualmente são conhecidas 14 espécies de lysianassoides para as águas brasileiras. Foi analisado material
coletado na Bacia de Campos, ao largo do Estado do Rio de Janeiro, Brasil, como resultado do projeto
“Caracterização Ambiental de Águas Profundas da Bacia de Campos” coordenado pelo CENPES/PETROBRAS.
As amostras foram coletadas por arrasto usando uma rede de porta do tipo Semi-Balloon a 1300 e 1608m de
profundidade, abordo do N/R Astro Garoupa. Eurythenes obesus (Amphipoda: Lysianassoidea: Eurytheneidae)
foi encontrada nessas amostras e é aqui redescrita. Muito embora essa espécie tenha distribuição mundial,
não há registros anteriores para as águas brasileiras.
Palavras-chave: Amphipoda. Eurythenes obesus. Bacia de Campos. Mar profundo. Brasil.
INTRODUCTION
This study is part of the “Campos Basin Deep-Sea
Environmental Project” which has the purpose to
make an environmental characterization of the
Campos Basin deep-sea area, between 700 and
2,000m depth, off north of Rio de Janeiro State. The
knowledge of Crustacea, as well as other benthos
groups of this area, is important for monitoring
programs implemented by the Brazilian oil company
- PETROBRAS. The Campos Basin is about
100,000m* in area and is the largest petroleum
reserve in Brazilian waters. About 65% of the
exploratory camps of PETROBRAS are offshore, above
400m depth (www2.petrobras.com.br/Petrobras /
portugues /plataforma/pla bacia campos.htm).
The superfamily Lysianassoidea is very abundant
and diverse in shallow and deep-sea water (BOUSFELD,
'! Submitted on April 16, 2006. Accepted on April 14, 2008.
1982), but there are few records of this group from
the Brazilian coast. Currently, only 14 lysianassoid
species are known from Brazilian waters (WAkABARA
& SEREJO, 1998; SEREJO && WAKABARA, 2003; FREIRE &
SEREJO, 2004; SErEJO et al., 2007a, Db; SENNA & SEREJO,
2007, 2008). Recently, the group was studied based
on the material of REVIZEE Benthos Program which
results in five new species (SENNA, 2006). Information
on distribution of these species will be given here.
The family Eurytheneidae Stoddart & Lowry, 2004
contains only the genus Eurythenes Smith, 1882,
including three species: Eurythenes gryllus
(Lichtenstein in Mandt, 1822), E. obesus (Chevreux,
1905), and E. thurstoni Stoddart & Lowry, 2004.
Eurythenes gryllus and E. obesus are cosmopolitan,
scavengers or carnivorous, and usually they are
bathy- to abyssopelagic (BousrieLD, 1982: BARNARD &
KaraMaN, 1991). Eurythenes thurstoni is recorded from
2? Museu Nacional/UFRJ, Departamento de Invertebrados. Quinta da Boa Vista, São Cristóvão, 20940-040, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
* E-mail: ar. senna(Mhotmail.com.
374 A R.SENNA & C.S.SEREJO
SE Indian Ocean, Gulf of Mexico, and Caribbean
Sea and is an epibenthic scavenger or perhaps a
midwater predator or scavenger (STODDART & LOWRY,
2004). These species are thought to be epibenthic
scavengers since they have been captured in baited
traps. However, knowledge about the life habits of
E. obesus is still scarce when compared to the other
two species. This species has frequently been taken
in mid-water trawls which suggests it is a pelagic
predator (STODDART & Lowry, 2004).
In this paper, E. obesus is recorded for the first
time from off the Brazilian coast, extending its
distribution to these waters.
MATERIAL AND METHODS
The studied area comprises the north and south
regions of the Campos Basin, off Rio de Janeiro
State (21º48'S-22º48'S), between the isobaths of
700m and 2000m.
The collections were made with a Semi-Balloon door
trawl, with 5mº of opening, aboard ofthe N/R “Astro
Garoupa”, in two campaigns. The first campaign
was in February 2003 and the second campaign
was in August 2003. The trawls were made over
1.5 hours and 1.8 knot speed, approximately. The
samples were preserved in ethanol 70%.
Specimens were dissected under a stereoscope
microscope and the drawings were made with a
camera lucida. All the material is deposited in the
Crustacean Collection - Museu Nacional,
Universidade Federal do Rio de Janeiro (MNRJ).
Photograph of figure 1 was taken with a Digital
Camera Nikon Coolpix 5400, 5.1 Mega Pixels, at
the Sector of Carcinology, MNRJ.
The nomenclature of the setal-teeth of the maxilla 1
outer plate is based on Lowry & STODDART (1992: 1993).
Abbreviations: Hd: Head; Mx1l: Maxilla 1; Mx2:
Maxilla 2; Gn1: Gnathopod 1; P7: Pereopod 7; Ep3:
Epimeral plate 3; U3: Uropod 3; ST: Setal-teeth.
TAXONOMY
Order Amphipoda Latreille, 1816
Superfamily Lysianossoidea Dana, 1849
Family Eurytheneidae Stoddart & Lowry, 2004
Genus Eurythenes Smith, 1882
Diagnosis — Head exposed, much deeper than long,
not extending much below insertion of antenna 2,
without cheek notch. Antennae with calceoli present
in male, absent in female. Antenna 1 with well
developed two-field callynophore in both sexes.
Mouthpart bundle subquadrate. Epistome and
upper lip separate. Right mandible without lacinia
mobilis. Mandibular incisor present, smooth, and
convex. Accessory setal row without distal tuft of
setae. Molar with a small triturative surface. Maxilla
1 inner plate with more than two apical pappose
setae; outer plate narrow with setal-teeth (ST) large,
in 8/3 crown arrangement; ST6 and STY7 slender,
ST7 slightly displaced from ST6. Inner plate of
maxilla 2 much shorter than outer plate. Maxilliped
palp 4-articulate, article 4 well developed. Gnathopod
1 subchelate or parachelate, coxa vestigial, carpus
short, propodus large, palm straight to convex. Coxa
2 shorter than coxa 3. Coxa 4 large with well
developed posterodistal lobe. Coxa 5 with anterior
and posterior lobes subequal. Uropod 2, inner ramus
without constrinction. Uropod 3 biramous. Telson
deeply cleft (modified from SropDART & Lowry, 2004).
Eurythenes obesus (Chevreux, 1905) (Figs.1-2)
Katius obesus CHevrEUXx, 1905:1; 1935:63;
K.H.BARNARD, 1932:56.
Eurythenes obesus - ScHELLENBERG, 1955:183, 192;
SHOEMAKER, 1956:178. J.L.BaRrNARD, 1958:92;
1961:38; HurLey, 1963:59; Brusca, 1967:384;
BELLAN-SANTINI & LEDOYER, 1974:681; Lowry &
BuLLock, 1976:89; Ortiz, 1979:19; BAaRNARD &
KarAaMAN, 1991:486; THurstTON & BeTT, 1995:201;
STODDART & Lowry, 2004:445 (with complete
synonymy).
Type-locality — NE of Cabo Verde Islands, eastern
North Atlantic Ocean, 20º1.8'N 21º19.8W -
20º1.3'N 21º20.0W, 995-1,500m over bottom depth
3,800-3,850m.
Material examined — BRAZIL, OFF RIO DE JANEIRO
STATE, Campos Basin Deep-Sea Environmental
Project, N.R Astro Garoupa col.; 1S, 42.0mm,
22º15,209'S-39º47,690W, 1,608m depth, February
12, 2003, MNRJ 19271; 10, 78.6mm, 22º15,49'S-
39º47,450'W, 1,300m depth, August 22, 2008,
MNRJ 19451.
Diagnosis — Anterodorsal margin of head smooth.
Gnathopod 1 parachelate, basis length 2 to 2.5
times its breadth, propodus slightly tapering
distally. Pereopods 3-7, dactyli long. Pereopod 7,
basis with posteroventral margin rounded, and
length of anterior margin subequal to breadth.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.373-379, abr./jun.2008
FIRST RECORD OF E. OBESUS IN BRAZILIAN WATERS 375
Fig.1- Eurythenes obesus, S, 78.6mm, 22º15,49'S — 39º47,450'W, 1300m depth, MNRJ 19451. Scale bar = 10mm.
Epimeral plate 3, posteroventral corner subquadrate.
Urosomite 1 not dorsodistally produced over
urosomite 2. Uropod 3 peducle, medial face with or
without robust setae (modified from SrTODDART &
Lowry, 2004).
Description - O, 78.6mm. Head deeper than long,
anterodorsal margin smooth; lateral cephalic lobe
small, subacute; rostrum absent; eyes little apparent.
Antenna 1 short. Antenna 2, 2 times antenna 1.
Mouthpart bundle subquadrate. Epistome and
upper lip separate. Mandible, accessory setal row
with nine blunt robust setae, molar large, setose,
with a distal triturating surface. Maxilla 1, inner
plate small; outer plate with 11 setal-teeth in 8/3
crown arrangement; ST1 to STY large and slender,
ST1i and ST2 non-cuspidate, ST3 and ST4 3-
cuspidate, ST5 5-cuspidate, ST6 4-cupidate, STY7
slightly displaced from ST6; STA to STD large and
broad, STA 1-cuspidate, STB 3-cupidate, STC 5-
cuspidate, and STD 7-cuspidate; palp large, 2-
articulate. Maxilla 2, inner plate broad, length 0.75
times outer plate, inner margin slightly concave.
Pereonites 1-2 dorsally smooth; pereonites 3-7 with
dorsal sharp ridge. Gnathopod 1 parachelate; coxa
small; basis slender, length 2.5 times breadth,
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.373-379, abr./jun.2008
anterior margin smooth, with a row of small slender
setae, posterior margin with a tuft of slender setae
distally; ischium short, length 1.3 times breadth,
posterior margin setose; merus, length 1.3 times
breadth, posterior margin setose; carpus
subtriangular, with a tuft of slender setae
anterodistally, length 1.1 times breadth; propodus
large, length 2.25 times breadth, subrectangular,
slightly tapering distally, anterior margin with tufts
of slender setae, posterior margin setose, palm
transverse, palmar corner with one medial and one
lateral stout seta; dactylus simple, smooth, longer
than palm, outer margin with one single slender
seta. Gnathopod 2, coxa small, longer than coxa 1,
ischium, carpus and propodus long, palm
transverse; dactylus shorter than palm. Pereopods
3-7, dactyli long. Pereopod 4, coxa with large
posteroventral lobe. Pereopod 7, basis expanded
posteriorly, posterodistal lobe well-developed,
posterior margin minutely serrate, posteroventral
corner subquadrate, posteroventral margin
straight, length of anterior margin subequal to
breadth; merus expanded posteriorly, anterior
margin with four tufts of setae; carpus, anterior
margin with four tufts of setae; propodus, anterior
margin with six tufts of slender setae.
376 A R.SENNA & C.S.SEREJO
Pleonites 1-3 with dorsal sharp ridge. Pleonite 3
with anterodorsal notch. Epimeral plate 3,
ventral margin minutely setose; posteroventral
corner subquadrate. Uropods 1-2, rami subequal
in length. Uropod 3, peduncle short, length 1.5
times breadth, without dorsolateral flange,
medial face without robust setae; rami, dorsal
margin setose, inner ramus 0.9 times outer
ramus; outer ramus 2-articulate, article 2 short.
Telson longer than broad, deeply cleft, tapering
distally.
Distribution — Eurythenes obesus is a cosmopolitan
species, recorded from North and South Atlantic,
Indian Ocean, North Pacific, Australia, and Brazil,
off Rio de Janeiro State.
Remarks — The material examined has the
diagnostic characters for the species: anterodorsal
margin of head smooth, propodus of gnathopod 1
slightly tapering distally, dactyli of pereopods 3-7
long, basis of pereopod 7 with length of anterior
margin subequal to breadth, and urosomite 1 not
dorsodistally produced over urosomite 2 (Fig.2).
Fig.2- Eurythenes obesus, OS, 78.6mm, 22º15,49'S — 39º47,450”W, 1300m depth, MNRJ 19451. Scale bars = Imm.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.373-379, abr./jun.2008
FIRST RECORD OF E. OBESUS IN BRAZILIAN WATERS 37 7
However, some differences were noticed when
compared with the material described by STODDART
& Lowry (2004) from Cabo Verde and designate as
the neotype for E. obesus.
The pattern of cuspidation on the setal-teeth of the
outer plate of maxilla 1 in the Brazilian specimens
is not the same as the neotype material. The number
of cusps on each setal-tooth in the Brazilian material
is lesser, with ST1 and ST2 non-cuspidate (versus
ST1i and ST2 3-4 cuspidate); ST3 and ST4 3-
cuspidate (versus ST3 and ST4 4-cuspidate); STA
l-cuspidate (versus STA 2-cuspidate); STB 3-
cupidate (versus STB 5-cuspidate); STC 5-cuspidate
(versus STC 7-cuspidate); and STD 7-cuspidate
(versus STD 8-cuspidate). This variation has been
noticed in other lysianassoid species, such as E.
gryllus (STODDART & Lowry, 2004). The Milne-Edwards”
specimen and the Lilljeborg's specimen described
by SroDDART & Lowry (2004) have different patterns
of cuspidation on the maxilla 1 setal-teeth.
The number of setae in the accessory setal row of
the mandible differs between the Brazilian and the
neotype material: nine blunt robust setae (versus
10 acute robust setae).
The length of the posteroventral lobe on basis of
pereopod 7 also varies. The material described by
STODDART & Lowry (2004) has the posteroventral lobe
developed about one third the length of the merus,
whereas the same lobe on the Brazilian material does
not surpass the ischium-merus articulation.
Another character which differs in the Brazilian
material is the naked medial surface of the uropod
3 peduncile. The Cabo Verde material has the uropod
3 peduncle bearing four apical and three medial
robust setae on the medial surface, and the diagnosis
has been modified in this aspect.
The described specimen is notable in having
78.6mm length. The larger specimen of E. obesus
recorded until now is a female with 80 mm length,
from Australia (STODDART & Lowry, 2004).
DISCUSSION
The family Eurytheneidae, represented by E. gryllus,
was first recorded recently in Brazil (SEREJO et al.,
2007b). Species of this family are typically large
(2-25cm), and can be collected with deep-sea
dredges or baited traps.
Knowledge of the faunistic composition of the
superfamily Lysianassoidea in the Brazilian deep-sea
is still scarce. With this record, the number of known
species from Brazil is raised to 15 species, eight from
deep-sea and seven from shallow waters (Tab.1).
TABLE 1. Lysianassoids known from Brazil.
SPECIES BRAZILIAN WORLD DEPTH REFERENCE
DISTRIBUTION DISTRIBUTION FOR BRAZIL
Family Amaryllididae
Amaryllis atlantica Senna & Serejo, 2008 BA, ES Brazil 40-65m SENNA & SEREJO, 2008
Family Aristiidae
Perrierella audouiniana (Bate, 1857) SP Atlantic; Shallow water ' VALÉRIO-BERARDO, 1992
Mediterranean; Brazil
Family Eurythenidae
Eurythenes gryllus (Lichtenstein, 1822) BA, ES Cosmopolitan 1089-1730m — SEREJO et al., 2007b
E. obesus (Chevreux, 1905) RJ Cosmopolitan 1300-1608m Present study
Family Lysianassidae
Bonassa brasiliensis Senna & Serejo, 2008 BA Brazil Om SENNA & SEREJO, 2008
Lysianassa brasiliensis (Dana, 1853) RJ Brazil Shallow water DANA, 1853; BATE, 1862
Lysianassa danai Senna & Serejo, 2008
Lysianopsis concavus Senna, 2007 BA, ES Brazil 20-108m SENNA, 2007;
SENNA & SEREJO, 2008
Schoemakerella nasuta (Dana, 1853) RJ Brazil Shallow water DANA, 1853; STEBBING, 1906
Family Trischizostomidae
Trischizostoma costai Freire & Serejo, 2004 ES Brazil 1364m FREIRE & SEREJO, 2004
T. denticulatum Ledoyer, 1978 ES Southwest Indian, off 910-1642m FREIRE & SEREJO, 2004
Madagascar; Brazil
T. longirostrum Chevreux, 1919 BA, ES N. Atlantic; Brazil 1002-2076m FREIRE & SEREJO, 2004
T. raschi Boeck, 1861 BA, ES N. Atlantic; 922-1026m FREIRE & SEREJO, 2004
Mediterranean; Brazil
T. richeri Lowry & Stoddart, 1994 BA Southwestern Pacific; 599m FREIRE & SEREJO, 2004
Brazil
Family Uristidae
Stephonyx uncinatus Senna & Serejo, 2007 BA Brazil 6877-739 SENNA & SEREJO, 2007
States: (BA) Bahia; (ES) Espírito Santo; (RJ) Rio de Janeiro; (SP) São Paulo.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.373-379, abr./jun.2008
378 A R.SENNA & C.S.SEREJO
Five new species were recorded by Senna (2006),
two of them described by Senna (2007) and Senna
& Serejo (in press). The other three species, two of
the family Lysianassidae and one Amaryllididae are
being prepared to be published, that will be one
more contribution to knowledge of the lysianassoid
Brazilian fauna.
ACKNOWLEDGEMENTS
We thank CENPES-Petrobras (Centro de Pesquisas
- Petróleo Brasileiro S/A) for providing the material
and fellowship. We also thank FUJB (Fundação
Universitária José Bonifácio) for financial support.
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ISSN 0365-4508
REVISÃO DO CONHECIMENTO
SOBRE OS MAMÍFEROS AQUÁTICOS DA COSTA NORTE DO BRASIL:
(Com 8 figuras)
SALVATORE SICILIANO?
NEUSA RENATA EMIN-LIMA?
ALEXANDRA F. COSTA?
ANGÉLICA L. F. RODRIGUES?
FAGNER AUGUSTO DE MAGALHÃES?
CAROLINA H. TOSI*
ROSANA G. GARRI
CLAUDIA REGINA DA SILVAº
JOSÉ DE SOUSA E SILVA JÚNIOR?
RESUMO: A costa norte do Brasil representa uma nova fronteira para o avanço do conhecimento sobre a fauna
de mamíferos aquáticos. A ausência de dados pretéritos sobre os mamíferos aquáticos nessa região e a própria
dificuldade logística de monitoramento resultou, até muito recentemente, numa lacuna de conhecimento. A fim
de reverter este quadro, o Projeto Piatam Oceano vem incentivando a formação de grupos de pesquisa sobre
mamíferos aquáticos da costa amazônica. Como resultado dos esforços recentes, foi reunido um conjunto relevante
de informações inéditas ou complementares sobre as 22 espécies de mamíferos aquáticos registradas até o
momento na região. Destacam-se as áreas de ocorrência do peixe-boi-marinho no litoral dos Estados do Maranhão,
Pará e Amapá, as quais poderiam garantir a manutenção destas populações criticamente ameaçadas. Merece
destaque ainda a ocorrência do boto-cinza em toda costa amazônica e sua problemática de interação com a pesca
artesanal e o comércio de peças anatômicas. Sugere-se uma ampla campanha de conscientização e a promoção
de campanhas educativas visando uma nova tomada de atitude em relação aos mamíferos aquáticos e seus
hábitats, respeitando os valores tradicionais e o conhecimento etnoecológico das comunidades costeiras.
Palavras-chave: Mamíferos aquáticos. Costa norte. Conservação. Brasil.
ABSTRACT: Review on the knowledge about aquatic mammais of the north coast of Brazil.
The Brazilian north coast represents a new frontier in several fields of knowledge. The aquatic mammals of the
Brazilian northern coast were poorly studied until recently. Recent efforts promoted by Projeto Piatam Oceano are
changing the scenario. New research groups on aquatic mammals were formed and are conducting a large survey of
this unique group of mammails. A total of 22 species of aquatic mammals were recorded along the Brazilian northern
region. It should be emphasized the rediscovery of the Antillean manatee in several localities along the coasts of
Amapá, Pará and Maranhão states. On the other hand, the estuarine dolphin is widely distributed along the
Amazonian coast but is frequently by-caught in gill nets fisheries throughout the northern coast. The intense use of
love charms has also a negative effect on these populations and should be better evaluated. An awareness program
will be implemented as a first step for changing attitude towards the aquatic mammails of the northern coast.
Key words: Aquatic mammals. Conservation. North coast. Brazil.
INTRODUÇÃO sobre os grupos zoológicos integrantes desta fauna
e a própria dificuldade logística de monitoramento
A costa norte do Brasil representa uma nova fronteira resultou numa lacuna de conhecimento até muito
para o avanço do conhecimento sobre a fauna de recentemente. Os resultados apresentados traduzem
mamíferos aquáticos. A ausência de dados pretéritos | o esforço dos pesquisadores do Grupo de Estudos
! Submetido em 18 de junho de 2007. Aceito em 14 de abril de 2008.
2 Grupo de Estudos de Mamíferos Aquáticos da Amazônia (GEMAM), Projeto Piatam Oceano. Museu Paraense Emílio Goeldi, Coordenação de Zoologia.
Campus de Pesquisa. Av. Perimetral, 1901, Terra Firme, 66077-530, Belém, PA, Brasil.
* Grupo de Estudos de Mamíferos Marinhos da Região dos Lagos (GEMM-Lagos), Departamento de Endemias Samuel Pessoa, Escola Nacional de Saúde
Pública/FIOCRUZ. Rua Leopoldo Bulhões, 1480/s.620, Manguinhos, 21041-210, Rio de Janeiro, RJ Brasil. E-mail: sal(Densp.fiocruz.br.
* Projeto Cetáceos do Maranhão/Instituto Ilha do Caju. Av. Presidente Vargas, 235, Centro, 64200-200, Parnaíba, PI, Brasil.
> Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá - IEPA.
Centro de Pesquisas Zoobotânicas e Geológicas (CPZG). Rodovia Juscelino Kubitschek Km-10, Fazendinha, 68912-250, Macapá, AP, Brasil.
382 S.SICILIANO et al.
de Mamíferos Aquáticos da Amazônia/Projeto
Piatam Oceano, ou GEMAM /PIATAM, e do Projeto
Cetáceos do Maranhão /Instituto Ilha do Caju, ou
PROCEMA/ICEP.
Devido à falta de tradição em pesquisas sobre
cetáceos e sirênios na Amazônia Oriental, os poucos
dados disponíveis são pontuais e limitam a tomada
de medidas eficazes de conservação e manejo.
O Grupo de Mamíferos Aquáticos do Projeto Piatam
Oceano, denominado Grupo de Estudos de
Mamíferos Aquáticos da Amazônia (GEMAM /
PIATAM), surgiu para tentar suprir a falta de
estudos sobre os mamíferos aquáticos da região
norte. As atividades em realização pelo GEMAM /
PIATAM, incluem: monitoramento de praias e portos
pesqueiros na área de influência da Baia do Marajó
com a finalidade de coleta de carcaças de mamíferos
aquáticos; qualificação e quantificação das
atividades pesqueiras e suas interações com
mamíferos aquáticos na Baía do Marajó; estimativas
de abundância e densidade relativas de mamíferos
aquáticos na Baía do Marajó; avaliação da presença
de espécies ameaçadas, especialmente o peixe-boi-
marinho (Trichechus manatus) e o peixe-boi-da-
Amazônia (T. inunguis). O recolhimento de carcaças
foi licenciado pela Superintendência do IBAMA no
Pará sob número de registro IBAMA/DIFAP/
SUPES-PA 078/2006 e pela autorização para
atividades com finalidade científica do Sistema de
Autorização e Informação em Biodiversidade —
SISBIO/IBAMA Número 12641-1.
As atividades de campo do GEMAM/PIATAM
contam com o apoio técnico do Departamento de
Endemias, da Escola Nacional de Saúde Pública/
Fiocruz. Todos os exemplares de mamíferos
aquáticos recolhidos em praias são tombados na
coleção do Setor de Mastozoologia do Museu
Paraense Emílio Goeldi (MPEG) (Apêndice 1). Um
banco de amostras de tecidos em meio líquido vem
sendo incorporado à coleção do MPEG.
O Projeto Cetáceos do Maranhão, criado junto ao
Instituto Ilha do Caju (PROCEMA/ICEP), tem como
objetivo capacitar estudantes de graduação das
universidades dos Estados do Maranhão e Piauí,
tendo em vista que as pesquisas voltadas para
mamíferos aquáticos nestas regiões eram totalmente
desconhecidas. As atividades do PROCEMA/ICEP
tiveram início e concentraram-se basicamente em
pesquisas de caracterização socioambiental, as quais
serviriam como subsídio para identificação das áreas
chaves no processo de organização das estratégias
conservacionistas que o PROCEMA/ICEP pretendia
aplicar. Dentre as atividades previstas no
PROCEMA/ICEP, podemos citar: monitoramento de
praias na Ilha de São Luís e no Delta do Parnaíba,
monitoramento dos principais portos pesqueiros do
Maranhão, avistagens em ponto fixo e embarcado,
trabalhos de etnoecologia e educação ambiental,
estimativa de abundância do boto-cinza (Sotalia
guianensis) na Baia de São Marcos, e organização
de eventos voltados para a preservação marinha,
visando a conscientização das comunidades
costeiras. As atividades de campo do PROCEMA/
ICEP contaram com o patrocínio do Programa
Petrobras Ambiental. O material coletado encontra-
se tombado na coleção zoológica do Instituto Ilha
do Caju (CEMA) (Apêndice II).
A seguir tratamos de listar e comentar sobre as 22
espécies nominais de mamíferos aquáticos com
ocorrência comprovada na costa norte. As espécies
foram relacionadas de acordo com seus grupos
taxonômicos naturais e suas características
ecológicas de uso do hábitat, a saber:
Pequenos cetáceos costeiros — espécies de pequeno
tamanho corporal (menores que 7m), de ocorrência
restrita à plataforma continental;
Grandes cetáceos pelágicos — espécies de grande
tamanho corporal (maiores que 7m) de ocorrência
preferencial em águas oceânicas,
Pequenos cetáceos pelágicos — espécies de pequeno
tamanho corporal (menores que 7m) de ocorrência
exclusiva em águas oceânicas,
Sirênios — mamíferos aquáticos da Ordem Sirenia;
Mustelídeos — mamíferos aquáticos da Ordem
Carnivora.
PEQUENOS CETÁCEOS COSTEIROS
>Boto-cinza [(Sotalia guianensis) P. J. Van Bénéden,
1864] e tucuxi |(Sotalia fluviatilis) (Gervais, 1853)]
O boto-cinza (Sotalia guianensis) é o pequeno cetáceo
mais representativo dos ambientes marinhos da costa
norte do Brasil. O boto-cinza encontra-se distribuído
continuamente desde a Ilha das Canárias, no Delta
do Parnaíba, divisa entre os Estados do Maranhão e
Piauí, até o Oiapoque, na fronteira do Brasil com a
Guiana Francesa. S. guianensis ocupa águas da
plataforma continental até o limite aproximado da
isóbata de S0m. Desse modo, a área potencial de uso
é ampliada pela extensa plataforma continental da
costa norte, oferecendo ao boto-cinza uma
heterogeneidade de ambientes costeiros. Devido aos
seus hábitos costeiros, Sotalia é capturado
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008
REVISÃO DO CONHECIMENTO SOBRE OS MAMÍFEROS AQUÁTICOS DA COSTA NORTE DO BRASIL 383
acidentalmente em redes de pesca em toda sua área
de distribuição no norte do Brasil. Registros de
captura acidental do boto-cinza na costa do Pará e
Maranhão remontam à década de 1980 e início da
década de 1990 (Borosia et al., 1991; Siciiano, 1994).
Em anos subsequentes, o monitoramento das
capturas acidentais, entretanto, foi pontual na costa
do Pará (BeLTRÁN-PEDREROS, 1998), mas indicou um
elevado número de exemplares de S. guianensis
capturados ao largo das costas do Pará e Amapá.
Apenas recentemente, iniciou-se um esforço de
monitoramento costeiro dedicado ao recolhimento
de carcaças de cetáceos nos Estados do Pará e
Maranhão. Os monitoramentos estão concentrados
na costa leste do Marajó, nos municípios de
Salvaterra e Soure, Pará, e na Baía de São Marcos
e Delta do Parnaíba, Maranhão (SiciLiano et al., 2005;
Emin-Lima et al., 2007; GarriI et al., 2005; SantTOS et
al., 2006; 2007).
Os exemplares de S. guianensis capturados em redes
de pesca são descartados inteiros ou aproveitados
para consumo humano (SicrLiano, 1994; MAGALHÃES
et al., 2005a; Tosi et al., 2005a; Soares et al., 2006;
Garri et al., 2006). A carcaça pode ser retalhada,
servindo de isca para a pesca de espinhel (Tosr etal.,
2005b), mas também se destina a outros usos,
geralmente relacionados à cultura amazônica e seus
misticismos, destacando-se o amplo comércio de
dentes, genitálias, olhos e nadadeiras dorsais
(BoroBia et al., 1991; Siciiano, 1994; Tosr etal., 2005b;
GarrI et al., 2005; SHoLL et al., 2006). A prática de
arpoamento de botos-cinza para servirem de isca
na pesca de cações na Baía do Marajó (BoroBia et
al., 1991) e na costa leste do Pará parece ter
declinado ou mesmo se extinguido nos últimos anos
(GEMAM/PIATAM, dados não publicados). Presume-
se que as capturas intencionais de botos-cinza
tenham sido banidas a partir da década de 1990,
devido ao aumento da fiscalização na região. Por
outro lado, observa-se nos mercados populares o
comércio de dentes, olhos e genitálias retirados de
botos capturados acidentalmente em redes de pesca.
Visto ser uma atividade ainda muito presente, esse
comércio “tradicional” de peças anatômicas dos botos
parece representar uma ameaça potencial de retorno
a prática das capturas intencionais.
No Estado do Amapá, foram realizadas avistagens
recentes de Sotalia sp., através de plataforma de
oportunidade, em diferentes ocasiões no Canal Norte
do Rio Amazonas (00º04'26.1"S, 051º12º09.0"W), e
na Reserva Biológica do Lago Piratuba (01º22º24.9"N,
050º20'12.8"W). Adicionalmente, um crânio de S.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008
guianensis foi coletado na mesma reserva, mas na
porção marinha situada próximo à localidade de
Sucuriju (01º39'02.4"N, 049º56'59.8'"W). O material
osteológico coletado encontra-se depositado no IEPA
sob número de tombo “918”. Avistagens de S.
fluviatilis ocorreram recentemente no rio Maracá
(00º11'0.7"S, 051º44'08.3"W) e no rio Cajari
(00º53'24"S, 051º01'12"W). Neste rio, em 22 e 23 de
maio de 2007, ocorreram avistagens de grupos de
S. fluviatilis no trecho compreendido entre o Porto
do Braço (00º36"32.77"S, 052º3'37.04"W) e a foz, no
rio Amazonas.
Merece consideração a ocorrência de comunidades
residentes de S. guianensis ao longo da costa nordeste
do Estado do Pará (Fig.1). A comunidade da Baía de
Marapanim foi objeto de estudos de bioacústica, onde
AzevEDO & VAN SLUYS (2005) realizaram uma
comparação dos assobios de S. guianensis ao longo
da sua distribuição no Brasil. Recentemente Emin-
Lima (2007) apresentou uma ampla caracterização dos
assobios do boto-cinza, comparando-os com aqueles
emitidos por uma comunidade de tucuxi, S. fluviatilis,
no rio Tapajós, oeste do Pará. Os resultados
mostraram uma grande diversidade nos assobios
emitidos por ambas as espécies, não sendo possível
diferenciá-las através dos parâmetros acústicos. Nesta
região, os grupos de boto-cinza observados variaram
entre 1 e 60 indivíduos, com uma média de 6,16+7,20
indivíduos (Emin-Lima et al., 2006). Outra comunidade
de S. guianensis, residente na Baía do Emboraí,
município de Augusto Corrêa, foi estudada por TorrEs
& BEASLEY (2003).
PantoJA (2001) analisou a dieta de 23 exemplares
de S. guianensis capturados acidentalmente na
pesca artesanal da costa paraense e amapaense.
Os itens alimentares mais frequentes nos conteúdos
estomacais foram: peixe-espada ou guaravilha
(Trichiurus lepturus), xarelete (Caranx crysos),
pescadinha-gó (Macrodon ancylodon), camarão-rosa
(Farfantepenaeus brasiliensis), camarão-branco
(Lithopenaeus schimitti), camarão-sete-barbas
(Xiphopenaeus kroyeri) e lula (Loligo plei.
Ferrucia (2006) analisou o material osteológico de
exemplares de S. guianensis e S. fluviatilis
depositados nas coleções do Instituto Nacional de
Pesquisas da Amazônia e do Museu Paraense Emílio
Goeldi, provenientes do estuário do rio Amazonas,
da Ilha de Marajó e da costa do Amapá. A autora
realizou análises osteológica, morfológica e
morfométrica das espécies do gênero Sotalia,
observando as variações geográficas e levando em
consideração possíveis áreas de sobreposição.
384 S.SICILIANO et al.
Fig.1- Avistagem de botos-cinza (Sotalia guianensis) na Baia de Marapanim, Pará. Foto: Leiliany Moura, LOBio/UFPA.
>Boto-malhado, costa-quadrada, cabeça-de-
balde, boto-vermelho [(Inia geoffrensis (Blainville,
1817)]
Emin-Lima et al. (2007) reportaram a presença
regular do boto-vermelho (Inia geoffrensis) na
Baia de Marajó. A informação prévia de que o
boto-vermelho era encontrado apenas “nas
proximidades de Belém” (Best & SiLva, 1989) foi
atualizada, observando-se ampliação da área de
ocorrência. Os novos dados coligidos pela equipe
GEMAM/PIATAM indicaram a presença de 1.
geoffrensis em ambientes costeiros com
características flúvio-marinhas (Fig.2), onde os
indivíduos se encontravam associados a faixas
de manguezal intermitente na costa leste da Ilha
de Marajó. A figura 3 ilustra as posições das
avistagens do boto-malhado na Baía de Marajó,
como indicado por Emin-Lima et al. (2007).
Recentemente, no Amapá, efetuaram-se registros
de avistagens de IT. geoffrensis no rio Maracá
(00º11'0.7"S, 051º44'08.3'"W), afluente do rio
Amazonas; no Poço dos Botos, em Itaubal do
Piririm; e no rio Cassiporé, extremo norte do
Estado (03º39'45.7"N, 051º11'43.5'W) (L.H.
Paiva, com. pes.; Prefeitura Municipal de Itaubal
do Piririm/AP). I. geoffrensis recebe diversas
denominações comuns na costa leste do Marajó,
assim como em Abaetetuba, Belém e arredores
(Mosqueiro e Baía do Sol). Entre as mais citadas
encontram-se: boto-malhado, costa-quadrada e
cabeça-de-balde, as quais constituem novas
denominações regionais para a espécie na
literatura especializada.
>Golfinho-nariz-de-garrafa [(Tursiops truncatus
(Montagu, 1821)]
Apesar de tratar-se de espécie comum nas Bacias
de Campos, Santos e Pelotas, o golfinho-nariz-
de-garrafa (Tursiops truncatus) conta com
escassos registros na costa norte. O golfinho-
nariz-de-garrafa foi avistado ao largo da foz do
Amazonas e na costa do Amapá durante
monitoramento conduzido em 2001 para
licenciamento de atividade de exploração de
petróleo e gás (GEMAM/PIATAM, dados não
publicados). Um crânio encontrado em Algodoal,
Maracanã, PA, em 22 de janeiro de 2008, confirma
a ocorrência de T. truncatus na costa norte. O
exemplar está depositado na coleção do Setor de
Mastozoologia do Museu Paraense Emílio Goeldi
(MPEG 39465). Na costa do Pará, os golfinhos
deste gênero são conhecidos como “tuninas”.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008
REVISÃO DO CONHECIMENTO SOBRE OS MAMÍFEROS AQUÁTICOS DA COSTA NORTE DO BRASIL 385
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Fig.2- Avistagem do boto-malhado (Inia geoffrensis) no Rio Paracauari, Soure, Ilha de Marajó, Pará. Foto: Alexandra Costa,
GEMAM /PIATAM.
>Golfinho-de-dentes-rugosos [(Steno bredanensis
(G. Cuvier in Lesson, 1828)|]
O golfinho-de-dentes-rugosos (Steno bredanensis)
estava assinalado para a costa norte do Brasil por
uma avistagem efetuada em julho de 1998 entre
São Luís e o Parcel Manoel Luís (J.L.Gasparini, com.
pes.). Um crânio recolhido em março de 2007 na
Nha do Passeio, Delta do Parnaíba, Maranhão
(T.Lima-Junior, PROCEMA/ICEP, dados não
publicados) e outro crânio recuperado na Vila de
Fortalezinha, em maio de 2007 (MPEG 38741),
adicionado de outro proveniente da praia do
Mupéua, em janeiro de 2008 (MPEG 39464), ambos
em Maracanã, Pará, confirmaram mais três
registros de S. bredanensis para a costa norte. Como
mencionado anteriormente, os pescadores da costa
paraense, especialmente em Algodoal e
Fortalezinha, costumam se referir aos golfinhos de
maior porte como “tuninas”, o que poderia incluir
S. bredanensis.
>Baleia-minke-anã (Balaenoptera acutorostrata
Lacépéde, 1804)
MAGALHÃES et al. (2007a) registraram pela primeira
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008
vez para a costa norte a ocorrência da baleia-
minke-anã (Balaenoptera acutorostrata), com base
em um encalhe ocorrido na Praia do Ciumal,
situada na porção leste da Ilha do Caju, Delta do
Parnaíba, Maranhão (CEMA 006). Outro espécime
encontrado na Praia da Melancieira, igualmente
a leste da Ilha do Caju, adiciona mais encalhe de
B. acutorostrata para o Maranhão (CEMA 004).
Tratava-se de um neonato, o que poderia indicar
uma área de reprodução e cria regular para a
espécie na costa maranhense.
(GRANDES CETÁCEOS PELÁGICOS
>Cachalote (Physeter macrocephalus Linnaeus,
1758)
Ramos et al. (2001) listaram o encalhe de um
cachalote (Physeter macrocephalus) na localidade
de Colares, Pará, em fevereiro de 2000. A ampliação
do esforço de monitoramento costeiro nos últimos
anos resultou na identificação de cinco outros
encalhes de cachalote na costa norte (CEMA 008,
009, 012, 042 & MPEG 38464) (Tosr et al. 2006;
GEMAM/PIATAM, dados não publicados) (Fig.4)).
386 S.SICILIANO et al.
Ws00"'s o's00"s
1005 1005
Tioos ViDos
y 1º200"5
=. e “a
Fig.4- Cachalote (Physeter macrocephalus) encalhado na praia do Olho D'Água, Ilha de S. Luis, Maranhão, em 2007 (CEMA
042). Foto: Mariana Santos, PROCEMA/ICEP.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008
REVISÃO DO CONHECIMENTO SOBRE OS MAMÍFEROS AQUÁTICOS DA COSTA NORTE DO BRASIL 387
Em adição, MorEIRA et al. (2004) reportaram a da plataforma continental. A tabela 1 lista os
avistagem de um grupo composto por três exemplares de P. macrocephalus encalhados na
indivíduos na Bacia do Pará/Maranhão, em águas costa norte.
TABELA 1. Registros de mamíferos aquáticos na costa norte do Brasil.
LISTA DE TOMBO DA COLEÇÃO OSTEOLÓGICA DE MAMÍFEROS AQUÁTICOS DO MUSEU PARAENSE EMÍLIO GOELDI, PARÁ
TOMBO ESPÉCIE LOCAL
MG 450 Lontra longicaudis Gurupá, PA
MG 671 Pteronura brasiliensis Oriximiná, PA
MG 685 Pteronura brasiliensis Portel, PA
MPEG 1247 Lontra longicaudis Baía do Guajará, PA
MPEG 1518 Trichechus inunguis Icoaraci, Belém, PA
MG 4238 Lontra longicaudis Jardim Zoológico
MG 4239 Pteronura brasiliensis -
MG 4240 Lontra longicaudis Jardim Zoológico
MG 4241 Lontra longicaudis Jardim Zoológico
MG 4242 Lontra longicaudis Jardim Zoológico
MG 4244 Lontra longicaudis Jardim Zoológico
MG 4245 Lontra longicaudis Jardim Zoológico
MG 4246 Lontra longicaudis Jardim Zoológico
MG 4249 Pteronura brasiliensis -
MG 4253 Pteronura brasiliensis Jardim Zoológico
MG 4256 Pteronura brasiliensis Jardim Zoológico
MPEG 4635 Trichechus manatus Taperinha, Santarém, PA
MPEG 4636 Trichechus inunguis Rio Ayaya
MG 4637 Trichechus inunguis Taperinha, Santarém, PA
MPEG 4638 Trichechus inunguis Rio Ayaya
MG 4639 Trichechus inunguis Rio Ayaya, Taperinha, Santarem, PA
MPEG 4640 Trichechus inunguis Rio Curuá
MPEG 4641 Trichechus inunguis Lago Grande de Mayairú
MG 5602 Pteronura brasiliensis Taperinha, Santarém, PA
MG 5603 Pteronura brasiliensis Taperinha, Santarém, PA
MG 5604 Pteronura brasiliensis Taperinha, Santarém, PA
MG 5605 Pteronura brasiliensis Rio Ituqui
MG 5652 Pteronura brasiliensis Taperinha, Santarém, PA
MG 6491 Trichechus inunguis Jardim Zoológico
MPEG 6492 Trichechus manatus
MPEG 6493 Trichechus inunguis
MPEG 6494 Trichechus inunguis Jardim Zoológico
MG 6495 Trichechus inunguis
MG 6512 Pteronura brasiliensis T.F. Amapá
Continua...
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008
388
MG 6513
MG 6514
MG 7239
MPEG 7902
MPEG 07959
MPEG 8796
MPEG 8796
MPEG 8797
MPEG 8845
MPEG 8864
MG 8897
MG 09138
MP 11298
MPEG 11838
MP 12755
MPEG 21372
MPEG 22428
MG 22393
MPEG 22896
MPEG 22894
MPEG 38430
MPEG 38431
MPEG 37818
MPEG 37819
MPEG 37820
MPEG 37815
MPEG 37817
MPEG 37821
MPEG 37822
MPEG 37823
MPEG 38432
MPEG 37824
MPEG 38497
MPEG 38724
MPEG 38433
MPEG 38434
MPEG 38435
MPEG 38436
MPEG 38437
MPEG 38438
Pteronura brasiliensis
Pteronura brasiliensis
Lontra longicaudis
Pteronura brasiliensis
Trichechus inunguis
Pteronura brasiliensis
Lontra longicaudis
Trichechus inunguis
Lontra longicaudis
Pteronura brasiliensis
Trichechus inunguis
Trichechus inunguis
Trichechus inunguis
Trichechus inunguis
Pteronura brasiliensis
Trichechus inunguis
Pteronura brasiliensis
Pteronura brasiliensis
Lontra longicaudis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Trichechus manatus
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
S.SICILIANO et al.
... continuação
Jardim Zoológico
Água Branca, Estrada BR 156, Km 345, Município
de Amapá, AP
Parque do Museu Paraense Emílio Goeldi
Rio Trombetas, Oriximiná, PA
Santa Bárbara, Benevides, PA
Jardim Zoológico
Jardim Zoológico
Xingú, Altamira, PA
Parque do Museu Paraense Emílio Goeldi
Rio Guamá, Foz do igarapé Tucunduba, PA
Rio Tocantins, Cametá, PA
Parque Zoobotânico MPEG
Fazenda Nova California, Rio Araguari, AP
Jardim Zoológico
Baía de Marapanim, Marapanim, PA.
Baía de Marapanim, Marapanim, PA.
Fortalezinha, Maracanã, PA.
Fortalezinha, Maracanã, PA.
Fortalezinha, Maracanã, PA.
Porto dos Pescadores, Salvaterra, I. de Marajó, PA
Fortalezinha, Maracanã, PA.
Fortalezinha, Maracanã, PA.
Fortalezinha, Maracanã, PA.
Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia do Araruna, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia da Princesa, Algodoal, Maracanã, PA.
Praia de Joanes, Salvaterra, I. de Marajó, PA.
Praia de Joanes, Salvaterra, I. de Marajó, PA.
Praia de S. João, Salvaterra, I. de Marajó, PA.
Praia Grande de Salvaterra, 1. de Marajó, PA.
Praia Grande de Salvaterra, 1. de Marajó, PA.
Praia Grande de Salvaterra, I. de Marajó, PA.
Praia Grande de Salvaterra, 1. de Marajó, PA.
Continua...
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008
REVISÃO DO CONHECIMENTO SOBRE OS MAMÍFEROS AQUÁTICOS DA COSTA NORTE DO BRASIL
MPEG 38439
MPEG 38440
MPEG 38726
MPEG 38441
MPEG 38442
MPEG 38443
MPEG 38444
MPEG 38445
MPEG 38446
MPEG 38447
MPEG 38448
MPEG 38449
MPEG 38450
MPEG 38451
MPEG 38452
MPEG 38453
MPEG 38454
MPEG 38455
MPEG 38456
MPEG 38457
MPEG 38458
MPEG 38459
MPEG 38460
MPEG 38461
MPEG 38462
MPEG 38463
MPEG 38464
MPEG 38465
MPEG 38487
MPEG 38727
MPEG 38466
MPEG 38467
MPEG 38468
MPEG 38469
MPEG 38470
MPEG 38471
MPEG 38472
MPEG 38473
MPEG 38474
MPEG 38475
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia fluviatilis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Physeter macrocephalus
Sotalia guianensis
Balaenoptera bonaerensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008
... continuação
Praia Grande de Salvaterra, I. de Marajó, PA.
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Ponta do Cururu, Alter do Chão, Santarém, PA.
Praia do Araruna, Soure, 1. de Marajó, PA.
Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Igarapé do Tatu, Praia do Pesqueiro, Soure, I. de
Marajó, PA.
Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia do Céu, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia do Céu, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia do Céu, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia do Céu, Soure, I. de Marajó, PA.
Caju-una, Soure, I. de Marajó, PA.
Caju-una, Soure, I. de Marajó, PA.
Caju-una, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia Grande de Salvaterra, I. de Marajó, PA.
Praia Grande de Salvaterra, I. de Marajó, PA.
Praia Grande de Salvaterra, I. de Marajó, PA.
Praia Grande de Salvaterra, I. de Marajó, PA.
Praia Grande de Salvaterra, I. de Marajó, PA.
Praia Grande de Salvaterra, I. de Marajó, PA.
I. Canela, Bragança, PA.
I. Romana, Curuçã, PA.
Rio Muriá, Curuçá, PA.
Costa do PA-AP.
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia Grande de Salvaterra, I. de Marajó, PA.
Praia Grande de Salvaterra, I. de Marajó, PA.
Praia Grande de Salvaterra, I. de Marajó, PA.
Praia Grande de Salvaterra, I. de Marajó, PA.
Praia do Turé, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia do Turé, Soure, I. de Marajó, PA.
Continua...
389
390
MPEG 38476
MPEG 38477
MPEG 38478
MPEG 38479
MPEG 38480
MPEG 38481
MPEG 38482
MPEG 38483
MPEG 38496
MPEG 38498
MPEG 38499
MPEG 38728
MPEG 38729
MPEG 38730
MPEG 38731
MPEG 38732
MPEG 38733
MPEG 38734
MPEG 38735
MPEG 38736
MPEG 38737
MPEG 38738
MPEG 38739
MPEG 38740
MPEG 38741
MPEG 38742
MPEG 38743
MPEG 38744
MPEG 38745
MPEG 38746
MPEG 38747
MPEG 38748
MPEG 38749
MPEG 38750
MPEG 38751
MPEG 38752
MPEG 38753
MPEG 38754
MPEG 38755
MPEG 38756
MPEG 38757
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Grampus griseus
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Steno bredanensis
Delphinus delphis
Baleia não identificada
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Inia geoffrensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
S.SICILIANO et al.
Continua...
Praia do Turé, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia do Turé, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia do Turé, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia de Joanes, Salvaterra, I. de Marajó, PA.
Praia Grande, Marapanim-PA.
Praia de Joanes, Salvaterra, I. de Marajó, PA.
I. de Marajó, PA.
I. de Marajó, PA.
I. de Marajó, PA., la incursão
Praia da Princesa, Algodoal, Maracanã, PA.
Praia do Araruna, I. de Marajó, PA.
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia Grande, Salvaterra, I. de Marajó, PA.
Praia Grande, Salvaterra, I. de Marajó, PA.
Praia do Crispim, Marapanim, PA.
Praia do Crispim, Marapanim, PA.
Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA.
Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA.
Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA.
Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA.
Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA.
Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA.
Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA.
Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA.
Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA.
Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA.
Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA.
Fazenda Redenção, Monsarás, I. de Marajó
Praia Grande, Salvaterra, I. de Marajó, PA.
Praia Grande, Salvaterra, I. de Marajó, PA.
Caju-una, Soure, I. de Marajó, PA.
Caju-una, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Caju-una, Soure, I. de Marajó, PA.
Caju-una, Soure, I. de Marajó, PA.
Caju-una, Soure, I. de Marajó, PA.
Coroa do Muriçoca, Baía do Marajó, PA.
Praia Grande, Salvaterra, I. de Marajó, PA.
Praia Grande, Salvaterra, I. de Marajó, PA.
Continua...
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008
REVISÃO DO CONHECIMENTO SOBRE OS MAMÍFEROS AQUÁTICOS DA COSTA NORTE DO BRASIL
MPEG 38758
MPEG 38759
MPEG 38760
MPEG 38761
MPEG 38762
MPEG 38763
MPEG 38764
MPEG 38765
MPEG 38767
MPEG 38768
MPEG 38769
MPEG 38770
MPEG 38771
MPEG 387772
MPEG 38773
MPEG 38774
MPEG 38775
MPEG 38776
MPEG 38777
MPEG 38778
MPEG 38779
MPEG 38780
MPEG 38781
MPEG 38782
MPEG 38783
MPEG 38784
MPEG 38766
MPEG 39440
MPEG 39441
MPEG 39442
MPEG 39443
MPEG 39444
MPEG 39445
MPEG 39446
MPEG 39447
MPEG 39448
MPEG 39449
MPEG 39450
MPEG 39451
MPEG 39452
Sotalia guianensis
Inia geoffrensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Inia geoffrensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008
Continua...
Praia Grande, Salvaterra, I. de Marajó, PA.
Praia de Joanes, Salvaterra, I. de Marajó, PA.
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia do Porto, Joanes, Salvaterra, I. de Marajó, PA.
Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA.
Caju-una, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia do Céu, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia do Crispim, Marapanim, PA.
Algodoal, Maracanã, PA
Maiandeua, Fortalezinha, Maracanã, PA
Maiandeua, Fortalezinha, Maracanã, PA
Maiandeua, Fortalezinha, Maracanã, PA
Maiandeua, Fortalezinha, Maracanã, PA
Maiandeua, Fortalezinha, Maracanã, PA
Maiandeua, Fortalezinha, Maracanã, PA
Maiandeua, Fortalezinha, Maracanã, PA
Maiandeua, Fortalezinha, Maracanã, PA
Maiandeua, Fortalezinha, Maracanã, PA
Maiandeua, Fortalezinha, Maracanã, PA
Maiandeua, Fortalezinha, Maracanã, PA
Maiandeua, Maracanã, PA
Praia do Marco, Maracanã, PA
lha de Maiandeua, Maracanã, PA
Nha de Maiandeua, Maracanã, PA
Barra Velha, Soure, I. de Marajó, PA
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA
Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA.
Continua...
391
392
MPEG 39453
MPEG 39454
MPEG 39455
MPEG 39456
MPEG 39457
MPEG 39458
MPEG 39459
MPEG 39460
MPEG 39461
MPEG 39462
MPEG 39463
MPEG 39464
MPEG 39465
MPEG 39496
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Inia geoffrensis
Sotalia guianensis
Sotalia guianensis
Steno bredanensis
Tursiops truncatus
Delphinidae não identificado
S.SICILIANO et al.
...continuação
Caju-una, Soure, I. de Marajó, PA.
Caju-una, Soure, I. de Marajó, PA.
Caju-una, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia do Céu, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia do Céu, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia do Céu, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia do Céu, Soure, I. de Marajó, PA.
Igarapé do Céu, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia do Céu, Soure, I. de Marajó, PA.
Praia Grande, Salvaterra, I. de Marajó, PA.
Algodoal, Maracanã, PA
Fortalezinha, Maracanã, PA.
Algodoal, Maracanã, PA
Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA
LISTA DE TOMBO DA COLEÇÃO OSTEOLÓGICA DE MAMÍFEROS AQUÁTICOS DO INSTITUTO ILHA DO CAJU, MARANHÃO
TOMBO
CEMA 001
CEMA 002
CEMA 003
CEMA 004
CEMA 005
CEMA 006
CEMA 007
CEMA 008
CEMA 009
CEMA 010
CEMA 011
CEMA 012
CEMA 013
CEMA 014
CEMA 015
CEMA 016
CEMA 017
CEMA 018
CEMA 019
CEMA 020
CEMA 021
CEMA 022
CEMA 023
CEMA 024
ESPÉCIE
Megaptera novaeangliae
Balaenoptera edeni
Balaenoptera edeni
Balaenoptera acutorostrata
Sotalia guianensis
Balaenoptera acutorostrata
Sotalia guianensis
Physeter macrocephalus
Physeter macrocephalus
Physeter macrocephalus
Delphinidae
Physeter macrocephalus
Sotalia guianensis
Feresa attenuata
Sotalia guianensis
Delphinidae
Delphinidae
Delphinidae
Physeter macrocephalus
Balaenoptera edeni
Sotalia guianensis
Delphinidae
Physeter macrocephalus
Steno bredanensis
LOCAL
Praia Oceânica, Delta do Parnaíba, MA
Praia do Ciumal, Delta do Parnaíba, MA
lha das Canárias, Delta do Parnaíba, MA
Praia da Melancieira, Delta do Parnaíba, MA
Praia do Ciumal, Delta do Parnaíba, MA
Praia do Ciumal, Delta do Parnaíba, MA
Praia do Mangue Seco, Delta do Parnaíba, MA
Praia da Baleia, Apicum açu, MA
Paulino Neves, Barreirinhas, MA
Paulino neves, MA
Hlha do Cajual Pereira, Apicum-açu, MA
Praia de Caburé, Barreirinhas, MA
Porto da Raposa, São Luís, MA
Praia do Mangue Seco, Delta do Parnaíba, MA
Praia do Caolho, São Luis, MA
Ponta do Mangue, Delta do Parnaíba, MA
Ribamar, São Luís, MA
lha do Cajual Pereira, Apicum-açu, MA
Barreirinhas, Maranhão
Praia Oceânica, Delta do Parnaíba, MA
Praia do Guagirú, Barreirinhas, MA
Praia do Rio Negro, Barreirinhas, MA
Barreirinhas, Maranhão
lha do Caju, Delta do Parnaíba, MA
continua...
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008
REVISÃO DO CONHECIMENTO SOBRE OS MAMÍFEROS AQUÁTICOS DA COSTA NORTE DO BRASIL 393,
CEMA 025 Sotalia guianensis
CEMA 026 Physeter macrocephalus
CEMA 027 Sotalia guianensis
CEMA 028 Sotalia guianensis
CEMA 029 Sotalia guianensis
CEMA 030 Sotalia guianensis
CEMA 031 Sotalia guianensis
CEMA 032 Sotalia guianensis
CEMA 033 Delphinidae
CEMA 034 Sotalia guianensis
CEMA 035 Physeter macrocephalus
CEMA 036 Lagenodelphis hosei
CEMA 037 Sotalia guianensis
CEMA 038 Sotalia guianensis
CEMA 039 Sotalia guianensis
CEMA 040 Sotalia guianensis
CEMA 041 Sotalia guianensis
CEMA 042 Physeter macrocephalus
> Balaenoptera cf. musculus (Linnaeus, 1758)/B. cf.
physalus (Linnaeus, 1758)
SICILIANO et al. (2005) assinalaram o encalhe de uma
baleia de grandes proporções (Balaenoptera cf.
musculus ou B. cf. physalus) na contracosta da Ilha
de Marajó no início da década de 1990.
Recentemente, moradores de Soure relataram que
o encalhe deste exemplar havia acontecido na Ilha
do Machadinho, próximo ao Cabo Maguari, Ilha de
Marajó. Algumas peças ósseas deste exemplar
encontram-se em exposição nos quiosques da Praia
do Pesqueiro e no Curtume de Soure.
>Baleia-de-Bryde (Balaenoptera edeni Anderson, 1879)
Pelo menos três encalhes da baleia-de-Bryde
(Balaenoptera edeni) são conhecidos para a costa
norte. ALMEIDA (1998) reportou um encalhe ocorrido
na Praia do Ciumal, na porção leste da Ilha do Caju,
Delta do Parnaíba, Maranhão, em 1991 (CEMA 002).
MacaLHÃES et al. (2006a) reportaram dois outros
registros: um para a Ilha das Canárias, Delta do
Parnaíba, Maranhão, em 1996 (CEMA 003), e outro
para a Praia Oceânica, Ilha do Caju, em 1999 (CEMA
020). Os registros conhecidos de baleia-de-Bryde na
costa norte encontram-se listados na tabela 1.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008
... conclusão.
Cedral, MA
Hlha do caju, Delta do Parnaíba, MA
Macacoeira, Primeira Cruz, MA
Praia Litorânea, São Luís, MA
Ribamar, São Luís, MA
Primeira Cruz, MA
Ribamar, São Luís, MA
Paulino Neves, MA
Paulino Neves, MA
Paulino Neves, MA
lha do Passeio, Delta do Parnaíba, MA
Caburé, Barreirinhas, MA
Praia Litorânea, São Luís, MA
Paulino Neves, MA
Ribamar, São Luís, MA
Praia Litorânea, São Luís, MA
Olho D'Agua, São Luís, MA
Olho D'Agua, São Luís, MA
>Baleia-minke-antártica (Balaenoptera bonaerensis
Burmeister, 1867)
O primeiro registro de uma baleia-minke-antártica
(Balaenoptera bonaerensis) na costa norte ocorreu
em 9 de janeiro de 2007, no rio Muriá, município
de Curuçá, Pará. O exemplar adentrou o rio ainda
vivo, € após sucessivas tentativas de fazê-lo retornar
ao mar, veio a óbito em 15 de janeiro (Fig.5).
Tratava-se de um macho adulto de comprimento
total de 10,37m. O esqueleto encontra-se
depositado na coleção de Mastozoologia do Museu
Paraense Emílio Goeldi (MPEG 38487).
> Baleia-jubarte
(Borowski, 1781)]
[(Megaptera novaeangliae
Um encalhe reportado para a Praia da Pedra do Sal,
Piauí (SEVERO et al., 2004) e um esqueleto incompleto
recolhido na Praia Oceânica, Ilha do Caju, Maranhão
(CEMA 001) (MacaLHÃEs et al. 2005b) representam
as únicas evidências recentes da presença da
baleia-jubarte (Megaptera novaeangliae) na costa
norte. Por outro lado, baleeiros holandeses
reportaram avistagens e capturas de baleias-jubarte
ao largo da costa norte brasileira nas primeiras
décadas do século XX (SLUPER & VAN UTRETCH, 1959).
394 S.SICILIANO et al.
a,
Fig.5- Baleia-minke-antártica (Balaenoptera bonaerensis) encalhada morta em Camará, Marapanim, Pará, em janeiro de
2007. Foto: Renata Emin-Lima, GEMAM/PIATAM.
A tabela 1 lista os encalhes reportados de baleia-
jubarte na costa norte.
PEQUENOS CETÁCEOS PELÁGICOS
>Golfinho-de-Risso [(Grampus griseus (G. Cuvier,
1812)]
Um crânio e mandíbula (Fig.6) encontrados nos
Lençóis Maranhenses representaram a primeira
ocorrência do golfinho-de-Risso (Grampus griseus)
para a costa norte (SiciLiano & MOREIRA, 1992). Mais
recentemente, em 23 de fevereiro: de 2007, foi
registrado um exemplar encalhado vivo na Praia
Grande de Marapanim, município de Marapanim,
costa paraense (GEMAM /PIATAM, dados não
publicados). O exemplar veio a óbito na tarde do
mesmo dia (Fig.7). A carcaça foi coletada ainda
fresca em 24 de fevereiro, e o material osteológico
encontra-se depositado na coleção de
Mastozoologia do Museu Paraense Emílio Goeldi
(MPEG 38480).
>Baleia-piloto-de-peitorais-curtas (Globicephala
macrorhynchus Gray, 1846)
A presença da baleia-piloto-de-peitorais-curtas
(Globicephala macrorhynchus) na costa norte é
conhecida através de registros de avistagem ao largo
da costa maranhense (S. Siciliano, obs. pessoal) e
na Bacia do Pará/Maranhão (ErBER et al., 2005a).
Em adição, Asano FiLHo et al. (2004) listaram o
“chati” (Globicephala sp.) na relação das espécies
acessíveis as capturas com espinhel pelágico de
deriva durante pescarias efetuadas na costa norte
entre outubro de 2000 e setembro de 2002.
>Orca-pigméia (Feresa attenuata Gray, 1874)
MacaLHÃES et al. (2006b, 2007) reportaram um
crânio de orca-pigméia (Feresa attenuata) recolhido
na Praia do Mangue Seco, Ilha do Caju, Maranhão
(CEMA 014). Um grupo estimado em 100 orcas-
pigméias foi registrado por ERrBER et al. (2005b) em
águas da Bacia do Pará/Maranhão.
>“Blackfish” não identificado
SICILIANO et al. (2005) relataram o encalhe de um
pequeno “blackfish” na praia do Araruna,
Soure, Ilha de Marajó, Pará, em julho de 2005.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008
REVISÃO DO CONHECIMENTO SOBRE OS MAMÍFEROS AQUÁTICOS DA COSTA NORTE DO BRASIL 395
Fig.6- Crânio e mandíbulas do golfinho-de-Risso (Grampus griseus) registrado nos Lençóis Maranhenses, em 1991 (Siciliano
e Moreira, 1992).
] »
| der 4
SAW a
Fig.7- Golfinho-de-Risso (Grampus griseus) encalhado na Praia Grande, município de Marapanim, Pará, em fevereiro de
2007. Foto: GEMAM/PIATAM.
nai
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008
396 S.SICILIANO et al.
Pela descrição de pescadores da localidade, poderia
tratar-se de uma orca-pigméia (F. attenuata) ou
golfinho-cabeça-de-melão (Peponocephala electra).
Recentemente, em maio de 2007, um conjunto de
vértebras lombares e caudais recolhido na praia
do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA (MPEG
39496), apresentou semelhanças morfológicas com
Feresa ou Peponocephala, mas ainda aguarda
identificação definitiva.
>Golfinho-pintado-pantropical [(Stenella attenuata
(Gray, 1846)]
O golfinho-pintado-pantropical (Stenella attenuata)
foi registrado visualmente durante cruzeiro
oceanográfico do Navio Oceanográfico Antares em
julho de 2001, ao largo da costa nordeste do Pará
(GEMAM/PIATAM, dados não publicados).
>Golfinho-rotador [(Stenella longirostris (Gray, 1828)]
Foram reportadas avistagens do golfinho-rotador
(Stenella longirostris) ao largo da costa norte em
distintas plataformas de observação (MorENo et al.,
2005; ErBER et al., 2005a).
>Golfinho-comum (Gênero Delphinus sp. Linnaeus,
1758)
Asano FILHO et al. (2004) listaram o golfinho-comum
(Delphinus sp.) como um dos organismos capturados
pelo espinhel pelágico derivante na costa norte. De
acordo com estes autores, cetáceos e quelônios
representaram apenas 0,2% dos eventos de capturas
no espinhel pelágico durante pesquisas conduzidas
no âmbito do Projeto Protuna/CEPNOR. Em maio
de 2007, um crânio e algumas vértebras de golfinho-
comum foram recolhidos na Praia do Mupéua, Vila
de Fortalezinha, Maracanã, Pará, representando o
primeiro registro osteológico desta espécie para a
costa norte. O material testemunho encontra-se
depositado no MPEG sob número 38742.
>Golfinho-de-Fraser (Lagenodelphis hosei Fraser,
1956)
O encalhe vivo de um exemplar de golfinho-de-
Fraser (Lagenodelphis hosei na Praia do Caburé,
Barreirinhas, Maranhão, em 5 de agosto de 2006
constitui o único registro conhecido para essa
espécie na costa norte (CEMA 036) (Tosi et al. 2008)
(Fig.8). De acordo com os autores, a carcaça fresca
do exemplar em questão teria sido utilizada por
pescadores para consumo e como isca.
Sirênios |[peixe-boi-da-Amazônia (Trichechus
inunguis Natterer, 1883) e peixe-boi-marinho
(Trichechus manatus Linnaeus, 1758)]
De acordo com Domninc (1981), a costa norte
apresenta a singularidade da presença de duas
espécies de peixe-boi: o amazônico (Trichechus
nunguis Natterer, 1883) e o marinho (T. manatus
Linnaeus, 1758). Os levantamentos conduzidos
por Domninc (1981) indicaram que o peixe-boi-da-
Amazônia (T. inunguis) ocorreria por toda a região
do estuário amazônico, desde o Amapá até a porção
continental do Pará, incluindo a Ilha de Marajó e
as ilhas da costa atlântica. T. manatus apresentaria
uma distribuição disjunta, aparentemente
ocorrendo na costa do Amapá, ao norte do Cabo
Norte, e na região da foz do rio Mearim, Maranhão.
Segundo aquele autor, o peixe-boi-marinho teria
sido exterminado na costa atlântica do Pará, e
estaria ausente na região do Marajó. BEsT & TEIXEIRA
(1982) revelaram dados sobre a ocorrência do
Fig.8- Exemplar de golfinho-de-Fraser (Lagenodelphis hosei)
encalhado na Praia de Caburé, Barreirinhas, Maranhão, em
2006 (CEMA 036). Foto: PROCEMA/ICEP.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008
REVISÃO DO CONHECIMENTO SOBRE OS MAMÍFEROS AQUÁTICOS DA COSTA NORTE DO BRASIL 397
peixe-boi-marinho na costa do Amapá,
corroborando informações prévias de DomNING
(1981), e indicando o status destas populações
remanescentes. As informações apresentadas por
aqueles autores indicaram que T. manatus teria
sofrido intensa caça de subsistência na maior parte
da costa amapaense. SiciLiano (1991) revelou a
presença do peixe-boi marinho na região de
Alcântara, Maranhão, onde foram encontrados
restos de esqueletos de vários exemplares caçados
na região. Levantamentos conduzidos entre 1992
e 1993, desde a foz do Rio Parnaíba (Maranhão)
até o Oiapoque (Amapá), revelaram a ocorrência
de T. manatus em distintas regiões da Costa Norte
(Lima et al., 2000; Luna, 2001). Em resumo, as áreas
conhecidas de ocorrência regular de peixe-boi
marinho na costa do Maranhão incluem:
Alcântara, Baia de S. Marcos; São José de
Ribamar, Baia de S. José de Ribamar; Baia do
Tubarão; Axuí, Ilha de Carrapatal; Manuma; Porto
do Rosa e Humberto de Campos (SiciLiano, 1991;
Lima et al., 2000; Luna, 2001; PareNTE et al., 2004;
BoavenNTURA, 2005; MAGALHÃES, Obs. pessoal). Na
costa do Pará são conhecidos registros da presença
de T. manatus em Fortalezinha (Ilha de Maiandeua,
Maracanã), Marapanim, Viseu, e na costa leste da
Nha de Marajó, em Salvaterra e Soure (Lima et al.,
2000; Luna, 2001; SiciLiano et al., 2006, 2007;
GEMAM/PIATAM, dados não publicados). Em
setembro de 2006, três indivíduos de T. manatus
foram avistados, dois adultos e um jovem, na foz
do Igarapé dos Tijolos, na costa do Amapá
(02º06:3:7,23"N, 09093913; WB. P. Xavier;
com. pessoal.). Registros recentes do peixe-boi-da-
Amazônia confirmam uma área de possível
simpatria com o peixe-boi-marinho na costa leste
da Ilha de Marajó.
Exemplares de T. inunguis foram assinalados para:
rio Acuti Pereira, comunidade de Santo Ezequiel
Moreno, Portel, PA, em 26/01/2008; rio Arari,
Cachoeira do Arari, PA, em 16/06/2007; praia do
Salazal, Salvaterra, em 31/01/2008; rio
Arapiranga, Vigia, PA, em 16/02/2008 (GEMAM /
PIATAM, dados não publicados). Os exemplares
de Portel e Salvaterra, ambas fêmeas, mediram
1,05me 0,98 m, respectivamente. O exemplar de
Vigia tratava-se de um macho de CT 0,86 m.
Constituem-se, portanto, de filhotes ainda em fase
de amamentação. O registro de Cachoeira do Arari
é notável por tratar-se de uma fêmea grávida, que
pesou 250 kg e portava um feto de 20 cm no
momento de sua captura em redes de emalhar no
rio Arari.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008
MUSTELÍDEOS
>Lontra [(Lontra longicaudis (Olfers, 1818)]
São conhecidos três exemplares de lontra (Lontra
longicaudis) colecionados no Estado do Pará e
depositados na coleção do Museu Nacional, Rio de
Janeiro (MNRJ). Estes exemplares são provenientes
dos rios Tocantins, alto Tapajós e Xingu (SicILIANO &
Franco, 2005). A coleção do Museu Paraense Emílio
Goeldi reúne exemplares de L. longicaudis
colecionados nas localidades de Baía do Guajará,
Gurupá e Xingu (região de Altamira), Estado do Pará,
além de um exemplar oriundo de Água Branca,
município de Amapá, Estado do Amapá. Lontras (L.
longicaudis) foram avistadas no estado do Amapá,
entre 2004 e 2006, no Parque Nacional das
Montanhas do Tumucumaque (01º35'45"N,
DZ 29 SW COZ SON,“ 054735"1:5" mise
01º50'41.29"N, 052º44'28.65"W), na Floresta
Nacional do Amapá (01º18'07"N, 051º35'17"W;
01º06'37"N, 051º53'37"W) e na Reserva Biológica do
Lago Piratuba (05º15'44,36"N, 053º47'9,21"W).
>Ariranha [(Pteronura brasiliensis (Gmelin, 1788)]
A coleção do Museu Paraense Emílio Goeldi reúne
exemplares de ariranha (Pteronura brasiliensis)
colecionados nas localidades de Santa Bárbara
(Benevides), Oriximiná, rio Ituqui e Portel, no Estado
do Pará; e Fazenda Nova Califórnia, rio Araguari,
Amapá, além de outros sem origem geográfica exata,
também procedentes do Estado do Amapá. Neste
Estado, entre os anos de 2004 e 2006, ariranhas (P.
brasiliensis) foram avistadas no Parque Nacional
Montanhas do Tumucumaque (01º35'45"N,
032º29"32"W; 402º11º36/N,/054735"150W Fe
01º50'41.29"N, 052º44'28.65"W), na Floresta
Nacional do Amapá (01º18'07"N, 051º35'17"W;
01S06'3Z0N;. 091253837 W) e naskeserva de
Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru
(00º27'18,67"S, 052º42"5.50"W). Na costa do Estado
do Amapá, em novembro de 2006, dois grupos de
ariranhas foram registrados na Reserva Biológica
do Lago Piratuba (05º15'44,36"N, 053º47'9,21"W).
Informações não documentadas sugerem a
ocorrência de P. brasiliensis no rio Paracauari, em
Soure, Ilha de Marajó (P. Carvalho, com. pessoal).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O levantamento aqui conduzido revelou a ocorrência
398 S.SICILIANO et al.
de 22 espécies de mamíferos aquáticos presentes
na costa norte do Brasil. A maioria dessas espécies
corresponde à Ordem Cetacea (baleia, botos e
golfinhos), com ampla distribuição nas zonas
tropicais e equatoriais. Revela-se assim uma
tendência à aproximação da composição e estrutura
desta comunidade de cetáceos com a fauna
caribenha. Entretanto, espécies típicas de regiões
austrais, como a baleia-minke-anã e a baleia-minke-
antártica, apresentaram na costa norte seu limite
mais setentrional de ocorrência no Oceano Atlântico.
Quanto aos sirênios, merece consideração a
ocorrência de distintos grupos populacionais
dispersos pelos três estados, ainda sujeitos a caça
artesanal ou acidentes com equipamentos de pesca.
Um esforço de avaliação do status destas populações
de Trichechus spp.deve ser priorizado a curto prazo.
Por fim, sugere-se uma ampla avaliação das capturas
acidentais do boto-cinza em toda a costa norte e as
suas conexões com o comércio de peças anatômicas.
Um extenso programa de monitoramento destas
atividades pesqueiras, combinado ao esforço de
coleta de informações sobre locais de ocorrência e
realização de práticas educativas poderá garantir a
sobrevivência destas populações de botos.
AGRADECIMENTOS
A João Luiz Gasparini, Paulo Carvalho e Tarcísio
Lima Junior que gentilmente cederam dados inéditos
para esta compilação; a Bruno Freitas Xavier, que
colaborou com avistamentos recentes de peixe-boi
na costa do Amapá; aos veterinários do Bosque
Rodrigues Alves, em Belém, Jairo Moura e Doracele
Alcântara Tuma; a Tomás C.S. Peixoto, que elaborou
os mapas com as avistagens de Inia geofirensis na
Baia do Marajó; aos Srs. João Batista Favacho
Sarmento e Evandro França de Melo, que
colaboraram com a equipe GEMAM durante os
monitoramentos de praia; à equipe de campo do
PROCEMA/ICEP, especialmente Mariana Santos e
Rafaela Diniz (Universidade Federal do Maranhão);
a Mariana Serra (Centro Universitário do Maranhão);
Nathali Ristau, Cristiano Cruz, Aline Teixeira,
Leonardo de Oliveira (Universidade Estadual do
Maranhão) e Tarcísio Lima Júnior (Instituto Ilha do
Caju); à Cetacean Society International. O
PROCEMA/ICEP foi patrocinado pelo Programa
PETROBRAS Ambiental. A equipe do GEMAM é
especialmente agradecida à Dra. Heloisa Vargas
Borges (Coordenação Projeto Piatam Oceano /
PETROBRAS/CENPES/PDEDS/AMA) e ao Sr.
Ronaldo Bezerra (SMS Corporativo /Petrobras) por
todo incentivo e apoio logístico proporcionado nas
viagens de campo. Somos igualmente gratos aos três
pareceristas anônimos e ao Dr. João Alves de Oliveira
(MNRJ), pelas valiosas sugestões ao manuscrito.
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ISSN 0365-4508
A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS
NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS — UBERABA
(MINAS GERAIS): DIAGNÓSTICO PARA O TURISMO PALEONTOLÓGICO '
(Com 20 figuras)
WELLINGTON FRANCISCO SÁ DOS SANTOS 2º
ISMAR DE SOUZA CARVALHO 2:*
RESUMO: O Museu dos Dinossauros foi construído em Peirópolis em 1992 com a função de preservar o
patrimônio fossilífero do Triângulo Mineiro (Minas Gerais). Desde então, pessoas de diversas partes do Brasil
e do mundo deslocam-se para a região, em busca da informação gerada pelos achados fósseis. Esta prática
contínua atraiu instituições e estabelecimentos públicos e privados para Peirópolis. Em consequência, ocorreu
no espaço local uma intensificação das relações sociais e econômicas. Nesse contexto, o estudo procurou
obter a percepção dos conhecedores do lugar (população local e as pessoas que possuem algum vínculo com
a comunidade), referente às transformações sociais, ambientais, culturais e econômicas ocorridas. Deste
modo, o presente artigo realizou um diagnóstico das necessidades para a implementação de um turismo
paleontológico sustentável na localidade. Assim, analisou-se a influência das descobertas geológicas e
paleontológicas na região, e a dinâmica socioeconômica espacial existente em Peirópolis.
Palavras-chave: Turismo paleontológico. Desenvolvimento socioespacial. Museu dos Dinossauros.
Patrimônio geológico.
ABSTRACT: The importance of the Museu dos Dinossauros in the development of the Peirópolis — Uberaba
(Minas Gerais): diagnostic for paleontological tourism.
The Museu dos Dinossauros was constructed in Peirópolis in 1992, with the aim to preserve the fossiliferous
heritage of the Triângulo Mineiro (Minas Gerais, Brazil). Since then, tourists from Brazil and from many parts
of the world visit the region, searching information about the fossils. This continuous practice attracted
public and private institutions to Peirópolis. In consequence of this, occurred in the local space a flourishment
of the social and economic relationships. In this context, this study analyses the perception of the place
experts (the local population and people who have some knowledge of the community) about the social,
environmental, cultural, and economical changes. Also, this study observed the necessities for a sustentable
paleontological tourism in Peirópolis.
Key words: Paleontological tourism. Socioespacial development. Museu dos Dinossauros. Geological heritage.
INTRODUÇÃO proteção mais efetiva dos depósitos fossiliferos,
divulgar aos diferentes segmentos da população a
importância dos estudos geológicos e
paleontológicos, e difundir, em diversas escalas de
atuação, o conhecimento científico.
O Brasil possui importante acervo de fósseis
expostos em museus espalhados por todo o país.
Esses museus são de grande importância para a
preservação de nosso patrimônio científico, cultural
e natural. A localização da ampla maioria dos
museus paleontológicos brasileiros está
intimamente relacionada à localização dos jazigos
fossiliferos, ou seja, estão próximos das áreas de
coleta de fósseis, tendo a função de assegurar uma
! Submetido em 01 de agosto de 2007. Aceito em 29 de maio de 2008.
Estudo realizado com apoio do CNPg, proc nº 305780/2006-9.
A construção de alguns museus paleontológicos
brasileiros vem alavancando, tanto economicamente
quanto socialmente, as comunidades às quais estão
inseridos. Isso se dá devido ao aumento de um
turismo que busca conhecimentos científicos,
culturais e educacionais relacionados aos achados
? Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Geociências, Departamento de Geologia, CCMN. Av. Athos da Silveira Ramos, s/nº, Cidade Universitária,
Ilha do Fundão, 21910-200, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
* E-mail: tonlingeo(Dyahoo.com.br.
* E-mail: ismar(Dgeologia.ufr).br.
404 W.F.S.SANTOS & I.S.CARVALHO
fósseis, ou seja, de um turismo que possui como
finalidade o conhecimento gerado pelo estudo
paleontológico (CarvaLHo, 2004).
Nesse contexto, teremos como estudo de caso, o
bairro rural do Município de Uberaba denominado
Peirópolis, no Estado de Minas Gerais, que possui
um sítio paleontológico rico em fósseis de grandes
vertebrados, como os dinossauros carnívoros e
herbivoros, que são as principais atrações do local.
No entanto, não podemos desprezar os fósseis de
crocodilos, tartarugas (quelônios), sapos (anuros),
a vasta coleção de fósseis de invertebrados, bem
como os ovos e fragmentos de ovos de dinossauros.
Este estudo visa analisar as influências sociais,
econômicas, ambientais e culturais das descobertas
geológicas e paleontológicas do Museu dos
Dinossauros em Peirópolis, ou seja, a relação entre
a implementação deste objeto geográfico, e as
transformações ocorridas no espaço local
associadas ao crescente turismo paleontológico.
Aspectos como as relações sociais, significado do
Museu dos Dinossauros para a exploração do
turismo, o valor histórico e científico dos fósseis
para a difusão do conhecimento em múltiplas
escalas, sejam estas locais, regionais, nacionais ou
globais, possibilitam uma avaliação da relação entre
a localização do museu e o exercício de suas
funções.
OBJETIVOS
Procurou-se obter informações no decorrer da
pesquisa, sobre a percepção que os conhecedores
de Peirópolis possuem das transformações
ambientais, culturais, econômicas e sociais
ocorridas na localidade, em consequência da
instalação do Museu dos Dinossauros. Assim,
buscou-se a realização de um diagnóstico
perceptivo dessas modificações, junto à
comunidade, no intuito de expor as necessidades
para implementação de um turismo paleontológico
sustentável em Peirópolis. Nesse contexto, foram
analisados os seguintes aspectos:
A. A possível contribuição do turismo paleontológico
para a geração de emprego e renda no lugar, além
das prováveis modificações na qualidade de vida
dos moradores de Peirópolis;
B. A avaliação do envolvimento da comunidade no
desenvolvimento e gerenciamento do planejamento
turístico e, se estão ocorrendo melhorias na parte
de infra-estrutura para atender a demanda turística;
C. A relação entre o turismo paleontológico e os
possíveis impactos gerados no ambiente físico de
Peirópolis, além da percepção dos conhecedores do
bairro sobre os efeitos ocasionados na cultura local
(modos de vida, costumes, valores, crenças, utopias
e linguagens), através do contato com culturas
diferenciadas;
D. A opinião dos conhecedores do lugar sobre as
possíveis melhorias do espaço, tanto interno quanto
externo ao Museu dos Dinossauros, a importância
que o museu representa para a comunidade local e
para a ciência, a identidade que possuem com
patrimônio local e a consciência de preservação;
E. O histórico do Museu dos Dinossauros, o
contexto histórico de Peirópolis e a geologia da
região onde está inserido o sítio paleontológico;
F. Os projetos do Museu dos Dinossauros, os
diferentes financiamentos destinados a
manutenção deste, os planos e metas do
planejamento turístico da localidade e os objetivos
da futura instalação da Rede Nacional de Pesquisa
Científica em Paleontologia;
G. A possível relação da atividade turística em
Peirópolis com outras atividades econômicas
existentes. Peirópolis é considerado uma
comunidade rural, onde muitas pessoas mantêm-
se trabalhando como agricultores, pecuaristas e
avicultores. A partir dessa constatação considerar-
se-á uma possível vivência do turismo no espaço
rural da localidade.
TURISMO PALEONTOLÓGICO
O turismo paleontológico é um tipo específico do
turismo científico ou ecoturismo, que visa O
conhecimento da história da vida na Terra e
realizado em museus, parques, trilhas, rotas e
escavações, tornando-se importantíssimo como
uma ligação entre a preservação do patrimônio
geológico e o desenvolvimento socioeconômico
regional (ScHWwANKE & SILVA, 2004).
A Paleontologia é uma ciência que possui como objeto
de estudo os fósseis, que são os restos de animais e
vegetais, além das evidências de suas atividades
(icnofósseis), que ficaram preservados nas rochas.
A história dos fósseis é também a história da
migração dos continentes, das mudanças climáticas,
das extinções em massa, das modificações ocorridas
na fauna e na flora ao longo do tempo geológico. Os
fósseis são também importantes para estudos no
âmbito da geologia econômica, visando à prospecção
de bens minerais, tais como o carvão, óleo e gás.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 405
Assim sendo, o objetivo da Paleontologia é o estudo
de um amplo universo de organismos, como por
exemplo, bactérias, vegetais aquáticos e terrestres,
bem como inúmeros vertebrados e invertebrados,
que foram eternizados nas sucessões litológicas
(CarvaLHO, 2000).
O turismo é uma atividade que se enquadra no setor
terciário da economia (serviços) e pode ser definido
como fenômeno social, que consiste no deslocamento
voluntário e temporário de indivíduos ou grupos de
pessoas que, fundamentalmente por motivos de
recreação, descanso, crença, cultura, educação,
saúde, entre outros, saem do seu local de residência
habitual para outro, gerando múltiplas inter-relações
de importância social, econômica e cultural (DE LA
TorrE,1992, apud Barreto, 1995).
O turismo é muito mais do que uma simples
atividade econômica, pois envolve relações sociais,
troca de informações e interação da comunidade
com o visitante. Observando as características e o
perfil dos turistas, percebe-se que eles buscam
locais com características fora do comum, que lhes
possibilitem o contato direto com o diferente e
exótico (RODRIGUES, 2000).
Nesse caso, os fósseis são considerados exóticos e
fora do comum, por necessitarem de condições
específicas para se preservarem (rápido
soterramento, ausência de oxigênio e pouca
atividade bacteriana) e por não serem encontrados
frequentemente na natureza. Essa característica
especial é o que causa imenso fascínio na população
e na comunidade científica, contribuindo assim
para o reconhecimento do turismo paleontológico
como uma prática positiva para o desenvolvimento
de comunidades portadoras de sítios fossiliferos
expressivos.
No entanto, qualquer comunidade que possua
algum atrativo turístico precisa que este atrativo
seja muito bem gerenciado pelo poder público e
pelas iniciativas privadas, considerando-se sempre
a opinião da população residente. A partir dessa
análise, percebemos que para ocorrer o verdadeiro
desenvolvimento de um determinado local, torna-
se necessário um turismo que possibilite algum
dinamismo a esse lugar, representado pela geração
de emprego e renda, além da necessidade de
investimentos em infra-estrutura adequada para
atender a demanda turística, o que poderá acarretar
melhorias na qualidade de vida da população local.
Torna-se necessário também, que esse turismo não
descaracterize o ambiente natural, levando a algum
tipo de degradação ou desfigurando e desprezando
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
a cultura existente. Trata-se de um turismo que
gere benefícios socioeconômicos para o local, e que
seja ao mesmo tempo justo, participativo e
sustentável para a comunidade envolvida.
Segundo SiLveirRA (2000), o desenvolvimento
sustentável é definido como aquele que atende às
necessidades do presente sem comprometer a
possibilidade das gerações futuras atenderem as
suas próprias necessidades. Aplicado ao turismo,
o princípio de sustentabilidade é definido como algo
que vai além da dimensão ecológica, pois
compreende também a melhoria das condições
econômicas e sociais das populações locais e a
satisfação dos turistas.
A adoção do conceito de desenvolvimento
sustentável, aplicado ao turismo, representa
estratégia válida para se buscar a integração entre
uso turístico, preservação do meio ambiente e
melhoria das condições de vida das comunidades
locais. No entanto, se este conceito não for
incorporado às políticas e práticas do planejamento
territorial do turismo em nível local, a
sustentabilidade será ilusória. Neste caso, torna-
se essencial um planejamento integrado e
participativo, no qual tem-se a necessidade do
envolvimento da comunidade nos processos de
implementação dos objetivos e metas a serem
alcançadas e de gestão do território, valorizando
mais o processo no qual as decisões são tomadas
em consenso. Envolve, portanto, todos os atores
sociais, com suas necessidades, responsabilidades
e interesses. Esse tipo de planejamento difere das
práticas vigentes, calcadas na imposição de “planos
turísticos” por burocratas de órgãos públicos. Ele
exige tempo mais longo na sua proposição, uma
vez que depende de consultas continuas e de diálogo
constante com a população local (SiLveira, 2000).
METODOLOGIA DO ESTUDO
A metodologia utilizada consistiu em análises de
dados contidos em acervos bibliográficos, como por
exemplo, dissertações de mestrado e doutorado,
monografias, livros e pesquisas na rede
internacional de computadores. Foi realizada
também, uma análise do livro de visitas do Museu
dos Dinossauros, para verificação da frequência,
origem e número total de visitantes, caracterizando
assim, o perfil dos mesmos.
Foi cumprido um trabalho de campo entre os dias 07
e 14 de fevereiro de 2006. Nesta atividade de campo
406 W.F.S.SANTOS & [.S.CARVALHO
realizaram-se entrevistas com a população de
Peirópolis (Fig. 1) e com os representantes de
estabelecimentos públicos e privados da localidade,
além de pessoas não residentes, mas que possuíam
algum vínculo com a comunidade, totalizando 100
entrevistados. Buscou-se a opinião desses 100
entrevistados como verdadeiros conhecedores das
modificações ocorridas no lugar, para avaliarmos se
o turismo paleontológico está sendo, ou poderá ser
futuramente proveitoso.
As entrevistas foram realizadas com questões pré-
estabelecidas abordando aspectos socioespaciais de
Peirópolis. Os critérios utilizados para a escolha
destas calcaram-se em temas de interesse de
comunidade e que possibilitaram uma análise
quantitativa e qualitativa dos dados. Algumas das
questões possuíam respostas fechadas, já que neste
caso a intenção era a obtenção de dados
quantitativos. No entanto, outras questões eram de
caráter aberto, na busca de informações qualitativas.
Neste mesmo período, além destas entrevistas, foram
realizadas três pesquisas específicas, de caráter
aberto para obtenção de resultados qualitativos
sobre o Museu dos Dinossauros, Rede Nacional de
Pesquisa Científica em Paleontologia e o
planejamento turístico de Peirópolis.
Na entrevista com Luiz Carlos Borges Ribeiro,
Diretor do Museu dos Dinossauros, procurou-se
obter informações sobre a importância do museu
na comunidade, o contexto histórico de Peirópolis,
as diferentes instituições que possuem parcerias
com o museu, os diferentes financiamentos
destinados à manutenção deste objeto geográfico,
a procedência destes investimentos e os futuros
projetos e eventos para o local (Ap.1).
Na entrevista com Beethowen Luis Teixeira, um dos
idealizadores do Museu dos Dinossauros, e
responsável pela instalação da Rede Nacional de
Pesquisas Científicas em Paleontologia, buscou-se
principalmente a obtenção de dados relativos à
construção da referida Rede de Pesquisas e dos
diferentes investimentos e projetos (Ap.2).
No caso do planejamento turístico, foram feitas
entrevistas, diretamente com Zulema Paixão e Ana
Raquel de Paiva Olinto, funcionárias da Secretaria
de Planejamento e Desenvolvimento do Turismo de
Uberaba e responsáveis pelo planejamento turístico
em Peirópolis. Buscou-se nessas entrevistas Oo
conhecimento dos projetos, objetivos, metas e
estratégias direcionadas à obtenção de um
Fig.1- Participação de conhecedores de Peirópolis na avaliação sobre o significado do turismo paleontológico para o local
(07/02/06 a 14/02/06).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 407
planejamento turístico integrado e participativo.
Iremos assim avaliar, se está ocorrendo o
envolvimento da comunidade no desenvolvimento
dos programas necessários para se alcançar um
turismo auto-sustentável (Ap.8).
BASES CONCEITUAIS
O entendimento das relações espaciais e temporais
geográficas são diferenciadas do entendimento das
relações geológicas de tempo e espaço, ou seja, O
tempo geológico tem dimensão distinta da
temporalidade geográfica, a qual é antropológica. Os
processos geológicos estão ocorrendo na Terra há
bilhões de anos e o ciclo de vida de um ser humano
é infinitamente menor do que esses processos. O
ser humano consegue enxergar em vida os processos
de erosão acelerada, os terremotos, algumas
erupções vulcânicas, porém não consegue visualizar
a fragmentação de um continente, as amplas
variações climáticas, as grandes extinções e o
soerguimento de cadeias montanhosas, que ocorrem
numa escala temporal de milhões de anos.
Nesse contexto, para iniciarmos um estudo
relacionado aos achados fósseis, como meios
importantes para o desenvolvimento socioespacial
de uma localidade, temos que estar atentos a essa
disparidade espaço-tempo, existente entre o ciclo
de vida de um ser humano e a ocorrência dos
processos geológicos. Assim, há a necessidade do
conhecimento da Geologia e Paleontologia da região,
para o entendimento de que maneira as descobertas
realizadas agem no imaginário popular. Torna-se
então possível, uma avaliação das linguagens a
serem utilizadas nos processos de divulgação
científica e ensino das ciências geológicas (SANTOS
et al., 2006).
Segundo Souza (2000), para se obter o
desenvolvimento de um determinado local,
primeiramente temos que diferenciar o conceito de
desenvolvimento socioespacial do conceito de
desenvolvimento econômico. O desenvolvimento
econômico é basicamente o binômio formado pelo
crescimento econômico e pela modernização
tecnológica. O aumento da produção de bens e o
progresso técnico embutido na idéia do
desenvolvimento econômico são meios associados à
ideologia do desenvolvimento dominante, podendo
acarretar um crescimento que se dá à custa de
taxas ascendentes de degradação ambiental, ou
no progresso tecnológico que se faz acompanhado
de desemprego tecnológico e exclusão. O
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
desenvolvimento estritamente econômico pode ocorrer
sem que, automática ou forçosamente, haja melhoria
do quadro de concentração de renda ou dos
indicadores sociais.
Souza (2000) acredita que, para ocorrer um
verdadeiro desenvolvimento de uma determinada
localidade, torna-se necessária uma superação de
problemas sociais, na qual uma sociedade se torne
mais justa e legítima para seus membros, ou seja,
a idéia do desenvolvimento socioespacial supõe
primeiramente a conquista da felicidade individual
e coletiva, sem a existência da exclusão social e
degradação ambiental.
Nesse contexto, o turismo bem planejado tem sido
encarado como uma das alternativas para
minimizar a exclusão social, seja através da
abertura de novos postos de emprego no setor
formal, ou oferecendo oportunidades de ocupação
no setor informal. Integrado a investimentos em
infra-estrutura turística, esta modalidade
econômica poderá melhorar a qualidade de vida da
população local e causar o contentamento dos
visitantes. O turismo vive das especificidades dos
lugares, assim temos que confiar na capacidade e
sabedoria das populações locais na identificação
de seus problemas e na tentativa de soluções
originais, com base na sua própria experiência e
na de outros grupos similares e, desse modo,
reforçar o lugar na sua expressão identitária, sem
que isso signifique isolamento (RoDriGuESs, 2000).
SAntTOS (1996) considera que a ordem global tenta
impor a todos os lugares uma única racionalidade,
e os lugares respondem ao mundo segundo os
diversos modos de sua própria racionalidade.
Assim, cada lugar é, ao mesmo tempo, objeto de
uma razão global e de uma razão local, convivendo
dialeticamente. O lugar é entendido como a porção
do espaço que tem sentido para a vida, ou seja, é
onde estão as referências pessoais e os sistemas
de valores que direcionam as diversas formas de
perceber e de constituir o espaço geográfico. Cada
lugar, mesmo globalizado, deve ser único, para dar
sentido a existência do sujeito e, portanto, do turista
(Santos, 2001).
Ampliando esses conceitos, CAnDIDO (2001)
considera que o turismo jamais possa ser visto como
a única solução dos problemas econômicos e sociais
enfrentados por uma comunidade, pois este é um
dos fatores que fazem com que o destino turístico
entre em decadência, tornando-se então necessária
uma inter-relação do setor turístico com as demais
atividades econômicas existentes no local.
408 W.F.S.SANTOS & [.S.CARVALHO
Se a localidade estiver alicerçada no setor primário
da economia, objetiva-se, para alcançar uma inter-
relação do turismo com as atividades rurais, uma
estruturação das fazendas existentes, como uma
forma para atrair o turista que possui finalidades
de conhecer o dia-a-dia de uma propriedade rural.
Então, tudo o que ocorre no meio rural, com relação
ao aproveitamento do turismo, pode ser considerado
como turismo rural, o que poderia ser, mais
precisamente, denominado de turismo no meio rural.
As necessidades básicas para a implantação do
turismo rural calcam-se em uma alimentação
baseada na cozinha tradicional do lugar e elaborada
com produtos locais; no oferecimento de atividades
alternativas de lazer e recreação no entorno da
propriedade rural; na participação do turista em
atividades rotineiras (cultivo e colheita, cuidados com
o gado) ou pelo menos, possibilidade de observação
além de alojamento em propriedade rural integrada
a moradia do proprietário (TuLix, 2000).
De acordo com CAnpiDo (2001) o turista, ao chegar a
uma comunidade, tem sua atenção voltada para as
questões histórico-culturais das localidades
visitadas. Em muitos casos, o turismo é vislumbrado
por uma comunidade e ansiado de tal forma que a
grande euforia se traduz em lucro rápido, fazendo a
comunidade ascender economicamente. Em meio a
essa euforia, muitas vezes, a comunidade não
percebe que está deixando seus hábitos e costumes,
ou seja, seus modos de vida, para melhor atender
as exigências da população visitante, perdendo
assim, um dos elementos que atraiu o turista, que é
a cultura e a história do local.
Segundo ArcHER & CoorER (2001), as questões gerais
e centrais, em qualquer discussão dos impactos
positivos e negativos do turismo, devem incluir
noções de capacidade de carga. Este é um conceito
relativamente claro, que se refere a um ponto, além
do qual, níveis superiores de visitas ou de
desenvolvimento turístico levariam a uma
deterioração inaceitável do ambiente físico e da
experiência do visitante.
ÁREA DE ESTUDO
LocaLização E CONTEXTO HISTÓRICO
O bairro rural Peirópolis está localizado no
Triângulo Mineiro a aproximadamente 10km de
Uberaba, no Estado de Minas Gerais (Fig.2). Possui
população estimada pela pesquisa de campo, de
aproximadamente 250 habitantes. A localidade foi
denominada inicialmente de Paineiras, nome da
estação de uma linha férrea da Companhia
Mogiana, inaugurada em 1889 pelo Conde D'Eu.
Depois, o local passou a se chamar Cambará, e
finalmente em 1º de abril de 1924 recebeu a
denominação de Peirópolis, em homenagem à
memória de Frederico Peiró, imigrante espanhol,
que se instalou na comunidade em 1896 (JornaL
INFORMATIVO DE PEIRÓPOLIS, 2005).
Peirópolis, no início do século XX, possuía economia
voltada para a mineração, mais especificamente
para a extração do calcário que era exportado por
via férrea para São Paulo. A produção de cal trouxe
riqueza e progresso rápido para região. A empresa
mineradora, na qual um dos sócios denominava-
se Frederico Peiró, em 1911, contava com duas
fábricas para a extração de calcário, empregando
mais de 150 trabalhadores. Durante esse período,
instalou-se na comunidade uma agência de correios
e, logo depois, uma escola (Escola Municipal
Frederico Peiró) que existe até hoje (Peiró, 2006).
A atividade econômica de Peirópolis entrou em
decadência devido à desativação do trecho
ferroviário que era responsável pelo transporte de
toda a produção de calcário para São Paulo. Muitos
moradores migraram para outras regiões à procura
de empregos e melhores condições de vida. Além
disso, o bairro não possuía políticas públicas
específicas (entrevista com Luiz Carlos Borges
Ribeiro, 07/02/2006, informação pessoal).
O acesso da população local às necessidades
básicas como saúde, educação, saneamento básico,
moradia, transporte, eram precárias. O bairro não
possuía qualidade em infra-estrutura que
mantivesse os moradores no local. A população
rural foi praticamente esquecida pelos
representantes governamentais, acarretando a
migração de grande contingente dessa parcela da
população para outras localidades. A mineração
tornou-se progressivamente mecanizada,
empregando menor número de trabalhadores
(SantOS et al., 2006).
A partir do ano de 1940, a descoberta de fósseis
em Mangabeira, também bairro do município de
Uberaba, chamou a atenção do brasileiro Llewellyn
Ivor Price (Fig.3), geólogo do Departamento Nacional
de Produção Mineral que trabalhou na região até o
ano de 1974, falecendo no ano de 1980. Durante
esse período de coleta foram definidas sete
localidades com fósseis em torno de Peirópolis,
sendo cinco delas na Serra do Veadinho (SanTOS ET
AL., 2006).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 409
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Fig.2- Localização de Peirópolis, bairro rural do município de Uberaba. Note a indicação da serra do Veadinho, lugar onde
são encontrados a maioria dos fósseis em Peirópolis (modificado de VasconceLLOS, 2006).
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410 W.F.S.SANTOS & [.S.CARVALHO
Fig.3- Fotografia de Llewellyn Ivor Price (1905-1980) com
um fêmur de titanossauro, oriundo de Peirópolis.
Fig.4- Visão aérea do Centro de
Pesquisas Paleontológicas
Llewellyn Ivor Price. O Museu
dos Dinossauros está a
esquerda, a réplica do
titanossauro ao centro e o
alojamento para pesquisadores
a direita (GiesBRECHT, 2006).
De maneira ambígua, a extração do calcário, que
trouxe tantas riquezas para a região, foi responsável
não só pela descoberta, mas também, pela destruição
de vários fósseis. A princípio timidamente, a
comunidade organizou-se e, buscando melhorias na
qualidade de vida, mobilizou-se através de uma
organização não governamental, denominada
Associação dos Amigos do Sítio Paleontológico de
Peirópolis, criada em 1989, e composta por
moradores da região, defensores e representantes
da comunidade científica local e do país. A
Associação dos Amigos do Sítio Paleontológico de
Peirópolis possui o objetivo de fiscalizar, promover e
proteger o sítio paleontológico dentro de sua área
demarcada em nível municipal, estadual e federal,
além de conscientizar a comunidade na proteção dos
depósitos fossilíiferos no município de Uberaba e
promover o entrosamento entre o conselho
comunitário para o desenvolvimento rural de
Peirópolis e a associação em questão, buscando seu
crescente desenvolvimento (JORNAL INFORMATIVO DE
PerrÓPoOLIS, 2005).
A Associação dos Amigos do Sitio Paleontológico de
Peirópolis teve grande importância durante a
instalação do centro de pesquisas e, através de ações
políticas, houve a necessidade de um recurso judicial
em defesa dos interesses cultural, científico, turístico
e ambiental de Peirópolis, tendo com isso, a
mineradora mais próxima do local sido fechada. Com
a desativação da mineradora, a Prefeitura de Uberaba,
colocou em funcionamento, em 1992, o Centro de
Pesquisas Paleontológicas Llewellyn Ivor Price (Fig.4),
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 411
que possui essa designação em homenagem ao
paleontólogo brasileiro que chefiou as primeiras
expedições na localidade de Peirópolis (entrevista
com Luiz Carlos Borges Ribeiro, 07/02/2006,
informação pessoal).
Dentro do Centro de Pesquisas Paleontológicas
Llewellyn Ivor Price funciona o Museu dos
Dinossauros, criado para mostrar e divulgar ao
público de uma forma clara e dinâmica os
importantes achados fósseis da região. O museu
apresenta atualmente um acervo de mais de 1.500
fósseis (Fig.5-6).
Fig.o- Museu dos Dinossauros
de Peirópolis — Uberaba (MG).
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Fig.6- Visão interna do Museu
dos Dinossauros de Peirópolis,
destacando-se o crocodilo
Uberabasuchus terrificus e o
diorama de um titanossauro.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
412 W.F.S.SANTOS & I.S.CARVALHO
A instituição Centro de Pesquisas Paleontológicas
Llewellyn Ivor Price também possui equipes de
escavação fossilifera, com coletas sistemáticas anuais
por seis meses, únicas neste gênero no país (Figs.7-8).
O Centro de Pesquisas reúne pesquisadores em
torno dos achados da região e está instalado no
prédio da antiga estação ferroviária, preservando
suas características arquitetônicas originais, em
Fig.8- Equipe de escavação
do Centro de Pesquisas
Paleontológicas Llewellyn Ivor
Price na serra do Veadinho —
Formação Marília (Membro
Serra da Galga).
estilo inglês, abrigando, como dito anteriormente,
o Museu dos Dinossauros, e também, um
alojamento para pesquisadores e um laboratório
de preparação de fósseis (Figs.9-10). Essa nova
instituição logo conquistou o interesse dos
munícipes e passou a ser inserida como um dos
patrimônios culturais de Uberaba e de Minas Gerais
(JORNAL INFORMATIVO DE PEIRÓPOLIS, 2005).
Fig.7- Grupo de estudantes em
treinamento no afloramento da
serra do Veadinho - Formação
Marília (Membro Serra da Galga).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 413
Fig.9- Alojamento para pesquisadores no Centro de Pesquisas Paleontológicas Llewellyn Ivor Price, em Peirópolis.
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Fig. 10- Laboratório de preparação de fósseis situado no Centro de Pesquisas Paleontológicas Llewellyn Ivor Price, em Peirópolis.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
414 W.F.S.SANTOS & I.S.CARVALHO
AspEcTOS GEOLÓGICOS E PALEONTOLÓGICOS DE PEIRÓPOLIS
Peirópolis é uma comunidade rural situada no
Triângulo Mineiro sobre rochas depositadas há
aproximadamente 70-80 milhões de anos
(Cretáceo Superior). Essas rochas são
pertencentes à Bacia Bauru (localizada na parte
sudoeste do Brasil, atingindo os estados do
Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato
Grosso do Sul), mais precisamente ao Grupo
Bauru, que possui unidades litoestratigráficas
diferenciadas (Fig.11). Segundo BarceLOS (1984),
o Grupo Bauru no Triângulo Mineiro inicia-se com
a Formação Uberaba (restrita ao Triângulo
Mineiro). Sobreposta a essa unidade
litoestratigráfica, em contato gradacional,
interdigitado ou erosivo, encontra-se a Formação
Marília, que se divide em Membro Ponte Alta e
Membro Serra da Galga.
As rochas da Bacia Bauru foram depositadas em
uma depressão superficial cuja origem está
associada à carga dos derrames vulcânicos
eocretácicos da Formação Serra Geral, último
espisódio de subsidência da Bacia do Paraná
(FERNANDES, 1998). Segundo BarceLOS (1984), O
embasamento da Bacia Bauru, na região do
Triângulo Mineiro é representado pelos derrames
basálticos da Formação Serra Geral.
Segundo FERNANDES & ColMBRA (1996, 1999), as
rochas do Grupo Bauru foram depositadas sob
um clima semi-árido a árido, em ambientes
fluviais e de leques aluviais. A região do
Triângulo Mineiro foi caracterizada por marcada
sazonalidade climática, na qual longos períodos
de seca alternavam-se com períodos de chuva
intensa. Esta sazonalidade influenciou não
somente os processos sedimentares, mas
também os ciclos de vida, com a expansão e
retração de lagos (FERNANDES, 1998; GOLDBERG &
Garcia, 2000). Esta sazonalidade climática
ocasionava a morte de grande número de
espécimes da fauna e flora, resultando em
verdadeiras catástrofes ecológicas. Segundo
FERNANDES (1998), no final do Cretáceo existiam
condições mais favoráveis à vida no Triângulo
Mineiro; cxatamente-cm. Peirópolis=e no
noroeste paulista, destacando-se São José do
Rio Preto, devido à presença de maior quantidade
de água em relação aos compartimentos mais
interiores da bacia.
A paleofauna no município de Uberaba abrange
diferenciados microfósseis de água doce, algas,
conchostráceos, ostracodes, carófitas, biválvios
e gastrópodes (Fig. 12).
Foram descobertos também ovos e fragmentos
de cascas de ovos de dinossauros (Fig.13)
(MezzaLirRA, 1989; CAMPANHA et al., 1992, 1993;
GarriDO et al., 1992). Encontram-se também
fragmentos vegetais que constituem a paleoflora
(Fig.14) (SENRA & SILVA, 1998) e icnofósseis,
representados por tubos e coprólitos. Esses
registros fossilíferos estão concentrados
principalmente no Membro Serra da Galga da
Formação Marília.
Contudo, os fósseis de crocodilos, tartarugas e,
principalmente, dinossauros são os que possuem
maior destaque nos meios de comunicação,
projetando o bairro de Peirópolis no cenário
internacional e acarretando o aumento do
número de turistas com o objetivo de conhecer
os diferentes achados da região. O sítio
paleontológico de Peirópolis é reconhecido pela
comunidade científica, como o centro mais rico
em fósseis de dinossauros do Brasil, e o segundo
da América do Sul, superado apenas pela região
patagônica, na Argentina.
Dentre os fósseis de dinossauros encontrados no
sítio paleontológico de Peirópolis destacam-se as
centenas de ossos de titanossauros, o maior e
mais representativo grupo de dinossauros da
América do Sul. Eram grandes herbívoros
quadrúpedes, com pescoço e cauda longos.
Alcançavam em média 15m de comprimento, 5m
de altura e pesavam aproximadamente 15
toneladas (Figs.15-16).
O crocodilo Uberabasuchus terriíficus (CARvALHO et
al., 2005) é um Crocodilomorpha encontrado em
Peirópolis, com 70% do esqueleto inteiramente
preservado. Estima-se, que o animal atingia
aproximadamente 3m de comprimento e pesava
cerca de 300kg, encaixando-se no topo da cadeia
alimentar (Fig. 1'7).
Outro achado relevante para o local é a tartaruga
Cambaremys langertoni (França & LANGER, 2005).
Trata-se do fóssil mais completo de tartaruga
descoberto em 14 anos de pesquisas em
Peirópolis (Fig. 18). O fóssil é importante porque,
além da carapaça quase completa, foram
preservados os membros anteriores e
posteriores, permitindo o estudo de importantes
aspectos de sua vida e ajudando a compreender
a evolução do grupo ao longo do tempo geológico
(FRANÇA & LANGER, 2005).
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A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 415
BACIA BAURU
LEGENDA
Sedimentos quaternários
GRUPO BAURU
Fm. Marilia
Fm. Uberaba
GRUPO CAIUÁ
Fm. Santo Anastácio
Fm. Rio Paraná
Fm. Goio Erê
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Fig.11- Mapa geológico da Bacia Bauru (FERNANDES, 1998).
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416 W.F.S.SANTOS & I.S.CARVALHO
Fig.12- Microfósseis existentes nas formações rochosas do Triângulo Mineiro em Uberaba (MG). (A) Girogonite de alga
carófita. (B) Ostracode (Dias-Briro ET AL., 2001).
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Fig.13- Diorama que apresenta os ovos de dinossauros encontrados na região de Uberaba e expostos no Museu dos
Dinossauros de Peirópolis.
PERFIL DOS TURISTAS
A partir da análise do livro de entrada do Museu
dos Dinossauros, constatamos que este atraiu a
visitação de aproximadamente 225.000 turistas,
desde 7/7/1992, oriundos de 1.198 cidades e 40
países. O museu já recebeu pessoas de diferentes
estados brasileiros e países, porém percebeu-se
nitidamente, que a maioria dos turistas são
estudantes do ensino fundamental, médio e
superior de diferentes instituições de todo o Brasil.
Os estados que mais visitaram o Museu dos
Dinossauros, com exceção de Minas Gerais, são: Rio
de Janeiro, São Paulo, Goiás, Brasília e Paraná. Os
visitantes estrangeiros que mais o visitaram são
oriundos dos Estados Unidos, Argentina e Inglaterra.
No entanto, esses dados são parciais, pois nem todos
os visitantes assinam o livro de entrada.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 417
Fig.15- Diorama que apresenta
uma réplica de titanossauro
exposta no Museu dos
Dinossauros, Peirópolis.
Dentre as escolas, podemos destacar as escolas
municipais de Uberaba, COC/Anglo Ituiutaba,
Objetivo Araguari, Objetivo Uberlândia e o
Colégio Fonseca Rodrigues, de Patos de Minas.
Dentre as Universidades, destacamos a UNITRI
de Uberlândia; ULBRA de Itumbiara (GO); UFU
de Uberlândia; UNIFRAN de Franca (SP);
CESUBE de Uberaba; e UNIUBE também de
Uberaba.
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Fig.14- Troncos de árvores
permineralizados do Triângulo
Mineiro expostos no Museu dos
Dinossauros, Peirópolis.
Em Peirópolis, ocorrem alguns eventos com
finalidade exclusivamente educacional. Dentre
os eventos que acontecem anualmente, podemos
destacar a Semana dos Dinossauros. A 13º edição
deste evento, ocorrido no Centro de Pesquisas
Paleontológicas Llewellyn Ivor Price, entre os dias
03 e 07 de Outubro de 2005, atraiu a presença
de 6.283 visitantes de 93 escolas, oriundos de
três estados brasileiros e 19 cidades.
418 W.F.S.SANTOS & [.S.CARVALHO
Fig.1l7- Fóssil do crocodilo
Uberabasuchus terrificus no
momento da escavação.
Atualmente encontra-se exposto
no Museu dos Dinossauros,
Peirópolis.
PERFIL DOS ENTREVISTADOS
A análise do perfil dos entrevistados é essencial para
melhor caracterização dos aspectos
socioeconômicos da localidade. Nesse contexto,
elaborou-se um questionário para obtenção das
características pessoais dos conhecedores de
Peirópolis cujos itens estão expostos na tabela 1.
Fig.16- Réplica de um
titanossauro no jardim do Museu
dos Dinossauros de Peirópolis.
Os questionamentos da pesquisa realizaram-se
durante o trabalho de campo, no período 7 a 14 de
fevereiro de 2006. Foram escolhidas 100 pessoas
que possuem relações com o local (moradia ou
vivência), sendo 53% do sexo masculino e 47% do
sexo feminino. A faixa etária desses indivíduos
variou entre 16 anos e 80 anos. O gráfico 1 mostra
a porcentagem da média de idade dos entrevistados.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 419
Fig.18- Fóssil da tartaruga
Cambaremys langertoni exposta
no Museu dos Dinossauros,
Peirópolis.
TABELA 1. Itens do questionário que buscam o conhecimento das características pessoais dos conhecedores de Peirópolis.
DADOS PESSOAIS DOS CONHECEDORES DE PEIRÓPOLIS
A NOME:
B IDADE:
CSEXO: (M) (FP)
D ESCOLARIDADE:
E NATURALIDADE:
F LOCAL DE RESIDÊNCIA:
G FAIXA SALARIAL:
H RESIDE EM PEIRÓPOLIS HÁ QUANTO TEMPO:
Na análise do gráfico 1 observa-se um certo
equilíbrio de entrevistas entre as pessoas de idades
de 16 a 55 anos. Não podemos descartar também a
participação, muito especial, das pessoas entre 56
e 80 anos de idade, que geralmente são residentes
por muito tempo em Peirópolis. Assim, foi uma
amostragem populacional diversificada, que
possibilitou a opinião de pessoas com diferentes
estilos de vida e experiências pessoais sobre o
espaço geográfico de Peirópolis.
Para termos uma boa caracterização do perfil
existente na comunidade de Peirópolis, torna-se de
extrema necessidade, o conhecimento acerca do
grau de escolaridade desta. Nesse sentido, o gráfico
2 tem por objetivo mostrar o nível de instrução
escolar dos entrevistados.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
O gráfico 2 nos mostra que 30% dos entrevistados
possuem o ensino médio completo. No entanto, 19%
não terminaram o ensino fundamental, o que pode
estar associado, entre outras questões, à
característica da comunidade de possuir sua
economia baseada nas práticas rurais. Muitos, para
dedicarem-se na lida com as lavouras e criação de
gado e aves, abdicaram dos estudos e, geralmente,
estas são as pessoas mais velhas da comunidade.
O que se destacou na pesquisa foi a grande
quantidade de entrevistados que estão cursando
ou já terminaram o ensino superior, além de
pessoas que possuem algum tipo de pós-graduação.
Juntando-se esses três tópicos, vemos que 32% dos
entrevistados possuem nível de instrução alta, se
comparados com outras regiões do país.
420
W.F.S.SANTOS & I.S.CARVALHO
Amostra total: 100 entrevistados
16 - 25 anos
SA 26 - 35 anos
36 - 45 anos
À | 46-55 anos
[M 56 - 65 anos
66 - 75 anos
76 - 80 anos
Gráfico 1. Faixa etária dos entrevistados em Peirópolis (07/02/06 a 14/02/06).
1%
»
»
k
é;
A
BEN
EE
Amostra total: 100 entrevistados
Ensino Fundamental incompleto
CEA
24 Ensino Fundamental completo
Ea ! o o
Ensino Médio incompleto
Es] Ensino Médio completo
[MM Superior incompleto
Superior completo
Pós-graduação
Gráfico 2. Nível de escolaridade dos entrevistados em Peirópolis (07/02/06 a 14/02/06).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 421
Outra questão essencial é sabermos a origem dos
conhecedores da localidade de Peirópolis, ou seja,
o conhecimento da naturalidade dos entrevistados.
No gráfico 3 verifica-se que 52% dos entrevistados
nasceram em Uberaba, por ser a localidade mais
próxima à Peirópolis e por possuir hospitais
públicos e privados. Diversas localidades de Minas
Gerais foram citadas, destacando-se, com 11%, a
localidade de Sacramento. Um fato bastante
curioso, e impossível de não ser percebido, é a
presença de 5% dos entrevistados que nasceram
no próprio bairro de Peirópolis através de parteiras,
pois o local não possui um hospital. Tratam-se das
pessoas mais antigas da comunidade.
Um fato também relevante é a presença de 3% dos
entrevistados que são nascidos na cidade de Nova
Ponte. Atualmente esta localidade não existe mais,
devido à construção de uma usina hidrelétrica,
responsável pela inundação do lugar. Temos 10%
das pessoas que nasceram em diferentes
municípios do Estado de São Paulo, além de 4%
dos entrevistados que nasceram em outros estados,
como, por exemplo, Rio de Janeiro e Pernambuco.
A análise da faixa salarial é outro meio importante
de se obter a caracterização dos conhecedores do
lugar. Fica nítido na análise do gráfico 4, que mais
da metade dos entrevistados (54%) ganham entre
um e dois salários mínimos e meio. Mesmo sendo
um valor financeiro baixo, podemos intuir um
equilíbrio entre os salários recebidos. Nesta faixa
salarial destacamos as pessoas que trabalham no
centro de pesquisas, na casa de doces, nas lavouras
e os autônomos. Entre as pessoas que não possuem
renda enfatizamos os estudantes e as donas de casa.
Em relação aos que recebem acima de seis salários,
estão os criadores de avestruz e as pessoas que
possuem escolaridade universitária (odontólogos,
professores universitários, administradores de
empresas, os donos dos estabelecimentos
comerciais e de serviços locais).
Pela análise do gráfico 5, que busca o entendimento
acerca do lugar onde os entrevistados habitam,
percebemos que 78% dos entrevistados residem em
Peirópolis. Observamos no gráfico que uma
expressiva quantidade de pessoas (22%) vivem e
moram em Uberaba e em outras localidades, porém
possuem algum tipo de vínculo, seja este
empregatício, familiar ou afetivo, com o bairro rural
Peirópolis. Todas foram entrevistadas no espaço
físico desta localidade e, neste sentido, podem ser
consideradas conhecedoras do local.
No gráfico 6 procura-se expor o tempo de residência
dos entrevistados na comunidade de Peirópolis.
Desta parte da pesquisa participaram somente as
78 pessoas que residem no local, não considerando
os indivíduos que residem em outras localidades.
Amostra total:100 entrevistados
A
ERA
“4 São Paulo
a
Ma
EN EE
“4 Nova Ponte (MG)
Uberaba
Outras localidades de Minas Gerais
Sacramento (MG)
Peirópolis (MG)
Outros estados brasileiros
Gráfico 3. Naturalidade dos entrevistados em Peirópolis (07/02/06 a 14/02/06).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
422
W.F.S.SANTOS & I.S.CARVALHO
1 salário / 1 salário e meio
2 salários / 2 salários e meio
2] Não recebem salário
RS] Não revelado
IM 3 salários / 3 salários e meio
4 salários / 5 salários
ER e Je
6 salários / 8 salários
9 salários / 10 salários
Amostra total: 100 entrevistados E Acima de 10 salários
Gráfico 4. Faixa salarial dos entrevistados em Peirópolis (07/02/06 a 14/02/06).
Peirópolis
meia]
SA Uberaba
644 Ponte Alta
BS] Araxá
78%
[MT São Paulo
Amostra total: 100 entrevistados
Gráfico 5. Resultado da pesquisa que identifica a residência dos entrevistados (07/02/06 a 14/02/06).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS
423
Até 5 anos
1,70%
SA 6 - 10 anos
3,80% 11-15 anos
15,40% BS] 16-20 anos
21 - 25 anos
15,40% 26 - 30 anos
31-35 anos
36 - 40 anos
70%
? E 41 - 45 anos
46 - 50 anos
Amostra total: 78 entrevistados acima de 50 anos
Gráfico 6. Resultado da pesquisa que identifica o tempo de residência dos entrevistados na comunidade de Peirópolis (07/
02/06 a 14/02/06).
Através de análises do gráfico 6 percebe-se que
38,0% das 78 pessoas que residem em Peirópolis,
num total de 30 entrevistados, deslocaram-se
para a comunidade entre o início do projeto de
construção do Museu dos Dinossauros,
finalização das obras para a instalação deste
objeto geográfico e os dias atuais, ou seja, desde
1991 até a data de realização do trabalho campo
(07/02/06 a 14/02/06). O Centro de Pesquisas
Paleontológicas Llewellyn Ivor Price, onde está
localizado o Museu dos Dinossauros, possui 14
anos de funcionamento. Este resultado pode
estar associado à abertura de novas frentes de
emprego e renda em Peirópolis, pois o Museu
dos Dinossauros é considerado um pólo
atrativo de novas instituições (públicas e
privadas) e estabelecimentos (comerciais e de
serviços), que se fixaram na localidade devido
as possíveis vantagens econômicas do turismo
paleontológico.
Os entrevistados que residem no local entre 16 e
30 anos (32%), totalizando 25 pessoas,
possivelmente deslocaram-se para Peirópolis,
junto com suas famílias, em decorrência,
principalmente, das atividades rurais que são
consideradas a base econômica da comunidade.
Na época, poderiam ser crianças, jovens ou
adultos, além dos descendentes de gerações mais
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
antigas que residem no local. Nesse período, como
visto anteriormente, a mineração estava
tornando-se progressivamente mecanizada, não
contratando muitos funcionários.
O restante dos entrevistados (29,5%) totaliza 23
pessoas que já residem em Peirópolis há mais de
30 anos e podem ter sido atraídas para a localidade,
junto com seus familiares, devido principalmente
aos empregos nas fábricas de extração do calcário
e também pelas atividades rurais.
RESULTADOS
Esta etapa da pesquisa buscou a percepção dos
entrevistados sobre as transformações sociais,
econômicas, ambientais e culturais ocorridas no
espaço geográfico de Peirópolis e, também, sobre
a importância que o Museu dos Dinossauros
representa para o local. Através deste diagnóstico
poderemos desenvolver estratégias de ação que
oportunizem um melhor aproveitamento do
turismo paleontológico na localidade, por meio de
opiniões dos verdadeiros conhecedores das
modificações ocorridas no lugar.
Como mencionado, mediante o questionário
elaborado por meio de pesquisas bibliográficas,
realizaram-se entrevistas com abordagens diretas
424 W.F.S.SANTOS & I.S.CARVALHO
aos conhecedores de Peirópolis (07/02/06 a 14/ perguntas direcionadas aos conhecedores de
02/06). Os resultados serão expostos em tópicos, Peirópolis. Os itens desta etapa da entrevista estão
apresentados individualmente, contendo as inseridos na tabela 2.
TABELA 2 Questionário que busca a percepção dos conhecedores de Peirópolis das transformações sociais, econômicas,
ambientais e culturais da localidade, bem como, da consciência da preservação do patrimônio local.
ROTEIRO DE ENTREVISTAS COM OS CONHECEDORES DE PEIRÓPOLIS
1 O QUE É UM FÓSSIL?
2 VOCÊ CONHECE O MUSEU DOS DINOSSAUROS? SIM ( ) OU NÃO ( )
3 VOCÊ JÁ FOI AO MUSEU DOS DINOSSAUROS? SIM ( ) OU NÃO ()
4 O QUE MAIS LHE AGRADOU NO MUSEU DOS DINOSSAUROS?
5 O QUE MENOS LHE AGRADOU NO MUSEU DOS DINOSSAUROS?
6 O QUE PRECISA SER FEITO PARA MELHORAR O MUSEU DOS DINOSSAUROS?
7 QUAL A MAIOR IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS?
8 A COMUNIDADE DE PEIRÓPOLIS POSSUI IMPORTÂNCIA NA PRESERVAÇÃO DO MUSEU DOS DINOSSAUROS E
DOS FÓSSEIS? SIM ( ) OU NÃO ( )
9 COMO VOCÊ PODE CONTRIBUIR PARA A PRESERVAÇÃO DO MUSEU DOS DINOSSAUROS E DOS FÓSSEIS?
10 O FLUXO DE TURISTAS AUMENTOU COM A CRIAÇÃO DO MUSEU DOS DINOSSAUROS? SIM ( ) OU NÃO ()
11 VOCÊ CONSIDERA O TURISMO PALEONTOLÓGICO COMO A PRINCIPAL ATIVIDADE ECONÔMICA DE PEIRÓPOLIS?
SIM ( ) OU NÃO ( )
12 ALÉM DO TURISMO PALEONTOLÓGICO VOCÊ ACREDITA QUE EXISTAM OUTRAS ATIVIDADES ECONÔMICAS
IMPORTANTES PARA O DESENVOLVIMENTO DE PEIRÓPOLIS? SIM ( ) OU NÃO ( )
SE SIM QUAIS SÃO AS OUTRAS ATIVIDADES ECONÔMICAS QUE VOCÊ CONSIDERA IMPORTANTE PARA O
DESENVOLVIMENTO DE PEIRÓPOLIS? VOCÊ ACREDITA NUMA FUTURA INTER-RELAÇÃO ENTRE O TURISMO
PALEONTOLÓGICO E A PRODUÇÃO RURAL NA LOCALIDADE?
13 O CRESCIMENTO DO TURISMO PALEONTOLÓGICO ACARRETA UMA MELHOR DISTRIBUIÇÃO DE RENDA EM
PEIRÓPOLIS? SIM ( ) OU NÃO ( |) E POR QUE?
14 VOCÊ ESTÁ SENDO BENEFICIADO ECONOMICAMENTE PELA PRÁTICA DO TURISMO PALEONTOLÓGICO EM
PEIRÓPOLIS? SIM ( ) OU NÃO ( |) E DE QUE MANEIRA VOCÊ ESTÁ SENDO BENEFICIADO?
15 COM A IMPLEMENTAÇÃO DO MUSEU DOS DINOSSAUROS OCORREU UM AUMENTO NO NÚMERO DE
EMPREGOS EM PEIRÓPOLIS? SIM ( |) OU NÃO ()
SE SIM QUAIS SÃO OS ESTABELECIMENTOS LOCAIS QUE MAIS EMPREGAM FUNCIONÁRIOS DE PEIRÓPOLIS?
16 A POPULAÇÃO DE PEIRÓPOLIS ESTÁ SENDO ENVOLVIDA NO PLANEJAMENTO TURÍSTICO LOCAL?
SIM ( ) OU NÃO ( ) E DE QUE FORMA?
17 COM A CRIAÇÃO DO MUSEU DOS DINOSSAUROS OCORRERAM MELHORIAS NA INFRA-ESTRUTURA LOCAL?
SIM ( ) OU NÃO ( )
SE SIM O QUE MELHOROU EM INFRA-ESTRUTURA BÁSICA EM PEIRÓPOLIS APÓS A CRIAÇÃO DO MUSEU DOS
DINOSSAUROS?
18 O QUE PRECISA MELHORAR EM INFRA-ESTRUTURA BÁSICA NA COMUNIDADE DE PEIRÓPOLIS?
19 VOCÊ ACHA QUE COM A CRIAÇÃO DO MUSEU DOS DINOSSAUROS A QUALIDADE DE VIDA DA POPULAÇÃO DE
PEIRÓPOLIS MELHOROU? SIM ( ) OU NÃO ( ) E POR QUE?
20 VOCÊ ACHA QUE O AUMENTO DO TURISMO PALEONTOLÓGICO ESTÁ ACARRETANDO ALGUM TIPO DE
DEGRADAÇÃO NO ESPAÇO FÍSICO DE PEIRÓPOLIS? SIM ( ) OU NÃO ()
SE SIM QUAIS SÃO OS TIPOS DE DEGRADAÇÕES CAUSADAS PELOS TURISTAS NA LOCALIDADE DE PEIRÓPOLIS?
21 VOCÊ ACHA QUE O AUMENTO DO TURISMO PALEONTOLÓGICO GERA IMPACTOS NEGATIVOS NA CULTURA
LOCAL? SIM ( ) OU NÃO ( ) E POR QUE?
PERGUNTAS DIRECIONADAS EXCLUSIVAMENTE
AOS RESPONSÁVEIS PELOS ESTABELECIMENTOS PÚBLICOS E PRIVADOS DE PEIRÓPOLIS
22 QUAL O ANO DE CONSTRUÇÃO DESTE ESTABELECIMENTO?
23 QUANTOS FUNCIONÁRIOS TRABALHAM NESTE ESTABELECIMENTO?
24 DESSES FUNCIONÁRIOS QUANTOS RESIDEM EM PEIRÓPOLIS E QUANTOS SÃO DE OUTRAS LOCALIDADES?
25 O MUSEU DOS DINOSSAUROS TEVE ALGUMA INFLUÊNCIA NA CONSTRUÇÃO DESTE ESTABELECIMENTO?
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 425
IMPORTÂNCIA DA COMUNIDADE NA PRESERVAÇÃO DO MUSEU
DOS DINOSSAUROS E DOS FÓSSEIS
Inicialmente, avaliar-se-á a consciência local sobre a
preservação do patrimônio. Qual a importância que
o Museu dos Dinossauros representa para Peirópolis
e, como o conhecedor do lugar poderia ajudar na
preservação dos acervos fossiliferos? São algumas das
abordagens que veremos nos tópicos a seguir.
1. O que é um fóssil?
Neste tópico, buscou-se que os entrevistados
externassem seu entendimento sobre o que é um
fóssil, pois este é o objeto de interesse para o
turismo paleontológico em Peirópolis. Então, torna-
se necessário o entendimento deste conceito por
parte dos conhecedores de Peirópolis.
Nesse questionamento, percebemos que muitas
pessoas não entendem de maneira correta o
conceito de fóssil, porém o associam, na maioria
das vezes, aos materiais existentes no Museu dos
Dinossauros. As respostas foram muito
generalizadas, porém podemos agrupá-las, para
uma compreensão global do nível de entendimento
que os entrevistados possuem sobre este conceito.
Ao se observar o gráfico 7 verifica-se que 22% dos
entrevistados acreditam que um fóssil seja um osso
de dinossauro. Apesar do pouco conhecimento dos
entrevistados sobre o significado de um fóssil, fica
claro que a entidade “dinossauro” é sinônimo para
este conceito.
A maior parte dos entrevistados (32%) associaram
um fóssil somente a ossos de animais pré-
históricos, que ficaram preservados nas rochas, na
qual a parte orgânica foi substituída pelo mineral
(calcário), ou seja, acreditam que os ossos sofreram
mineralização.
Outros entrevistados foram enfáticos e explanaram
que além dos ossos mineralizados existem também
os dentes de vários vertebrados, considerados aqui
como restos de animais (19%). Um número expressivo
de pessoas (12%) acredita que os fósseis sejam restos
de animais e vegetais que ficaram preservados nas
rochas e, entre os vegetais, eles citam os troncos de
árvores permineralizados do Triângulo Mineiro, que
também estão em exposição no museu.
Apenas 5% dos entrevistados deixaram claro que
fósseis são restos de animais e vegetais, além dos
vestígios deixados por esses seres vivos durante o
tempo de vida (icnofósseis), como por exemplo, os
coprólitos (fezes fossilizadas dos dinossauros) e os
ovos de dinossauros. Nenhum dos entrevistados
comentou acerca das pegadas de dinossauros,
comprovando, dessa forma, que eles associam os
fósseis com os materiais existentes no Museu dos
Dinossauros.
>
cd
É
Amostra total: 100 entrevistados
32%
Ossos mineralizados /
petrificados
= Ossos de dinossauros
[ea
AA 1 1
5) Restos de animais
Es] Restos de animais e vegetais
[MM Restos de animais, vegetais
e seus vestígios
Ossos de vertebrados
Outros
Não sei
Gráfico 7. Conceito de fóssil para os entrevistados em Peirópolis (07/02/06 a 14/02/06).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
426 W.F.S.SANTOS & I.S.CARVALHO
Uma parcela de 5% dos entrevistados considera que
os fósseis são somente os ossos de vertebrados, como
os de crocodilo, tartaruga e o próprio dinossauro,
mas não comentaram sobre a mineralização desses
ossos. Os entrevistados não comentaram, durante
a pesquisa, da existência de outros fósseis, como os
gastrópodes, ostracodes, carófitas e conchostráceos,
o que manifesta o pouco interesse e ou
desconhecimento acerca de materiais não abordados
ou enfatizados no Museu dos Dinossauros.
2. Você já foi ao Museu dos Dinossauros?
Dentre os entrevistados, todos conhecem o Museu
dos Dinossauros, no entanto, na análise do gráfico
8, observa-se que a grande maioria (94%) já o
visitou, demonstrando a importância deste objeto
geográfico para a comunidade.
3. O que mais lhe agradou no Museu dos
Dinossauros?
O gráfico 9 reflete a percepção dos conhecedores de
Peirópolis sobre o que mais gostaram, tanto na
estrutura interna ou externa ao Museu dos
Dinossauros. Nesse questionamento, os entrevistados
só poderiam citar uma opinião referente ao que
mais os interessou no museu. Tivemos 6% dos
entrevistados que não participaram desta parte da
pesquisa, porque ainda não visitaram o museu.
No tópico Fósseis, do gráfico 9, com 27% das
indicações, foram agrupadas as opiniões dos
entrevistados que acreditam na grande valorização
da comunidade de Peirópolis, através da exposição
focada principalmente, nos próprios achados fósseis
da região de Uberaba. Destes entrevistados, quinze
pessoas citaram o crocodilo Uberabasuchus ternficus
como o material fossilifero mais interessante no
museu, devido seu esqueleto estar bastante
preservado e, também, por ser considerado um
animal que em sua época de vida estava no topo da
cadeia alimentar. Um total de sete pessoas citou a
tartaruga Cambaremys langertoni, pelo fato de ser
um animal tão pequeno, que viveu há milhões de
anos, junto a grandes predadores. Um fêmur do
titanossauro foi também considerado relevante por
cinco pessoas, devido a sua grandiosidade,
demonstrando o quão representativos eram esses
animais no passado geológico da Terra.
A reforma realizada no Museu dos Dinossauros no
ano de 2005 foi bastante comentada pelos
entrevistados, tendo 21% das indicações. Eles
enfatizaram a beleza das pinturas existentes no
interior do museu, na qual retratam o paleoambiente
dos seres que viveram há aproximadamente 70
milhões de anos. As réplicas do titanossauro
encontradas no interior e no jardim do Museu dos
Dinossauros destacaram-se como outra questão
positiva ressaltada por 13% dos entrevistados.
94%
Amostra total: 100 entrevistados
SASA
ERA
Gráfico 8. Porcentagem de entrevistados que já visitaram o Museu dos Dinossauros de Peirópolis (07/02/06 a 14/02/06).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 4277
Um total de 13% das pessoas mencionou o
profissionalismo existente no Museu dos
Dinossauros como a principal característica positiva
do espaço. Em meio a esse tópico foi aludida a ótima
recepção dos funcionários que trabalham no local,
a organização existente na exposição e o difícil
trabalho de preparação dos fósseis.
O estudo que resgata as características, os hábitos
e o paleoambiente de vida dos vertebrados também foi
mencionado por 8% dos entrevistados. Há perplexidade
com o conhecimento dos geólogos e paleontólogos em
reconstituir, de forma muito interessante, a maneira
como os animais pré-históricos viveram.
Uma pequena quantidade dos entrevistados,
chegando a 7% das indicações, crê que tudo o que
se refere ao Museu dos Dinossauros é extremamente
interessante e importante. Os ovos de dinossauro
também foram lembrados, com 5% de citações, pois
são materiais raros, que nos mostram a forma como
esses seres se reproduziam no passado geológico.
4. O que menos lhe agradou no Museu dos
Dinossauros?
O gráfico 10 mostra a opinião dos entrevistados
sobre o que não gostaram ou não acharam
interessante no Museu dos Dinossauros. O que
chama bastante atenção é a presença de 39% das
pessoas acreditando que este objeto geográfico está
perfeito e que nada precisa ser modificado. Essa é
uma questão importante, mostrando a aceitação
que o museu possui na comunidade, na qual a
população confia na percepção de que não existe
efeito negativo no espaço físico do local.
O tema estrutura do museu é bastante amplo,
abrangendo a opinião de 37% dos entrevistados, sobre
os efeitos negativos encontrados na estrutura do local.
Um assunto lembrado por dezesseis entrevistados
foi a falta de iluminação e, principalmente, de
ventilação dentro do museu. Um total de sete
entrevistados mencionou a falta de estruturação do
Centro de Pesquisas Paleontológicas Llewellyn Ivor
Price para atender ao turismo paleontológico como
um efeito negativo e cinco pessoas comentaram da
necessidade de estruturação do Museu dos
Dinossauros para atender aos deficientes físicos e
visuais. Cinco entrevistados citaram a carência de
guias e monitores especializados, como um efeito
adverso ao desenvolvimento do turismo paleontológico
no local e, quatro pessoas falaram da falta de espaço
interno no Museu dos Dinossauros para expor novos
fósseis e para o deslocamento dos visitantes.
A cobrança do ingresso para se ter acesso ao Museu
dos Dinossauros não agrada 6% dos entrevistados.
Consideram que os fósseis são patrimônios naturais,
que pertencem & tregião de Uberaba e
consequentemente Peirópolis. Nestes entrevistados
há o sentimento de serem impedidos de visitarem o
seu próprio patrimônio.
Amostra total: 100 entrevistados
Fósseis
Reforma do Museu dos
Dinossauros |
Réplicas do Titanossauro
SATA
ERA
ZA
Sa
o
o
Profissionalismo
E
ÉS
Estudos do Paleoambiente
Tudo
Não opinaram
a
TS
E EN
Ovos de dinossauros
Gráfico 9. Relação do que mais agradou aos entrevistados no Museu dos Dinossauros de Peirópolis (07/02/06 a 14/02/06).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
428 W.F.S.SANTOS & [.S.CARVALHO
Uma situação inesperada foi que 4% dos
entrevistados lembraram da tartaruga
(Cambaremys langertoni) como um efeito negativo
no museu. Quando perguntados sobre o porque
da inclusão deste fóssil como um efeito negativo,
alegaram que era pelo motivo de a tartaruga não
se tratar de um dinossauro
Como dito anteriormente, 6% dos entrevistados
não opinaram, porque ainda não visitaram o
Museu dos Dinossauros. Um total de 8% dos
entrevistados teve opiniões diferenciadas da
maioria das pessoas e, com isso, iremos
enfatizar algumas dessas opiniões. Como efeito
negativo no museu, duas pessoas comentaram
a pouca visibilidade das ferramentas de
Llewellyn Ivor Price, que é o pioneiro dos
estudos paleontológicos da região, e seis
pessoas mencionaram a falta de atenção do
poder público para com o local.
5. O que precisa ser feito para melhorar o Museu
dos Dinossauros?
No gráfico 11, buscou-se especificar as opiniões
de cada entrevistado, fora os que ainda não
visitaram o Museu dos Dinossauros, sobre
melhorias que possam ser realizadas no local,
para que os efeitos negativos possam
desaparecer e permanecer somente os positivos.
Essa questão funcionou também, como uma
maneira de estimular aqueles que não vêem
efeitos negativos no museu, a darem uma opinião
própria sobre o que pode ser melhorado.
Com 53% das indicações, a melhoria na estrutura
do Museu dos Dinossauros foi a mais comentada,
como sendo de extrema necessidade. Muitas
pessoas que não acharam efeitos negativos no
museu concordaram que o que precisa ser
melhorado é a estrutura física do local. Dentro
deste tópico, os entrevistados comentaram
diferentes melhorias que possam ocorrer no local,
que serão indicadas a seguir.
Um total de dezesseis pessoas sugeriu a
ampliação da parte de exposição do Museu dos
Dinossauros e de deslocamento dos visitantes
como um futuro efeito positivo. Eles confiam
numa abundância de fósseis existentes na
região, o que acarretará um futuro aumento
dos acervos fossilíferos. Com isso, não terá
espaço para expor os novos materiais
encontrados, no atual museu. Percebemos que
algumas pessoas que não notam efeitos
negativos no Museu dos Dinossauros
consideraram a ampliação do espaço interno do
museu como um tipo de melhoria.
37%
Amostra total: 100 entrevistados
Nada
Roi
24 Estrutura do Museu dos
Dinossauros
>] Outros
Não opinaram
Pagamento de ingresso
Fósseis
Gráfico 10. Fatores que menos agradaram aos entrevistados que conhecem o Museu dos Dinossauros de Peirópolis
(07/02/06 a 14/02/06).
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A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 429
Outro aspecto considerado relevante, é a presença
de dezesseis entrevistados acreditando que estrutura
do Museu dos Dinossauros necessita de reformas.
Estas pessoas crêem que a falta de iluminação e
ventilação no espaço interno do museu dificulta a
permanência do público no local, pois é considerado
abafado e escuro. Então, aconselharam a instalação
de um sistema de ar refrigerado e de uma
iluminação adequada, para que o público tenha mais
conforto durante a visita e possa ter calma para
apreciar os fósseis.
A situação da estruturação do Centro de Pesquisas
Paleontológicas Llewellyn Ivor Price para atender ao
Turismo Paleontológico, segundo dez entrevistados,
precisa melhorar urgentemente. Essa parcela reclama
da falta de uma biblioteca equipada, de banheiros
públicos, de lanchonetes e de áreas de lazer para
atender as necessidades dos visitantes. Além disso,
cinco entrevistados criticaram a estrutura local, pois
os idealizadores não pensaram nos deficientes físicos
e visuais que visitam o Museu dos Dinossauros. Neste
sentido, faltam rampas de acesso ao espaço, além de
uma escrita especial para que os cegos consigam ter
acesso ao que o museu intenciona informar. A
presença de guias e monitores especializados é muito
importante para que os visitantes entendam as
disparidades encontradas entre o tempo geológico e
o Antropológico e, um total de seis pessoas reclama
da falta desse serviço no Museu dos Dinossauros.
O tópico entretenimento abrange 13% das referências
e, segundo os entrevistados, o Museu dos
Dinossauros é carente de formas e meios de manter
a atenção dos visitantes. Eles aconselharam a criação
de aparelhos audiovisuais para instigar a curiosidade
das pessoas, mostrando filmes que abordem o
ambiente de vida e as características dos seres pré-
históricos e, principalmente, dos dinossauros.
Uma forma de valorização da comunidade de
Peirópolis se dá através da divulgação intensa da
região, como também da existência de novos achados
de fósseis. Juntos, esses dois tópicos englobam 15%
das citações sobre possíveis melhorias no museu.
Como vimos anteriormente, a descoberta de fósseis
se deu na década de 1940. Nessa época, não existia
um lugar específico em Peirópolis para manter esses
materiais. Assim, grande parte do acervo fossilífero
foi enviado para museus paleontológicos de todo o
Brasil. Nesse contexto, dentro do tópico encontrar
mais fósseis do gráfico 11, com 8% das citações, um
total de três entrevistados considera como uma
importante melhoria para o Museu dos Dinossauros,
a volta desses achados para o lugar de origem, já
que agora Peirópolis possui um museu de qualidade.
53%
Amostra total: 100 entrevistados
Melhorar a estrutura do museu
Saça
RENA
Mais entretenimento local
2») Encontrar mais fósseis
Rd
DS
Maior divulgação do museu
Verbas públicas e privadas
Não Opinaram
Construir mais réplicas
| *
Ed E E] E
Outros
Gráfico 11. Opinião dos entrevistados sobre possíveis melhorias que possam ser feitas no Museu dos Dinossauros de
Peirópolis (07/02/06 e 14/02/06).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
430 W.F.S.SANTOS & I.S.CARVALHO
Uma forma de melhorar ainda mais o Museu dos
Dinossauros é a existência de um poder público ativo,
que esteja totalmente relacionado com as empresas
privadas para, juntos, conseguirem verbas que ajudem
na preservação deste objeto, dos fósseis e na manutenção
local. Esse tópico recebeu 7% das indicações.
Uma pequena parte dos entrevistados (3%)
considera a existência de réplicas de dinossauros,
como também, dos outros fósseis de vertebrados
existentes há 70-80 milhões de anos na região de
Uberaba, uma forma visual importante para atrair
mais turistas, pois assim, os visitantes podem
perceber o quão grandiosos eram esses animais.
Um número pequeno dos entrevistados, totalizando
3% das indicações, comentou sobre a fachada do
Museu dos Dinossauros. Um total de duas pessoas
considera o local pouco atrativo e ultrapassado. Eles
sugeriram a criação de um novo museu, mais
moderno, que chame mais a atenção dos turistas.
Para essa minoria, o local não tem aspecto de um
centro cultural e de pesquisa. Dentro desses 3% de
entrevistados, uma pessoa está satisfeita com a
fachada do Museu dos Dinossauros e considera
importante a manutenção dessa forma, para
relembrar o passado de Peirópolis.
6. Qual a maior importância do Museu dos
Dinossauros?
No gráfico 12 analisa-se a principal importância
do Museu dos Dinossauros de Peirópolis para os
conhecedores do lugar. Buscamos com essa questão
um maior entendimento sobre a identidade que a
população possui com o espaço museológico. A
grande maioria dos entrevistados, totalizando 60%
das indicações, não vê o Museu dos Dinossauros
como sendo importante somente para a preservação
dos fósseis, eles consideram o museu como uma
forma essencial para a própria existência da
comunidade de Peirópolis.
O bairro de Peirópolis, como dito anteriormente,
estava decadente, desprestigiado e num processo de
degradação socioeconômica. As pessoas migravam
para outras localidades em busca de melhores
condições de vida, e a inauguração do museu, em
julho de 1992, foi um novo alento para a economia
do lugar. Segundo os entrevistados (60%),
aumentando a atividade turística em Peirópolis,
aumenta também, o número de empregos e a renda
local. As pessoas não precisam mais sair da
comunidade para trabalhar em outros lugares, agora
é a comunidade de Peirópolis que atrai a vinda de
pessoas incentivadas pelo aumento do emprego local.
A importância do museu transcende até mesmo a
importância científica e o turismo paleontológico é
uma forma limpa e correta de fazer com que os fósseis
tenham uma utilização positiva para a comunidade.
Amostra total: 100 entrevistados
Atrativo turístico que gera
emprego e renda
7 Divulgação e valorização de
Peirópolis
Pesquisa e difusão do
conhecimento científico
ma] Preservação dos acervos
fossilíferos
Gráfico 12. Opinião dos entrevistados sobre a importância do Museu dos Dinossauros de Peirópolis (07/02/06 a 14/02/06).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 431
A divulgação é a chave do empreendimento e a
comunidade de Peirópolis possui essa noção. Um
total de 18% dos entrevistados acredita que
divulgando a região, como dito anteriormente, o
número de turistas irá aumentar, contribuindo para
o aumento da renda e dos empregos na localidade.
Desse modo, ocorrerá uma imensa valorização da
área, elevando a qualidade de vida dos moradores.
O museu é importante porque atrai estudantes e
cientistas de todo o mundo para a região, além de
difundir o conhecimento científico em diversas escalas
de atuação. Essa é a opinião de 16% dos entrevistados,
que acreditam que a maior importância do museu é
a cultura exercida por esta forma. Esses entrevistados
(16%) crêem, também, que com a inauguração da Rede
Nacional de Pesquisa Científica em Paleontologia, o
número de pesquisadores interessados nos achados
fósseis da região terá uma ascensão, acarretando um
aumento no número de pesquisas, contribuindo para
a propagação do conhecimento geológico e
paleontológico.
Com apenas 6% das indicações, o Museu dos
Dinossauros teve a sua maior importância calcada
na preservação dos acervos fossiliferos, que são
considerados patrimônios culturais, naturais,
científicos e educacionais. Isso mostra que algumas
pessoas estão mais sensíveis à necessidade de
preservação e sabem da importância que os fósseis
possuem para a ciência.
7. A comunidade de Peirópolis possui importância na
preservação do Museu dos Dinossauros e dos fósseis?
No gráfico 13 analisa-se se a comunidade de
Peirópolis considera-se importante na preservação
dos fósseis e do Museu dos Dinossauros. Buscamos
a opinião dos entrevistados, para que eles informem
se a comunidade está tendo participação, que pode
ser tanto direta, quanto indireta, na preservação
do museu e dos fósseis.
A maioria dos entrevistados (82%) acha que a
comunidade possui extrema importância na
preservação do museu e dos fósseis. Eles acreditam
que a população está empenhada na conservação
do local, pois já criaram uma identidade com os
estudos científicos. A comunidade vive em função
do museu, que é considerado a forma de
sobrevivência de muitos dos moradores. Segundo
os entrevistados (82%), se não existisse o museu, a
localidade de Peirópolis já teria desaparecido.
Uma parte dos entrevistados (18%) crê que os
moradores de Peirópolis não contribuem com a
preservação do Museu dos Dinossauros. Para esta
parcela dos entrevistados, a comunidade não possui
a ideologia da preservação. Eles acreditam, que a
população não vai danificar o museu, mas também,
não vão contribuir com a conservação do lugar.
82%
Amostra total: 100 entrevistados
SIM
NÃO
Gráfico 13. Resultado do questionamento que enfatiza se a comunidade participa na preservação dos fósseis e do Museu
dos Dinossauros de Peirópolis (07/02/06 a 14/02/06).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
432 W.F.S.SANTOS & I.S.CARVALHO
8. Como você pode contribuir para a preservação
do Museu dos Dinossauros e dos fósseis?
No gráfico 14 analisa-se de que forma cada um dos
entrevistados pode contribuir para a preservação do
Museu dos Dinossauros e dos fósseis. Buscou-se uma
reflexão dos entrevistados de como podem ajudar o
museu, já que a maioria acredita que a população
possui grande importância na preservação do lugar.
A maioria dos entrevistados (28%) contribuiria com
a preservação do museu, através da divulgação do
local. Eles acreditam que essa é uma forma
essencial para atrair mais interessados nos estudos
fósseis. Dessa forma, o Museu dos Dinossauros se
torna mais conhecido e alguns empresários irão
perceber o quão lucrativo pode ser um investimento
no local. Assim, o museu arrecadará mais verbas,
para poder estar preservando e coletando um maior
número de fósseis.
Uma considerável porcentagem dos entrevistados
(20%) acredita que a melhor forma de contribuição
para a preservação do museu e dos fósseis, se dá
através do respeito às regras impostas pela
instituição. Dentro dessas regras está a não
destruição das passarelas de circulação, na parte
externa do museu; evitar a deterioração do jardim
existente no local e, principalmente, não degradar
as colinas, que são as fontes dos acervos fossilíferos,
ou seja, não degradar o sítio paleontológico.
Uma boa parte dos entrevistados (18%) acredita que
a conscientização de adultos e crianças sobre a grande
importância do museu e dos fósseis é a melhor forma
de preservação. Eles consideram que trabalhando o
conceito de preservação com as crianças, através da
educação básica, é a melhor forma de contribuição.
Já com os adultos, segundo os entrevistados (18%),
na maioria das vezes, por já possuírem uma
identidade com os estudos científicos, estão cientes
da necessidade de preservação, até porque, alguns
dependem financeiramente da prática do turismo
paleontológico.
Alguns entrevistados (10%) consideraram que o
trabalho voluntário no museu é a melhor forma de
contribuição para a conservação do local. Eles
confirmaram que participam dos eventos que
ocorrem no museu, como a Semana dos
Dinossauros, ajudando na limpeza do local, na
arrumação para receber os visitantes, em especial,
as crianças e adolescentes de várias escolas do
Brasil. Também estão dispostos a colaborar em
futuros trabalhos que possam ser realizados. Um
total de 10% dos entrevistados acredita que não
podem contribuir para a conservação do Museu dos
Dinossauros, por não possuírem tempo, ou por não
estarem interessados na preservação do local.
Amostra total: 100 entrevistados
RAÇA
ERA
AA
a
da Ma
Divulgando o museu
Respeitando as regras
Conscientizando adultos e
crianças
Trabalhando voluntariamente
Sem contribuições
Conservando o museu
Coletando fósseis
Gráfico 14. Relação das possíveis contribuições de cada entrevistado para a preservação do Museu dos Dinossauros de
Peirópolis (07/02/06 a 14/02/06).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 433
O tópico que aborda a conservação do museu
abrangeu 8% das citações, porém estes oito
entrevistados são os funcionários do próprio museu,
que estão sempre conservando o local, cumprindo
com suas funções. Já a parte de coleta de fósseis no
sítio paleontológico de Peirópolis, que recebeu 6% de
citações, abrange não só as pessoas que trabalham
no Museu dos Dinossauros (cerca de 15 funcionários),
como também, outros interessados em desempenhar
esta função. As pessoas que aceitam trabalhar
temporariamente nas escavações são financiadas,
porém não são funcionários fixos do museu.
EFEITOS ECONÔMICOS GERADOS NA COMUNIDADE DE PEIRÓPOLIS
ATRAVÉS DO TURISMO PALEONTOLÓGICO
Antes de abordar os efeitos econômicos da prática
do turismo paleontológico em Peirópolis, os
entrevistados foram questionados se o fluxo de
turistas aumentou com a criação do Museu dos
Dinossauros. Todas as pessoas responderam que
o turismo praticamente não existia na localidade
e, somente com a criação do museu é que esta
prática econômica foi estabelecida no local.
1. Você considera o turismo paleontológico como a
principal atividade econômica de Peirópolis?
Esta questão busca analisar o entendimento dos
conhecedores do local sobre a atividade turística em
Peirópolis e, se eles consideram esta prática como a
mais relevante, em termos econômicos, da
comunidade. Esta questão estará explicitada no
gráfico 15.
Com 61% das indicações, o turismo paleontológico
foi considerado como a solução mais viável para o
desenvolvimento socioespacial da localidade. Estas
pessoas sabem do potencial que a comunidade
apresenta, que são os fósseis, e sabem também da
importância que este estudo representa para a difusão
do conhecimento e para o desenvolvimento local.
Já os outros 38% dos entrevistados reconhecem a
influência positiva do turismo paleontológico no local,
porém acreditam que as atividades rurais são as mais
importantes para o desenvolvimento socioespacial de
Peirópolis. Apenas 1% dos entrevistados não
respondeu a esta questão.
2. Além do turismo paleontológico você acredita que
existam outras atividades econômicas importantes
para o desenvolvimento de Peirópolis?
No gráfico 16 buscou-se a percepção dos entrevistados,
se além do turismo paleontológico existem diferentes
atividades econômicas na localidade de Peirópolis,
que também são consideradas importantes para o
desenvolvimento socioespacial do lugar.
61%
Amostra total: 100 entrevistados
Gráfico 15. Resultado da pesquisa que busca saber dos entrevistados se eles consideram o turismo paleontológico como
a principal atividade econômica de Peirópolis (07/02/06 a 14/02/06).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
434 W.F.S.SANTOS & I.S.CARVALHO
Com 84% das indicações, os entrevistados crêem que
existam outras atividades econômicas necessárias
para o desenvolvimento socioespacial local, que são
as atividades rurais. Porém, 13% dos entrevistados
alegam que não estão a par das outras atividades
consideradas como a base econômica para
sustentação da comunidade de Peirópolis. Um total
de 3% dos entrevistados afirmou que o turismo
paleontológico é a única atividade econômica essencial
para o desenvolvimento socioespacial de Peirópolis e
não existem outras atividades econômicas
importantes para o desenvolvimento local.
3. Quais são as outras atividades econômicas que
você considera importante para o desenvolvimento
de Peirópolis? Você acredita numa futura inter-
relação entre o turismo paleontológico e a produção
rural na localidade?
Desta análise da pesquisa participaram os 84% dos
entrevistados que consideram a existência de outras
atividades econômicas importantes para o
desenvolvimento de Peirópolis. Estes entrevistados
(84%) estão cientes das características rurais que
a comunidade possui, além da importância dessas
atividades para o local. Assim, ocorreram 151
citações diferenciadas de tipos de atividades rurais
existentes no espaço físico local, como sendo
importantes para o desenvolvimento de Peirópolis,
por 84 entrevistados.
No gráfico 17 observa-se que dentre as 151 citações
de tipos de atividades rurais em Peirópolis, a
agricultura recebeu 55,6% dessas 151 indicações.
Então, todos os 84 entrevistados consideram a
agricultura como a prática rural mais expressiva
do lugar, abrangendo economicamente uma boa
parte dos moradores de Peirópolis. Atualmente, os
agricultores reclamam demasiadamente do avanço
incontrolável das lavouras de cana-de-açúcar e
estão muito preocupados em perderem a terra para
os fazendeiros que trabalham com essa
monocultura. Segundo os agricultores de Peirópolis,
os plantadores de cana oferecem até três vezes o
valor real do terreno, para poderem adquirir a terra.
Essa fatia da população cobra apoio político para
não ser “obrigada” a vender o “pedaço de chão”.
A pecuária recebeu 37,1% das 151 indicações e é
baseada na utilização do gado para o corte e
produção de leite. A avicultura recebeu 7,3% das
151 indicações e baseia-se na engorda de aves
(galinha caipira) e na criação de avestruz. Analisou-
se com esse resultado que a agricultura é a principal
atividade rural do lugar, seguida da pecuária e, por
último, pela criação de aves .
Todos os 84% dos entrevistados acreditam
numa futura interligação entre o turismo
paleontológico com a produção rural em Peirópolis.
84%
Amostra total: 100 entrevistados
SIM
& NÃO
NÃO SEI
Gráfico 16. Resultado da pesquisa que busca saber dos entrevistados se além do turismo paleontológico existem outras
atividades econômicas importantes para o desenvolvimento de Peirópolis (07/02/06 a 14/02/06).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 435
Nesse sentido, percebemos que o crescimento do
turismo em áreas que possuem a base econômica
calcada no setor primário, como é o caso de Peirópolis,
pode ter o seu impacto mais significativo. Em
Peirópolis, uma grande parte da população vive da
agricultura, pecuária e avicultura, e o possível
envolvimento desse segmento populacional na
indústria do turismo poderá acarretar em acréscimo
na renda familiar bastante grande em termos relativos.
4. O crescimento do turismo paleontológico acarreta
uma melhor distribuição de renda em Peirópolis?
O gráfico 18 indica se o crescimento do turismo
paleontológico em Peirópolis está de alguma forma,
acarretando uma melhor distribuição das riquezas
no bairro, de acordo com a percepção dos
conhecedores do lugar. A imensa maioria dos
entrevistados (82%) confia que em Peirópolis está
ocorrendo uma melhor distribuição da renda devido
a criação do Museu dos Dinossauros, o qual atrai
diversos visitantes para conhecer os achados fósseis
da região. De acordo com esses entrevistados (82%),
o turista, quando chega a Peirópolis, além de apreciar
o museu, vai conhecer a Toca dos Dinossauros
(restaurante) e alguns pernoitam na Colônia dos
Dinossauros (pousada), pois se encantam com o
ambiente agradável do lugar. A maioria deles visita a
casa de doces para adquirir um doce típico da região
e, também, compram lembranças no Dinoshop (loja
de souvenires), localizado no Museu dos Dinossauros.
Porém, segundo esta parcela dos entrevistados (82%),
não são só os setores de comércio e serviços que
ganham com essa prática, mas também toda a
população de Peirópolis, pois aumenta o número de
empregos nestes estabelecimentos, para atender à
demanda turística. Então, todos de alguma forma estão
se beneficiando economicamente com esta prática.
Uma parcela dos entrevistados (18%) acredita que a
renda gerada pela atividade turística em Peirópolis
está concentrada nos empreendedores, ou seja, os que
possuem estabelecimentos comerciais e de serviços.
Eles acreditam que a grande maioria da população
não está sendo beneficiada economicamente por esta
prática, pois não trabalham diretamente com o
turismo, já que a comunidade possui a base
econômica voltada para as atividades rurais.
>. Você está sendo beneficiado economicamente pela
prática do turismo paleontológico em Peirópolis?
No gráfico 19 cada um dos entrevistados foi
questionado se estava sendo beneficiado
economicamente pela prática do turismo
paleontológico. Além desta constatação, buscaremos
entender através de análises qualitativas, de que
maneira, tanto diretamente quanto indiretamente,
algumas destas pessoas estão sendo favorecidas por
esta modalidade econômica.
55,60%
Amostra total: 84 entrevistados e 151 citações
Agricultura
[EA] pis
24 Pecuária
Avicultura
cl di
A
F|
a
Gráfico 17. Resultado da pesquisa que procura saber dos entrevistados quais são as outras atividades econômicas
consideradas importantes para o desenvolvimento de Peirópolis (07/02/06 a 14/02/06).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
436 W.F.S.SANTOS & I[.S.CARVALHO
82%
Amostra total: 100 entrevistados
Gráfico 18. Resultado da pesquisa que busca saber dos entrevistados se está ocorrendo uma distribuição de renda equúitativa
em Peirópolis (07/02/06 a 14/02/06).
Amostra total: 100 entrevistados
Gráfico 19. Resultado da pesquisa que procura saber se os entrevistados estão sendo beneficiados economicamente pela
prática do turismo em Peirópolis (07/02/06 a 14/02/06).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 437
Analisando o gráfico 19 observamos que 53% dos
entrevistados consideram-se como sendo
beneficiados economicamente pela atividade
turística em Peirópolis. Entre estas pessoas, que
estão envolvidas diretamente na prática do turismo,
destacamos aquelas que trabalham no Centro de
Pesquisas Paleontológicas Llewellyn Ivor Price,
desenvolvendo diversos tipos de atividades. Dentre
as ocupações existentes no interior do Centro de
Pesquisas Paleontológicas Llewellyn Ivor Price
destacamos a de serviços gerais, vigia, guia
turístico, servente, auxiliar administrativo, técnico
em contabilidade, preparador de fósseis e na coleta
de fósseis nas escavações. Enfatizamos também,
as pessoas que trabalham na casa de doces e na
Fundação Peirópolis.
Uma boa parte desses 53% dos entrevistados, que
estão envolvidos diretamente com o turismo
paleontológico trabalha, na Toca dos Dinossauros
(restaurante), na Colônia dos Dinossauros
(pousada) e no Jurassic Bar (lanchonete), além dos
representantes destes estabelecimentos. Alguns são
autônomos, por exemplo, os vendedores de côco,
artesanatos, mel e lanches. Os que estão envolvidos
indiretamente são aqueles que possuem familiares
(pai, mãe, irmãos e cônjuges) trabalhando nessas
atividades formais e informais, e que contribuem
na renda familiar.
As pessoas que não têm dependência econômica
pela prática do turismo paleontológico em Peirópolis
(47%) dividem-se naquelas que trabalham na
Escola Municipal Frederico Peirô, os funcionários
do Harambé (comunidade de repouso para idosos),
os agricultores, pecuaristas, avicultores, além dos
autônomos que não possuem vínculos diretos com
o turismo, como os pedreiros, pintores e
carpinteiros. Então, 47% dos entrevistados não se
sentem beneficiados economicamente pela atividade
turística em Peirópolis.
As questões sobre os favorecimentos diretos,
indiretos ou o não beneficiamento dos entrevistados
pela prática turística são complicadas de se analisar
quantitativamente. Um exemplo são as mulheres da
localidade de Peirópolis que trabalham na casa de
doces, que está inserida no interior do Centro de
Pesquisas Paleontológicas Llewellyn Ivor Price, mas
que complementam a renda familiar exercendo
outras funções, como por exemplo, servente,
faxineira, cozinheira e secretária, até mesmo na
Escola Municipal Frederico Peiró que é uma
instituição de ensino público, que não possui
vínculos com o turismo paleontológico. Outro
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
exemplo baseia-se em alguns trabalhadores rurais,
que complementam a renda familiar coletando fósseis
durante a época de poucas chuvas em Uberaba,
exercendo então, uma função que não está
relacionada ao turismo paleontológico e outra com
totais vínculos com esta prática. Neste sentido, torna-
se difícil a interpretação do número exato das pessoas
que estão ou não sendo beneficiadas economicamente
por esta prática. Porém, a porcentagem dos
entrevistados que se sentem ou não beneficiados pelo
turismo paleontológico tornou-se uma maneira mais
correta de analisar esta questão.
Podemos perceber, através desses resultados, que
a maioria dos entrevistados estão sendo
beneficiados, tanto diretamente quanto
indiretamente, pela atividade turística em
Peirópolis. Isso nos mostra que esta modalidade
econômica já abrangeu grande parte da população
local e que esta estimativa só tende a crescer, com
a inserção da comunidade nos projetos turísticos
em desenvolvimento para a região.
6. Com a implementação do Museu dos
Dinossauros ocorreu um aumento no número de
empregos em Peirópolis?
No gráfico 20 analisaremos se os entrevistados
consideram se está ocorrendo um aumento no
número de empregos em Peirópolis alicerçados pela
criação do Museu dos Dinossauros e pelo aumento
do turismo paleontológico.
Percebemos nitidamente, que a imensa maioria dos
entrevistados (88%) concordam, que após a criação
do Museu dos Dinossauros, o número de empregos
para atender à população de Peirópolis cresceu
bastante. Como analisado no decorrer do trabalho,
a comunidade estava em decadência com a migração
de moradores para outras localidades à procura de
empregos, acarretando um quase desaparecimento
do lugar. Segundo os 88% dos entrevistados, o
Museu dos Dinossauros foi o agente catalisador das
ações para agregar outros grupos e outras
instituições no espaço geográfico de Peirópolis.
Um total de 10% dos entrevistados acha que o
emprego em Peirópolis não está aumentando. Eles
alegam que o número de empregos cresceu bastante
durante um certo período, porém atualmente as
pessoas estão procurando emprego na localidade e
não estão encontrando, pois todas as vagas já estão
ocupadas. Eles acreditam que está ocorrendo
estagnação no número de empregos em Peirópolis.
Apenas 2% das pessoas não souberam opinar sobre
essa questão.
438 W.F.S.SANTOS & I.S.CARVALHO
7. Quais são os estabelecimentos locais que mais
empregam funcionários de Peirópolis?
No gráfico 21 analisou-se quais são os
estabelecimentos comerciais e de serviços, além das
instituições públicas, considerados pelos
entrevistados como os que mais empregam
funcionários em Peirópolis. Nessa parte da pesquisa
participaram os 88% dos entrevistados que acreditam
que o número de empregos aumentou após a criação
do Museu dos Dinossauros. Esta questão foi
totalmente aberta e as pessoas puderam citar
diferentes tipos de estabelecimentos em uma só
pergunta. Nesse caso, entre os 88% dos entrevistados
ocorreram 187 citações diferenciadas e, dentro dessas
187 citações, buscaremos analisar quais
estabelecimentos foram mais vezes mencionados.
Dentre as 187 citações de estabelecimentos
comerciais e de serviços, o Museu dos Dinossauros,
que possui 14 anos de existência, recebeu 28,4%
das indicações, e é reconhecido como o que mais
emprega funcionários em Peirópolis. Cerca de 15
funcionários possuem trabalho fixo no museu em
diversas funções e todos residem na comunidade.
Além disso, como visto antes, em época de coleta
de fósseis, trabalhadores temporários são
contratados para ajudarem na escavação.
A Toca dos Dinossauros (restaurante) possui seis
anos de existência e, embora a maioria de seus
funcionários seja de universitários de Ponte Alta e
Uberaba, recebeu 21,4% das 187 indicações. Além
de serviços gastronômicos, ocorrem atividades de
recreação relacionadas ao ecoturismo, tais como
trilha, rapel, caminhadas, trekking e tiroleza. Em
entrevista com José Carlos da Silva, responsável
pelo restaurante, verificou-se que há a contratação
de cerca de 17 funcionários.
O Jurassic Bar (lanchonete) recebeu 9,6% das 187
indicações e, em entrevista com Marcelo Menezes
Resende, responsável pelo estabelecimento
comercial, constatamos que o local contrata apenas
quatro funcionários e todos são de Peirópolis. Este
estabelecimento possui três anos de existência e
foi construído em função do aumento do turismo
no local. A casa de doces, que recebeu 5,9% das
indicações, possui 15 funcionárias e funciona no
espaço do Centro de Pesquisas Paleontológicas
Llewellyn Ivor Price.
A Colônia dos Dinossauros (pousada) possui parceria
com a Toca dos Dinossauros (restaurante), pois os
dois estabelecimentos são administrados por um
mesmo grupo familiar. Esse local oferece o serviço
de hospedagem ao turista e recebeu 5,9% das 187
indicações. Contrata cerca de quatro funcionários e
foi construída exclusivamente para atender ao fluxo
de visitantes possuindo um ano de funcionamento.
88%
Amostra total: 100 entrevistados
SIM
NÃO
NÃO SEI
Gráfico 20. Resultado da pesquisa que busca saber dos entrevistados se está ocorrendo o aumento do número de empregos
em Peirópolis através da criação do Museu dos Dinossauros (07/02/06 a 14/02/06).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS
As atividades rurais, que receberam também 5,9%
das 187 indicações, envolvem a prática da
agricultura (lavouras de milho, arroz, soja, cana),
pecuária e avicultura (engorda de aves e criação de
avestruz), na qual estas atividades são consideradas
a base econômica de Peirópolis. Algumas fazendas
são mantidas por grupos familiares e outras
contratam funcionários da própria comunidade,
como também, de Uberaba e Ponte Alta.
O Harambé é uma comunidade biossocial dedicada
aidosos, que tem por finalidade utilizar a prática dos
valores humanos, oferecendo métodos para elevar o
bem-estar dos aposentados. É um projeto da
Fundação Peirópolis, monitorada pelo Ministério
Público. Neste local existem represas, pomares,
hortaliças e plantas medicinais em parceria com a
Fiocruz. O Harambé recebeu 5,3% das 187 indicações
e, em entrevista com Marília Rocha do Nascimento,
administradora do local, constata-se que o Harambéê
contrata cerca de 20 funcionários, na qual a maioria
pertence a Uberaba, mas também são contratados
residentes de Peirópolis. Os funcionários trabalham
construindo as casas para a moradia dos idosos, no
horto, na manutenção do jardim, além da existência
de faxineiros, cozinheiras e lavadeiras.
A Escola Municipal Frederico Peiró, que recebeu
4,8% das 187 indicações foi criada em 1910, para
ser frequentada pelos filhos dos trabalhadores das
439
duas fábricas de calcário existente no local, pela
população do lugar e das fazendas vizinhas. Em
entrevista com Cristina Maria Borges, diretora da
escola, percebeu-se que esta instituição pública
possui cerca de 200 alunos e instrução até a 8º
série do ensino fundamental. Desses alunos, 40 são
da própria comunidade de Peirópolis. Os
funcionários da instituição totalizam 38 pessoas e
desses 16 são de Peirópolis.
A Rede Nacional de Pesquisa Científica em Paleontologia
recebeu 4,8% das 187 indicações e, como abordado
anteriormente, será um novo centro de pesquisas
paleontológicas. Ainda em construção, emprega cerca
de 15 funcionários até o momento. A maioria desses
trabalhadores é de Uberaba e Ponte Alta.
A Fundação Peirópolis é uma instituição sem fins
lucrativos, religiosos ou políticos, fundada há 10
anos. Trabalha divulgando idéias e ações baseadas
na não violência, ação correta, verdade, paz e o
amor. Possui uma sede em São Paulo e outra em
Peirópolis. Em Peirópolis, segundo Claudete
Mariana Fenerich, administradora do local, esta
instituição contrata sete funcionários, sendo cinco
residentes da própria comunidade. Esta instituição
também está associada ao turismo paleontológico.
O outro estabelecimento citado, com 3,2 % das 187
indicações, é o Posto de Saúde, que contrata apenas
dois funcionários de Peirópolis.
3,20%
4,80%
28,40%
2
Amostra total: 88 entrevistados e 187 citações
Museu dos Dinossauros
Toca dos Dinossauros
Jurassic Bar
Casa de doces
Colônia dos Dinossauros
Atividades rurais
“1 Harambê
Escola Municipal F. Peiró
Rede N. P. C. em Paleontologia
Fundação Peirópolis
Posto de Saúde
Gráfico 21. Relação dos estabelecimentos que os entrevistados consideram que mais empregam funcionários em Peirópolis
(07/02/06 a 14/02/06).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
440 W.F.S.SANTOS & [.S.CARVALHO
Podemos observar que os entrevistados não têm a
percepção correta de quais são os locais públicos
ou privados, que contratam mais funcionários da
própria comunidade. Temos, então, uma
discrepância entre a visibilidade e a verdadeira
empregabilidade existente no lugar.
Como exemplo desta disparidade, citamos a casa
de doces que emprega 15 moradoras do local e só
recebeu 5,9 % das citações. Um segundo exemplo
é a Escola Municipal Frederico Peiró, que recebeu
4,8% das citações e emprega um total de 16
funcionários de Peirópolis. Já a Toca dos
Dinossauros (restaurante) recebeu uma totalidade
de 21,4% das citações e a maioria dos funcionários
não reside no local. As atividades rurais receberam
apenas 5,9% das indicações, porém são a base
econômica da comunidade de Peirópolis.
EFEITOS SOCIAIS GERADOS NA COMUNIDADE DE PEIRÓPOLIS
ATRAVÉS DO TURISMO PALEONTOLÓGICO
Qualquer forma de desenvolvimento de uma localidade
requer um planejamento cuidadoso para que se
possam atingir os objetivos implícitos ou explícitos,
que são a base do desenvolvimento. Além disso, uma
área que possua um determinado atrativo turístico
necessita de uma infra-estrutura básica para atender
a demanda turística, contribuindo também, com a
melhoria da qualidade de vida da população local.
1. A população de Peirópolis está sendo envolvida
no planejamento turístico local?
Geralmente, como vimos anteriormente, uma
comunidade que possui características turísticas,
como é o caso de Peirópolis, necessita ter o total
envolvimento da população no processo de
planejamento turístico, para que os benefícios não
sejam apenas para uma pequena parcela de
empresários que investem no local. No gráfico 22
avaliar-se-á a percepção da população de Peirópolis
como envolvida ou não no desenvolvimento e
gerenciamento do planejamento turístico local.
Verificamos que os conhecedores de Peirópolis
estão divididos. Uma parte dos entrevistados (49%)
acredita que a comunidade está sendo envolvida
no planejamento turístico local. A outra parte (46%)
acredita que as pessoas não estão sendo ouvidas
nesse planejamento. E apenas 5% dos entrevistados
não souberam responder esta questão.
Entre os 49% dos entrevistados, todos acreditam
que a comunidade de Peirópolis está sendo
ouvida, através de reuniões com o poder público.
Consideram que só a partir da atual gestão
política é que houve tal preocupação, para
realização do projeto de planejamento turístico.
Amostra total: 100 entrevistados
49%
SIM
GS NÃO
4 NÃO SEI
Gráfico 22. Resultado da pesquisa que procura saber dos entrevistados se a população de Peirópolis está sendo envolvida
no planejamento turístico local (07/02/06 a 14/02/06).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 441
Esta parte dos entrevistados sabe do treinamento
que está ocorrendo para a capacitação das pessoas,
mas comentaram que existem indivíduos que não
estão interessados em participar. Eles afirmaram
também, que a comunidade ainda não está
preparada para receber os visitantes.
Os outros 46% dos entrevistados acreditam que os
projetos de planejamento turístico já chegam prontos
para a comunidade, e os representantes do poder
público não perguntam a opinião dos moradores. Eles
acreditam que o poder público só convoca para as
reuniões os representantes das associações do bairro
e quem trabalha diretamente com o Museu dos
Dinossauros, ficando a maioria da população de fora
do desenvolvimento do planejamento turístico.
Em outubro de 2005, os responsáveis pela Secretaria
de Ciência e Tecnologia de Uberaba, junto com os
responsáveis pelo circuito turístico dos Lagos e do
Triângulo Mineiro, reuniram-se em Peirópolis com
alguns integrantes da comunidade. Foram realizados
fóruns de debates, nos quais a comunidade pôde
expressar os problemas existentes e sugeriram
soluções, além de críticas ao poder público municipal,
através de um diagnóstico crítico de necessidades. A
partir desse diagnóstico, cursos, sugeridos pela
própria comunidade já estão se iniciando para
capacitação das pessoas que têm contato com o
turista.
2. Com a criação do Museu dos Dinossauros ocorreram
melhorias na infra-estrutura local?
Nesta questão analisaremos a opinião dos
entrevistados sobre as possíveis melhorias em infra-
estrutura local. Essa parte da pesquisa está associada
a possíveis melhorias na educação, saúde,
saneamento básico, iluminação pública, calçamento,
como também, na parte de gastronomia, hospedagem
e nas diferentes formas de comunicação e transporte.
Percebemos pela análise do gráfico 23 que 83% dos
entrevistados concordaram, que com a criação do
Museu dos Dinossauros, melhorias em infra-
estrutura foram conquistadas para o bairro, pois
antes não existia estrutura alguma no lugar. No
entanto, todos os 83% dos entrevistados, estão
insatisfeitos com essa questão, pois acreditam que
o atendimento às necessidades básicas ainda é
precário e consideram que essas necessidades
precisam ser resolvidas com maior rapidez.
Um total de 14% dos entrevistados acha que a infra-
estrutura não mudou em nada e o bairro está
esquecido tanto pelo poder público, quanto pelas
iniciativas privadas. Eles acreditam que o aumento
do turismo para Peirópolis seria o caos, pois, como
dito anteriormente, a comunidade não possui
capacidade de carga para atender a um turismo de
massa. Somente 3% dos entrevistados não souberam
responder a esta questão.
83%
Amostra total: 100 entrevistados
RE
q
Õ
mM
E
Gráfico 23. Resultado da pesquisa que busca saber dos entrevistados se está ocorrendo melhorias em infra-estrutura no
bairro de Peirópolis em decorrência da criação do Museu dos Dinossauros (07/02/06 a 14/02/06).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
442 W.F.S.SANTOS & I.S.CARVALHO
3. O que melhorou em infra-estrutura básica em
Peirópolis após a criação do Museu dos Dinossauros?
No gráfico 24 temos uma seleção de benefícios em
infra-estrutura local, em ordem hierárquica de
citações, decorrente da opinião dos entrevistados.
Nessa parte da pesquisa, as perguntas foram abertas
e participaram apenas os 83% dos entrevistados que
acreditam que ocorreram melhorias em infra-
estrutura no bairro. Esta parcela dos entrevistados
abordou 159 citações diferenciadas de tipos de infra-
estrutura que melhoraram após a criação do Museu
dos Dinossauros.
Dentre as 159 citações, o transporte público, segundo
os entrevistados, foi o que mais avançou em termos
de melhoria, com 32,7% das 159 indicações.
Atualmente os ônibus já circulam em Peirópolis, fato
que não acontecia há alguns anos. Os horários estão
mais flexíveis, atendendo às necessidades dos diversos
segmentos da população local.
A educação recebeu 17,7% das 159 indicações e,
segundo os entrevistados, melhorou bastante nos
últimos anos. Atualmente a Escola Municipal
Frederico Peirô possui, como abordado antes, até
a 8º série do ensino fundamental e cerca de 200
alunos e 38 funcionários.
O posto de saúde recebeu 13,2% das 159 indicações
de pessoas que acreditam no seu bom
funcionamento. A parte de telefonia pública recebeu
11,9% das indicações. Antes da criação do Museu
dos Dinossauros não existia telefonia pública e
atualmente o bairro conta com três “orelhões” à
disposição da população.
A iluminação pública no bairro não existia até há
pouco tempo e, algumas pessoas estão satisfeitas
com esse serviço. Essa infra-estrutura também
recebeu 11,9% das 159 indicações por 83% do total
de entrevistados. O saneamento básico, que engloba
o tratamento de esgotos e a distribuição da água
recebeu, apenas 6,3% das indicações.
A gastronomia, que engloba a Toca dos Dinossauros
(restaurante) e o Jurassic Bar (lanchonete), tiveram
uma quantidade mínima de citações, abrangendo
3,8% das 159 indicações, o que mostra uma
insatisfação da população com este tipo de serviço.
A Colônia dos Dinossauros (pousada), que possui
o serviço de hospedagem, foi a que teve menos
indicações (2,5%), devido, provavelmente, ao seu
pouco tempo de funcionamento.
4. O que precisa melhorar em infra-estrutura básica
na comunidade de Peirópolis?
O gráfico 25 reflete a participação de 100% dos
entrevistados, pois todos concordam que o bairro
precisa melhorar bastante sua infra-estrutura, se
algum dia quiser atender à crescente demanda
turística. No entanto, houve 150 citações de tipos
de infra-estrutura básica que necessitam de
aprimoramento.
Destas 150 citações, a carência de pavimentação
foi a mais lembrada com 45,3% das indicações.
Todas as ruas de Peirópolis são de terra e, quando
ocorre a época de seca, a poeira levantada por
automotivos torna-se prejudicial à saúde dos
moradores e, em épocas de chuva, o solo vira lama,
tornando difícil o deslocamento dos residentes.
Existe um conflito no local em relação ao tipo de
calçamento (asfalto comum ou calçamento com
paralelepípedos) que deveria ser utilizado para
pavimentar as ruas.
O saneamento básico recebeu 13,3% das 150
indicações e causa bastante controvérsia na
população. Todas as casas possuem fossa sanitária,
pois a rede de esgoto ainda não foi instalada, devido
à demora na decisão sobre o tipo de calçamento a
ser utilizado na área. Segundo Beethowen Luis
Teixeira, um dos idealizadores da Rede Nacional
de Pesquisa Científica em Paleontologia, em
entrevista realizada no dia 14 de fevereiro de 2006,
já foram reservados R$ 500.000,00 (quinhentos mil
reais) para a realização da obra de pavimentação
em paralelepípedo no entorno da localidade e para
instalação da rede de esgotos.
A situação da saúde foi bastante questionada. Esse
item recebeu 10,3% das 150 indicações de pessoas
que não estão satisfeitas com o posto de saúde de
Peirópolis. Eles alegam um descaso do poder
público Municipal, pois o local possui carência de
médicos e enfermeiros e, nesse caso, as pessoas
têm que se deslocar para lugares mais distantes,
como Ponte Alta e Uberaba, para conseguir
atendimento, tornando-se um transtorno para os
moradores.
Com uma soma de 9% das 150 indicações, o
transporte também foi criticado por uma parcela
da população. Eles alegam que os ônibus circulam
lotados. Muitas vezes a condução não passa em
Peirópolis, seguindo direto para Ponte Alta e os
horários são incorretos.
A segurança é outro fator importante da análise, e
recebeu 7,7% das 150 indicações. Em Peirópolis
não existe nenhum posto policial para atender a
casos de furtos e violência em geral, que poderão
ser ocasionados pelo aumento do turismo local.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS
32,70%
Amostra total: 83 entrevistados e 159 citações
q]
4
REA]
EE
AR
t
o
=
o
Mm
E 33
Transporte
Educação
Saúde
Telefonia pública
Iluminação pública
Saneamento básico
Gastronomia
Hospedagem
443
Gráfico 24. Relação dos tipos de melhorias em infra-estrutura ocorridas em Peirópolis após a criação do Museu dos
Dinossauros segundo os entrevistados (07/02/06 a 14/02/06).
No
o
=
S<
a
1)
se
Di a
13,30%
Amostra total: 100 entrevistados e 150 citações
EA,
Es
Pavimentação
Saneamento básico
Saúde
Transporte
Segurança
Gastronomia
Outros
Gráfico 25. Relação dos tipos de infra-estrutura básica que precisam melhorar em Peirópolis de acordo com os entrevistados
(07/02/06 a 14/02/06).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
+ W.F.S.SANTOS & [.S.CARVALHO
A parte de gastronomia recebeu 7,7%) das 150
indicações, como um serviço que precisa melhorar.
O restaurante Toca dos Dinossauros possui excelente
atendimento ao turista, mas só abre aos sábados,
domingos e feriados, não atendendo aos visitantes
durante a semana. Não existe nenhum outro
restaurante em Peirópolis.
As outras 6,7% das 150 indicações foram englobadas
em um único tópico, que representa diferentes tipos
de infra-estrutura local que ainda não existem no
espaço geográfico de Peirópolis. Uma delas é a falta
de praças públicas, no sentido de área de lazer. Outra
questão levantada é a inexistência de mercados ou
vendas de produtos básicos para os moradores, além
da ausência de uma farmácia e de um hospital.
5. Você acha que com a criação do Museu dos
Dinossauros a qualidade de vida da população de
Peirópolis melhorou?
No gráfico 26 analisa-se a qualidade de vida da
população de Peirópolis. A maioria dos entrevistados
(82%) tem certeza da ótima qualidade de vida existente
em Peirópolis. Eles se orgulham da existência de um
ambiente natural, com uma fauna e flora nativa,
cachoeiras, colinas, além da tranquilidade oferecida
por uma comunidade rural. A localidade possui
característica única de ser um sítio paleontológico
que atrai turistas e consequentemente emprego e
renda para os moradores.
Praticamente todos na comunidade estão empregados
e o local ainda atrai mão-de-obra de outras regiões.
Segundo essa parcela dos entrevistados (82%), o Museu
dos Dinossauros foi o pólo atrativo de diversas instituições
e estabelecimentos que se fixaram no lugar. A junção
dessas características, com as potencialidades naturais,
aumenta a percepção de qualidade de vida local.
Um total de 17% dos entrevistados não acredita
numa melhoria na qualidade de vida da população
local, devido à precariedade do atendimento às
necessidades básicas. Eles sabem das características
naturais existentes na comunidade, porém estão
insatisfeitos com o descaso do poder público para
com o local. Para este segmento populacional, a
questão de infra-estrutura básica está pendente e
precisa de melhorias imediatas. Apenas 1% dos
entrevistados não respondeu a questão.
EFEITOS AMBIENTAIS ORIGINADOS NA LOCALIDADE DE
PEIRÓPOLIS DECORRENTES DO CRESCENTE TURISMO
PALEONTOLÓGICO
Qualquer forma de empreendimento acarretará
interferências sobre o ambiente físico no qual este
acontece. Como em Peirópolis os turistas necessitam
visitar o local das atividades de pesquisa, é inevitável
que a atividade turística esteja associada a impactos
ambientais. Nesse sentido, torna-se necessário um
desenvolvimento turístico ambientalmente sustentável.
1. Você acha que o aumento do turismo
paleontológico está acarretando algum tipo de
degradação no espaço físico de Peirópolis?
No gráfico 27 há a opinião dos conhecedores do lugar
sobre possíveis degradações no espaço físico de
Peirópolis. Apesar de 59% dos entrevistados
afirmarem que ocorrem degradações no local através
do crescente turismo, eles acreditam que é uma
minoria dos turistas que causa a destruição do lugar.
Neste caso, é a própria comunidade que se encarrega
de alertar os visitantes sobre os possíveis problemas
ambientais que eles possam causar no espaço local.
Essa parcela dos entrevistados (59%) considera que a
diferença entre classes sociais é um fator que influencia
na consciência ambiental. Então, os mais pobres
degradam mais o ambiente local. Para estes
entrevistados (59%), a questão da degradação
ambiental também depende muito da educação dos
turistas. Quem possui um bom nível de
conscientização ambiental, não irá causar degradações
em Peirópolis, usufruirão o espaço de maneira correta,
enquanto que as pessoas com pouca instrução, não
se incomodam ou não possuem noção do caráter
destrutivo de um simples papel jogado no chão.
Um total de 40% dos entrevistados concorda que a
prática do turismo não gera degradações em
Peirópolis. Eles acreditam que o turista que chega
na comunidade para conhecer os achados fósseis
da região possui cultura de não degradar o
ambiente, pois estão inseridos em uma parcela da
população que sabe da importância da preservação
do patrimônio. Apenas 1% dos entrevistados não
respondeu a questão.
2. Quais são os tipos de degradações causadas pelos
turistas na localidade de Peirópolis?
Desta questão participaram somente os 59% dos
entrevistados que acreditam que a prática do turismo
acarreta degradações no ambiente físico de Peirópolis.
Entre este segmento populacional ocorreram 100
citações de tipos de degradações diferenciadas
causadas pelos turistas (gráfico 28). A questão do
lixo foi a mais abordada, na qual todos os 59
entrevistados, que acreditam na degradação causada
pela prática turística, confirmaram que o lixo é o
principal problema a ser enfrentado pela comunidade.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 445
82%
Amostra total: 100 entrevistados
Gráfico 26. Resultado da avaliação que procura saber dos entrevistados se a qualidade de vida em Peirópolis melhorou
após a criação do Museu dos Dinossauros (07/02/06 a 14/02/06).
SIM
E NÃO
59%
NÃO SEI
Amostra total: 100 entrevistados
Gráfico 27. Resultado da investigação com os conhecedores de Peirópolis sobre possíveis degradações no espaço físico
local ocasionadas pelo crescente turismo (07/02/06 a 14/02/06).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
446 W.F.S.SANTOS & [.S.CARVALHO
Os entrevistados consideram que as áreas mais
degradadas são as cachoeiras, que não possuem
lixeiras e tornam-se alvos de alguns vândalos. Os
visitantes deixam todo tipo de lixo no local e não
estão preocupados com sua preservação. Alguns
fazem refeições, e não recolhem os restos de
alimentos consumidos. Sempre são feitos mutirões
de limpeza entre os moradores da comunidade para
recolher o lixo deixado pelos turistas.
Outro tema relevante trata da poluição sonora
causada por alguns turistas, tendo abrangido 13%
das 100 indicações. Nos finais de semana, o bairro
é bastante visitado, porém a comunidade está
insatisfeita com alguns moradores de Uberaba que
se deslocam para Peirópolis para se divertirem. Os
entrevistados alegam que estes visitantes colocam
o som do carro em um volume exagerado,
acarretando distúrbios na tranquilidade do local.
As badernas também são constantes nos finais de
semana em Peirópolis, ocasionadas por pessoas
vindas de Uberaba. Tais aspectos foram
considerados pelos entrevistados como degradações
no ambiente físico do local. Este tópico também
recebeu 13% das 100 indicações e está relacionado
aos “rachas” de carro e a destruição da estrutura
de algumas casas. O tópico destruição das árvores
recebeu 6% das indicações. Alguns turistas
invadem as propriedades privadas para pegar frutas
e mudas de plantas e outros quebram os galhos
das árvores, pois não possuem consciência
ambiental.
O uso de drogas ilícitas abrangeu 5% das 100
indicações, pois acarretam “poluição visual”. A
maconha foi a principal droga citada e é consumida
principalmente nas cachoeiras. O consumo do
álcool também foi citado como um dos responsáveis
pelas badernas ocorridas na localidade.
EFEITOS CULTURAIS ORIGINADOS NA COMUNIDADE DE
PEIRÓPOLIS COM O AUMENTO DO TURISMO PALEONTOLÓGICO
Quando um determinado visitante chega a uma
comunidade com algum potencial turístico,
algumas vezes já traz uma bagagem cultural
diferenciada daquela existente na localidade. Os
turistas chegam com novos hábitos, valores,
costumes, utopias e crenças, além de uma
linguagem muitas vezes diferente da do local.
Podemos dizer que a população local possui modos
de vida distintos. Desse modo, a opinião dos
verdadeiros conhecedores do lugar torna-se
essencial para entendermos o impacto causado por
esse choque cultural.
59%
Amostra total: 59 entrevistados e 100 citações
Lixo
ASA
ERA
55] Baderna
Poluição sonora
o
2
Ea
t
Destruição de árvores
|>
Uso de drogas ilícitas
Gráfico 28. Relação dos tipos de degradações no espaço físico de Peirópolis abordadas pelos entrevistados em consequência
da atividade turística (07/02/06 a 14/02/06).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS
1. Você acha que o aumento do turismo paleontológico
gera impactos negativos na cultura local?
No gráfico 29 observamos que a maioria dos
entrevistados (86%) possui a percepção de que o
aumento do turismo paleontológico não
descaracteriza a cultura local. Pelo contrário, eles
compreendem que o contato entre culturas
diferenciadas é uma forma de compartilhar
conhecimentos, informações, experiências e
conceitos para um aprendizado mútuo, integrando
as diversas culturas. Essa parcela de pessoas (86%)
afirma que a população local não se influencia com
os aspectos negativos de outras culturas e apenas
os aspectos positivos são valorizados, sem que isso
destrua os modos de vida dos moradores, nem suas
tradições e raízes que possuem com o lugar. Ocorre
um intercâmbio cultural, sem que isso acarrete
mudanças no modo de pensar e agir dos
conhecedores de Peirópolis.
Um total de 11% dos entrevistados assegura que o
contato entre a cultura local com culturas
diferenciadas, de alguma forma, pode acarretar
impactos negativos no modo de vida dos moradores
locais. Entre esta parcela destacamos os
fazendeiros, aos quais não agradam as
transformações causadas no estilo de vida simples
447
de seus filhos, através do contato com outras
culturas. Os fazendeiros alegam que os filhos estão
desistindo do trabalho rural, pelo contato que eles
possuem com pessoas de fora do lugar, que sempre
trazem novidades, influenciando o modo de pensar
dos jovens. Apenas 3% dos entrevistados não
souberam responder a esta questão.
SÍNTESE DA PESQUISA
1. Efeitos econômicos do turismo paleontológico
a) O turismo paleontológico é considerado por 61%
dos 100 entrevistados, como a principal solução
para um desenvolvimento socioespacial sustentável
em Peirópolis.
b) Um total de 84% dos 100 entrevistados possui a
percepção de que as atividades rurais também são
válidas para o desenvolvimento de Peirópolis,
destacando-se a agricultura e na sequência
hierárquica a pecuária e a avicultura.
c) A maioria dos 100 entrevistados (82%) afirmou
que está ocorrendo uma distribuição de renda
equitativa na comunidade de Peirópolis, devido à
criação do Museu dos Dinossauros e a necessidade
de atendimento aos turistas, que desejam conhecer
os achados fósseis da região.
Cree
86%
Amostra total: 100 entrevistados
2 NÃO SEI
Gráfico 29. Resultado do questionamento que busca saber dos entrevistados se o turismo paleontológico causa impactos
negativos na cultura dos moradores locais (07/02/06 a 14/02/06).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
448 W.F.S.SANTOS & [.S.CARVALHO
d) Analisamos que 53% dos 100 entrevistados
consideram-se beneficiados de maneira direta ou
indireta, pela prática do turismo paleontológico
em Peirópolis.
e) Verificou-se que 88% dos 100 entrevistados
consideram que o número de empregos na localidade
aumentou em decorrência da criação do Museu dos
Dinossauros. Este objeto geográfico atrai diversos
visitantes para conhecer os achados fósseis e é
um pólo atrativo de instituições (públicas e
privadas) e estabelecimentos (comércio e serviço)
para o local. Contudo, há uma distorção na
percepção desses entrevistados sobre a verdadeira
empregabilidade local.
2. Efeitos sociais do turismo paleontológico
a) Os conhecedores de Peirópolis estão divididos:
49% dos 100 entrevistados acreditam que a
população local está sendo envolvida no
desenvolvimento e gerenciamento do planejamento
turístico porém, só a partir da gestão pública atual.
Um total de 46% dos 100 entrevistados afirmou que
o planejamento turístico de Peirópolis não é feito
em consonância com os moradores e os projetos
antigos já chegaram prontos para a comunidade.
b) Segundo 83% de 100 entrevistados a infra-
estrutura básica de Peirópolis melhorou após a
criação do Museu dos Dinossauros, todavia
consideram que a existência de um turismo de massa
seria incompatível com a capacidade de carga local.
c) De acordo com 82% dos 100 entrevistados, a criação
do Museu dos Dinossauros, associado ao crescente
turismo paleontológico, foi totalmente benéfica para
a melhoria da qualidade de vida da população local,
pois gerou emprego e renda para a comunidade.
3. Efeitos ambientais do turismo paleontológico
a) Verificou-se que 59% dos 100 entrevistados
possuem a percepção de que o crescente turismo é
gerador de degradações no espaço físico de Peirópolis,
principalmente através do lixo. No entanto,
consideram que a classe social mais pobre degrada
mais, devido à falta de consciência ambiental.
4. Efeitos culturais do turismo paleontológico
a) Percebe-se através da pesquisa que 86% dos 100
entrevistados confirmam que a prática do turismo
em Peirópolis torna-se importante pela troca de
aprendizado entre o morador e o visitante, na qual a
população local não se desprenderá de seus modos
de vida e suas raízes com o lugar para atender a
crescente demanda turística.
CONCLUSÕES
Mediante a obtenção dos resultados da pesquisa
de campo, o trabalho pode contribuir para um
melhor entendimento acerca da percepção sobre a
atividade turística na localidade de Peirópolis pelos
conhecedores do lugar.
Dessa forma, conclui-se que o turismo paleontológico
gera expectativas de efeitos positivos e negativos na
comunidade de Peirópolis. Percebemos, que com a
criação do Museu dos Dinossauros, diversos
estabelecimentos e instituições se estabeleceram no
local, empregando um bom número de trabalhadores
e gerando renda para o lugar, aumentando de maneira
continua a qualidade de vida da população local.
Levando em consideração este aspecto, esta prática
acarreta um efeito muito positivo, porém não suficiente
para um verdadeiro desenvolvimento local. O aumento
do turismo também gera expectativas de efeitos
negativos em Peirópolis, que é a degradação do espaço
físico local. O lixo é considerado o principal problema,
o qual poderá ser solucionado, através de mudanças
comportamentais a partir de atividades que visem o
desenvolvimento de uma consciência preservacionista.
Existem projetos turísticos em vias de concretização,
que buscam explorar as características histórico-
culturais de Peirópolis, além de uma possível relação
entre o turismo e as atividades rurais da localidade.
A infra-estrutura básica de Peirópolis é considerada
precária e a comunidade ainda não está preparada
para atender a essa crescente demanda.
Consequentemente, aumentando o número de turistas,
aumentará a procura por trabalhadores capacitados
em atender a essa demanda. Isso faz com que os
moradores de Peirópolis necessitem de capacitação, para
que não sejam substituídos por trabalhadores de outras
regiões que possuam maior qualificação. Vimos no
decorrer do trabalho que se torna fundamental, para
diminuir os efeitos antagônicos do turismo, participação
ativa da população de Peirópolis no desenvolvimento e
gerenciamento do planejamento turístico. O
planejamento deve ser projetado para maximizar os
benefícios econômicos e sociais do turismo, para a
população residente, de maneira equitativa, e ao mesmo
tempo eliminar os efeitos adversos. É fundamental, para
se evitar ou limitar os efeitos adversos, que os políticos
e os administradores municipais dediquem maior
atenção ao bem-estar a longo prazo da população.
O turismo paleontológico pode ser um meio positivo
de propiciar melhor qualidade de vida (econômica,
social, ambiental e cultural) para Peirópolis. A questão
fundamental é saber se o poder público, através dos
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 449
planejadores, além dos empreendedores, serão
capazes de gerar uma indústria do turismo
verdadeiramente responsável, que crie benefícios a
longo prazo, tanto para os residentes, quanto para
os turistas, sem deteriorar o ambiente físico e cultural.
Além destas avaliações, que procuram entender o
processo de desenvolvimento do turismo em Peirópolis,
buscou-se o entendimento do nível da identidade que
a população local possui com sítio paleontológico e,
consequentemente, com o Museu dos Dinossauros.
Os conhecedores do lugar possuem consciência da
importância de Peirópolis para a ciência e também para
o desenvolvimento socioespacial do local.
Em relação às possíveis melhorias no espaço interno
e externo ao Museu dos Dinossauros, os
entrevistados reclamaram do calor e da cor escura
das paredes do museu que, associadas à iluminação
precária, dificultam a permanência do visitante por
mais tempo no local. A falta de espaço para se
movimentar e para expor uma maior quantidade de
fósseis também foi comentada
Outra questão relacionada a este objeto geográfico
é a falta de estruturação do Centro de Pesquisas
Paleontológicas Llewellyn Ivor Price. Percebemos no
local, a existência de apenas dois banheiros públicos.
No caso de eventos para atrair um grande público,
como a Semana dos Dinossauros, os banheiros ficam
congestionados. Uma necessidade urgente apontada
pela população é a criação de uma lanchonete no
espaço físico do Centro de Pesquisas Paleontológicas
Llewellyn Ivor Price, para que as pessoas não
precisem sair do local da exposição dos fósseis para
poderem se alimentar.
A instalação de uma biblioteca e de áreas de lazer,
também foram citadas pelos entrevistados. Eles
alegaram que o Museu dos Dinossauros não oferece
uma sala para estudos, contendo livros que abordem a
Paleontologia da região e do mundo, para que os leigos
e os interessados possam pesquisar sobre o assunto.
Outra questão é a falta de lugares de recreação, com o
intuito de contribuir para o bem-estar da comunidade
e também, como uma maneira de se “manter”, por mais
tempo, os visitantes no local. Um aspecto bastante
relevante comentado pelos entrevistados é a falta de
estrutura para atender as pessoas que possuam
algum tipo de deficiência física ou visual.
É nítido que os guias do Museu dos Dinossauros
necessitam dedicar atenção especial à utilização da
linguagem científica, para trabalhá-la de maneira
mais acessível com a população e os visitantes. Torna-
se importante a presença de guias treinados, para
atenderem os diferentes segmentos populacionais de
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
maneira correta, utilizando uma linguagem de fácil
entendimento, diminuindo o conflito entre os
conceitos de tempo geológico e tempo antropológico.
Uma proposta é a criação de eventos, ou até mesmo
exposições, que podem ser bimestrais ou semestrais,
com o intuito de se mostrar outros tipos de fósseis
encontrados no Brasil e no mundo, para que os
visitantes e moradores do local consigam ter um maior
entendimento sobre a importância dos fósseis. Além
disso, esses eventos são importantes, para equilibrar
o número de visitantes nas diversas épocas do ano e
não somente num determinado período em que ocorre
um evento específico, como é o caso da Semana dos
Dinossauros.
AGRADECIMENTOS
Ao Centro de Pesquisas Paleontológicas Llewellyn Ivor Price,
por fornecer o alojamento para a realização da pesquisa. Ao
Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio de
Janeiro, pelo apoio financeiro para realização do trabalho
de campo. À população de Peirópolis pela ótima receptividade
e pelas contribuições positivas no trabalho. A Luiz Carlos
Borges Ribeiro, Zulema Paixão, Ana Raquel de Paiva Olinto,
Leila Borges e Beethowen Luis Teixeira, pelas entrevistas
concedidas e apoio durante o trabalho de campo. Este estudo
contou com o apoio do CNPq (Proc nº 305780/2006-9) e
Instituto Virtual de Paleontologia — RJ (FAPERJ).
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Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 451
APÊNDICE 1
ENTREVISTA COM LUIZ CARLOS BORGES RIBEIRO
1 QUAL A PROCEDÊNCIA DOS INVESTIMENTOS DESTINADOS A MANUTENÇÃO DO MUSEU DOS
DINOSSAUROS?
2 QUAIS SÃO AS INSTITUIÇÕES QUE POSSUEM PARCERIAS COM O MUSEU DOS DINOSSAUROS?
3 QUAIS SÃO AS FINALIDADES DESTAS PARCERIAS?
4 QUAIS SÃO OS FUTUROS PROJETOS PENSADOS PARA O CENTRO DE PESQUISAS
PALEONTOLÓGICAS LLEWELLYN IVOR PRICE?
5 QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS OBJETIVOS DESTES PROJETOS?
A.1 Museu dos Dinossauros: Projetos, investimentos e parcerias
Como explicitado anteriormente, no dia 07 de Fevereiro de 2006, foi realizada uma entrevista com Luiz
Carlos Borges Ribeiro, Diretor do Museu dos Dinossauros e do Centro de Pesquisas Paleontológicas
Llewellyn Ivor Price, buscando o entendimento dos projetos específicos, parcerias efetuadas e as diferentes
captações de recursos para a manutenção do museu e do centro de pesquisas.
A.1.1 Projetos
De acordo com Luiz Carlos Borges Ribeiro, o Museu dos Dinossauros possui um projeto em parceria com
o Banco Mundial (BIRD), denominado de Fóssil-Vivo. O Banco Mundial financiará um projeto em conjunto
com a Prefeitura de Uberaba, para resolver os problemas do tratamento de esgotos e da falta d'água no
município. Na análise de impacto ambiental, realizado pelo Banco Mundial, percebeu-se que seria possível
a presença de fósseis nas rochas da região.
Preocupados com esta situação, os representantes do Banco Mundial solicitaram que fosse constituído
um projeto de Paleontologia, para a criação de uma estrutura de monitoramento de todas as obras que
estão sendo feitas na cidade de Uberaba para se evitar a destruição do patrimônio fossilifero durante as
obras de escavação nas rochas. Então, foi criado o projeto Fóssil-Vivo, numa parceria entre o Centro de
Pesquisas Paleontológicas Llewellyn Ivor Price e o Banco Mundial. Esse projeto visa a criação de uma
equipe de resgate paleontológica, que fará a análise das rochas para verificar se existe algum fóssil no
local e, se houver, cuidará para que ele seja devidamente extraído.
Nesse contexto há a possibilidade de recursos para o ano de 2006 e os fundos arrecadados pelo projeto
serão destinados à construção de um novo museu, mais amplo e mais moderno, para recepcionar melhor
os turistas e garantir o bem-estar da população local. A equipe de resgate paleontológica será responsável
também, em evitar que o material fossilifero seja destruído nas obras de construção do novo museu.
A possível ampliação do museu abrigará um jardim paleobotânico, com plantas atuais que são conhecidas
no registro geológico, e um novo laboratório para o tratamento curadorial dos fósseis. Está também previsto,
para o futuro, a criação de uma área reservada à realização de exposições temporárias de acervos de outros
museus. Com isso espera-se criar cerca de 80 vagas de empregos, das quais 19 serão para a estrutura do
novo museu. Os moradores de Peirópolis serão priorizados nas vagas. Todos receberão qualificação técnica
para atuarem como guias turísticos nos locais de escavação paleontológica ou nos laboratórios.
A.1.2 Investimentos e parcerias
O custo mensal do Museu dos Dinossauros é mantido pela Fundação Municipal de Ensino Superior de
Uberaba (FUMESU), que é responsável pelo pagamento da maioria dos funcionários e contas de luz e
água. O pagamento de quatro funcionários é feito por outras instituições da municipalidade de Uberaba,
denominadas de Fundação Cultural de Uberaba e Secretaria de Governo de Uberaba.
Os novos investimentos estão sendo gerados através de projetos de pesquisa apoiados pela FAPEMIG
(Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais) e doações de instituições particulares.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
452 W.F.S.SANTOS & I.S.CARVALHO
Atualmente, há também uma nova linha de captação de recursos, que é a prestação de serviços na área
de Paleontologia, na qual a equipe do Museu dos Dinossauros está sendo contratada para o monitoramento
de linhas de transmissão elétrica.
As finalidades destas parcerias consistem em arrecadar recursos para o pagamento de salários, como
também, investimento em novos atrativos turísticos, pesquisa científica, educação e difusão do
conhecimento, além da preservação dos depósitos fossiliferos.
APÊNDICE 2
ENTREVISTA COM BEETHOWEN LUIS TEIXEIRA
1 QUAIS SÃO OS OBJETIVOS DA CONSTRUÇÃO DA REDE NACIONAL DE PESQUISA CIENTÍFICA EM
PALEONTOLOGIA?
2 QUAIS SÃO AS METAS E OS FUTUROS PROJETOS PENSADOS PELA REDE NACIONAL DE PESQUISA
CIENTÍFICA EM PALEONTOLOGIA?
3 QUAIS SÃO AS INSTITUIÇÕES QUE POSSUEM PARCERIAS COM A REDE NACIONAL DE PESQUISA
CIENTÍFICA EM PALEONTOLOGIA?
4 QUAL A PROCEDÊNCIA DOS INVESTIMENTOS PARA A CONSTRUÇÃO E MANUTENÇÃO DA REDE
NACIONAL DE PESQUISA CIENTÍFICA EM PALEONTOLOGIA?
A.2 A Rede Nacional de Pesquisa Científica em Paleontologia
Como abordado anteriormente, os dados obtidos baseiam-se na entrevista realizada no dia 14 de fevereiro
de 2006, com Beethowen Luis Teixeira, um dos responsáveis pela viabilização da Rede Nacional de
Pesquisa Científica em Paleontologia.
A.2.1 Objetivos, parcerias e investimentos da Rede Nacional de Pesquisa Científica em Paleontologia
Buscando o estabelecimento de uma política de incentivo à pesquisa na área de Paleontologia, com o
desenvolvimento de atividades educacionais, culturais e turísticas na região, é que no ano de 2002 a
Comissão de Ciência, Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara dos Deputados, propôs a criação
da Rede Nacional de Pesquisa Científica em Paleontologia na localidade de Peirópolis (Fig.20).
A Rede Nacional de Pesquisa Científica em Paleontologia tem como objetivo mapear todas as reservas
paleontológicas no Brasil e promover, em etapas, a sua integração, estabelecendo uma política de incentivo
a pesquisa na área de Paleontologia, valorização deste patrimônio, de desenvolvimento de atividades
educacionais, culturais e turísticas em torno do tema e principalmente de combate ao tráfico de peças do
patrimônio paleontológico brasileiro.
A criação da Rede Nacional de Pesquisa Científica em Paleontologia resulta de parceria entre o Governo
Federal, através do Ministério de Ciência e Tecnologia e o Governo do Estado de Minas Gerais, e da
Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de Minas Gerais, com o envolvimento de
instituições de pesquisa científica em Paleontologia existentes em vários Estados brasileiros.
Em relação aos investimentos, coube à Comissão de Ciência, Tecnologia, Comunicação e Informática da
Câmara dos Deputados a tarefa de alocar, por dois anos seguidos — 2003 e 2004, emendas de comissão
ao Orçamento Geral da União viabilizando a Rede Nacional de Pesquisa Científica em Paleontologia. Os
recursos alocados para o Ministério da Ciência e Tecnologia totalizam investimentos de R$ 5.100.000,00
(cinco milhões e cem mil reais) A este valor estão sendo acrescidos outros R$ 1.060.000,00 (um milhão
e sessenta mil reais).
A.2.2 Projetos futuros e metas da Rede Nacional de Pesquisa Científica em Paleontologia
Como sede da rede nacional, Peirópolis receberá um moderno complexo cultural e científico que envolve
dois projetos específicos: O Sítio dos Dinossauros e a Oficina dos Dinossauros.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 453
Fig.19- Pintura que retrata o paleoambiente do Triângulo Mineiro há 70 milhões de anos, enfatizando a fauna e a flora.
Fig.20- Futura sede da Rede Nacional de Pesquisa Científica em Paleontologia, Peirópolis (08/02/06).
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
454 W.F.S.SANTOS & I.S.CARVALHO
O Sítio dos Dinossauros será estruturado no local de escavação dos fósseis (sítio paleontológico), com
revitalização das antigas construções do local, a construção de outras mais modernas e a criação do túnel do
tempo, uma vitrine de mais de 100 metros demonstrando o processo evolutivo da Terra, ou seja, um elemento
arquitetônico que fará a transposição dos visitantes, da recepção até o local onde há a escavação dos fósseis.
A Oficina dos Dinossauros foi idealizada para ser um grande centro cultural, com locais para exposições
e eventos científicos, com auditório, sala multimídia, loja de souvenires, lanchonete, biblioteca, salas de
administração (secretaria e diretoria) e salas para oficinas. O edifício está sendo implantado em um
terreno de 2.183,41 m? ao lado do Museu dos Dinossauros.
APÊNDICE 3
ENTREVISTA COM ZULEMA PAIXÃO E ANA RAQUEL DE PAIVA OLINTO
1 QUEM SÃO OS RESPONSÁVEIS PELO PLANEJAMENTO TURÍSTICO EM PEIRÓPOLIS?
2 QUAIS SÃO OS PROJETOS DE PLANEJAMENTO TURÍSTICO PARA PEIRÓPOLIS?
3 QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS OBJETIVOS E METAS DOS PROJETOS DE PLANEJAMENTO TURÍSTICO
PARA PEIRÓPOLIS?
4 QUAIS SÃO AS ESTRATÉGIAS UTILIZADAS PARA ALCANÇAR TAIS OBJETIVOS?
5 QUAIS AS DIFICULDADES DE GESTÃO DO ESPAÇO TURÍSTICO DE PEIRÓPOLIS?
6 A POPULAÇÃO DE PEIRÓPOLIS ESTÁ SENDO ENVOLVIDA NO DESENVOLVIMENTO E
GERENCIAMENTO DO PLANEJAMENTO TURÍSTICO?
7 QUAIS SÃO AS TÉCNICAS UTILIZADAS PARA A BUSCA DE UM PLANEJAMENTO TURÍSTICO
INTEGRADO E PARTICIPATIVO?
8 ESTÁ OCORRENDO ALGUM TIPO DE INTER-RELAÇÃO ENTRE O TURISMO PALEONTOLÓGICO E A
PRODUÇÃO RURAL EM PEIRÓPOLIS?
9 QUAL O PROVÁVEL FUTURO TURÍSTICO DE PEIRÓPOLIS?
A.3 Planejamento turístico de Peirópolis
Esta parte do trabalho baseou-se exclusivamente, como abordado anteriormente, na entrevista realizada
no dia 13 de fevereiro de 2006, no Centro de Pesquisas Paleontológicas Llewellyn Ivor Price, com a chefe
do Departamento de Turismo de Uberaba, Ana Raquel de Paiva Olinto e com a Diretora de Tecnópole,
Zulema Paixão. Elas são as responsáveis por uma nova fase no desenvolvimento e gerenciamento do
planejamento turístico de Peirópolis. Assim, foram feitas perguntas específicas sobre o planejamento
turístico local.
A.3.1 Objetivos, metas e estratégias do planejamento turístico para Peirópolis
A responsabilidade pelo planejamento turístico em Peirópolis é da Secretaria de Desenvolvimento
Econômico do Turismo da Prefeitura de Uberaba, na qual existe o Departamento de Turismo e o
Departamento de Tecnópole. Dentro desses departamentos, inclui-se a sessão do parque de Peirópolis,
que é responsável por todos os projetos arquitetônicos, urbanísticos e de paisagismo.
Atualmente, o principal projeto turístico da Prefeitura de Uberaba chama-se Vila dos Dinossauros, que é
um planejamento global em longo prazo, abrangendo tudo o que envolve Peirópolis, incluindo uma visão
de desenvolvimento sustentável. A idéia principal é a criação de uma vila ou uma agrovila, que possua
características de sustentabilidade socioambiental, assim como, das atividades econômicas envolvidas.
Dentro do Departamento de Turismo, Peirópolis é considerado como o principal pólo turístico de Uberaba.
O aspecto mais importante é o fato de Peirópolis ser potencialmente um Patrimônio da Humanidade. Por
apresentar características especiais, como um sítio paleontológico de grande expressividade e
potencialidade, o Banco Mundial (BIRD) interessou-se em ser um patrocinador de Peirópolis, face a
importância mundial da localidade.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 455
Outra questão importante é que Peirópolis é tombado pelo Patrimônio Histórico Municipal e pretende-se
desenvolver o valor histórico do passado econômico do local, calcado na extração do calcário, na qual as antigas
instalações das caieiras (local de queima do calcário) serão potencializadas como uma das competências turísticas.
Deseja-se, então, enfatizar a história de ocupação dessa região como um dos atrativos turísticos. Além disso há
a questão da existência de um ambiente natural plausível para a prática do ecoturismo (caminhadas, trilhas,
rapel e cavalgadas). O objetivo é potencializar essas características naturais e históricas do entorno de Peirópolis
e do próprio núcleo urbano, para que haja a preservação de tais aspectos positivos para o turismo. O
planejamento turístico de Peirópolis foi estruturado para implantação nos próximos três anos.
A questão de patrimônio histórico é supervisionada atualmente pelo Conselho de Patrimônio Histórico do
Município e pelo Conselho de Desenvolvimento, que é o conselho da própria comunidade, que aprovará qualquer
projeto que venha a ser feito no local. Sobre a questão do meio ambiente, a responsabilidade é do COMAN
(Conselho de Meio Ambiente) que também será responsável pela avaliação, orientação e implantação dos projetos.
Assim, temos a união de todas essas instituições, para idealização e criação do projeto Vila dos
Dinossauros, considerado como uma vila temática, voltada para melhorias na qualidade de vida dos
moradores de Peirópolis, associado a um desenvolvimento econômico e socioambiental sustentado. As
estratégias utilizadas para alçar tais objetivos fundamentam-se em parcerias entre o poder público e as
empresas privadas, além do máximo envolvimento da comunidade de Peirópolis. Foi com base em um
diagnóstico de necessidades, realizado em Outubro de 2005, que nasceu o projeto Vila dos Dinossauros.
Inicialmente, foram convidadas as pessoas mais representativas da comunidade, Fundação Peirópolis e
da Associação de Bairros, para um trabalho participativo, com todos os interessados do local. A partir
daí, foram feitas reuniões com os moradores, para a discussão dos problemas, interesses e soluções da
comunidade. Através das informações obtidas junto à comunidade, foram realizadas parcerias com o
SEBRAE, com o Sindicato Rural e com o SENAR (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural). Destas
parcerias, foram implementados três cursos dedicados à comunidade, que tratam do empreendedorismo
no espaço rural, empreendedorismo de artesanatos e o de capacitação de guias turísticos. Este último,
bem direcionado para as necessidades do Museu dos Dinossauros, busca a capacitação no bom
atendimento, liderança e qualidade na prestação de todos os tipos de serviços turísticos. A comunidade
tem participado, o que contribui para que as prioridades saiam em sintonia com os interesses locais.
A.3.2 Dificuldades de gestão do espaço turístico de Peirópolis
Um dos grandes problemas existentes em Peirópolis é a falta de tradição para se construir projetos em
parceria com a comunidade. No passado não existia uma preocupação do poder público em solicitar
opiniões dos moradores locais, e, assim, houve um progressivo descrédito por parte da população em
relação ao poder público. Então, há que resgatar a capacidade da comunidade de acreditar, que fazer um
plano em conjunto, é o início da possibilidade dos objetivos se tornarem realidade.
A comunidade de Peirópolis está dividida entre aqueles que desejam o turista, pensando mais no beneficio
econômico trazido por esta prática e, outros que estão receosos com o turismo, pois não querem perder a
qualidade de vida que possuem. Então, temos um conflito de interesses dentro da comunidade e, por essas
razões, o projeto Vila dos Dinossauros tem sido muito bem elaborado. Todos os moradores de Peirópolis
têm o direito de se manifestar (Zulema Paixão e Ana Raquel de Paiva Olinto, 13 de fevereiro de 2006).
Em Peirópolis, o setor público, as empresas privadas e a comunidade estão preocupados com diferentes
aspectos. Os representantes do poder municipal de Uberaba têm buscado, através da proposta da Vila
dos Dinossauros, a qual está ainda em fase de elaboração, a otimização dos interesses da comunidade,
do Museu dos Dinossauros, da Prefeitura Municipal de Uberaba e os da Rede Nacional de Pesquisa
Científica em Paleontologia.
A.3.3 Integração do turismo paleontológico com a produção rural na localidade de Peirópolis
Não podemos esquecer, que Peirópolis é um bairro rural, então grande parte da população vive da plantação
de lavouras de milho, arroz e feijão, da criação do gado e da engorda de aves e criação de avestruz. Nesse
caso, tem-se a necessidade de integrar o turismo com estas outras modalidades econômicas, baseada
em empreendimentos rurais.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
456 W.F.S.SANTOS & [.S.CARVALHO
O projeto Vila dos Dinossauros possui a intenção do aumento da produção rural e vai incentivar o
desenvolvimento de parte da Agroindústria. Parcerias junto ao Ministério da Agricultura estão sendo
negociadas. Todavia, haverá inicialmente a necessidade de se adequar e estruturar as propriedades
rurais, ou seja, uma preparação do local, através de fazendas que sejam modelo, que sigam as regras de
vigilância sanitária.
Já estão sendo iniciadas negociações com criadores de gado, de aves e agricultores da região e, alguns,
mostraram-se interessados em se tornarem modelos de fazenda para a realização do turismo rural.
Deseja-se a longo prazo, conquistar uma estruturação de suas localidades, para receberem de maneira
correta os turistas.
A.3.4 Futuro turístico de Peirópolis
Peirópolis está incluído em dois circuitos turísticos diferenciados, denominados de Circuito Turístico dos
Lagos e Circuito Turístico do Triângulo Mineiro. As perspectivas são muito boas e, o objetivo é integrar
Peirópolis nesses roteiros. Porém, a comunidade ainda não está preparada para receber o turista, ou seja,
a comunidade não possui capacidade de carga para atender a demanda turística dos dois circuitos. Na
comunidade de Peirópolis existem dificuldades no atendimento ao turista. Se considerarmos, por exemplo,
a parte gastronômica, a Toca dos Dinossauros é o único restaurante e seu atendimento é restrito aos finais
de semana. Em relação ao entretenimento turístico há limitações, pois os turistas visitam o local e reclamam
da falta de outras atividades, além da visita ao Museu dos Dinossauros. A segurança e saúde também são
questões críticas a serem resolvidas, pois ainda não há recursos disponíveis.
Será feita uma casa de atendimento ao turista, ou seja, um posto de informação turística, através de
parceria com o Ministério do Turismo. Estão sendo procuradas parcerias para a sinalização das estradas
e para a parte de sinalização interna e, também, para a implementação de uma guarita policial para o
atendimento à comunidade e aos turistas. A parte de preservação do meio ambiente será realizada em
parceria com a empresa Coca-Cola, através da coleta seletiva de lixo, tanto na parte de ajardinamento do
Museu dos Dinossauros, quanto nas cachoeiras.
Nesse contexto, a comunidade tem que estar ciente de que o turismo, sem o suporte dos projetos de
Paleontologia, não seria sustentável. Na verdade, o “carro-chefe” de Peirópolis é a Paleontologia, o turismo
é apenas uma consequência do conhecimento paleontológico gerado na região. Tal aspecto deve ser
entendido pela comunidade, de que só apoiando o projeto de desenvolvimento da parte científica é que o
projeto de turismo se desenvolverá de uma forma coerente. Nesse caso, a essência de um planejamento
turístico local é que, primeiramente, os conhecedores do lugar, em todos os seus segmentos, tenham
consciência de seu patrimônio.
Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008
SUMÁRIO / CONTENTS
ÁRTIGOS ORIGINAIS / (ORIGINAL ARTICLES
ANTROPOLOGIA / ANTHROPOLOGY
Dinâmica de ocupação, contatos e trocas no litoral do Rio de Janeiro no período de 4000 a 2000 anos antes do presente.
Dynamics of occupation, contacts, and exchanges at the coast of the State of Rio de Janeiro from 4.000 to 2.000 years
before present.
MEC TENORIO; DC PINTO E MEGAFONSO: quis corra ea mitiidttidenes ne ane NANA SMS E CCULO CAS CENCOREERCENCORCOR CCE CEIA MLUNELCUECERS ÇA
BOTÂNICA / BOTANICS
Euphorbiaceae nativas de cerrado e campo rupestre da Serra de São José, Minas Gerais, Brasil.
Native Euphorbiaceae of “cerrado” and “campo rupestre” of the São José Range, Minas Gerais, Brazil.
D:MEDEIROS, LSENNA- VALLE 80 RTV ALVES reranananaan cr cna nEle CONS DES UCA G E MCSE A ASALAA aaa ion iene
ZOOLOGIA / ZOOLOGY
Descrição de uma nova espécie de Cyrtoneuropsis Malloch, 1925 (Diptera, Muscidae) e primeiro registro do gênero no Estado
do Maranhão, Brasil.
Description of a new species of Cyrtoneuropsis Malloch, 1925 (Diptera, Muscidae) and first record of the genus for the state
of Maranhão, Brazil.
MS: COURT, G.PIS.BARROS & MLPLORSINs.sscrertranida irado raras cerern dida assada das Ce cetcrrna dba ad Sad o paid eira dados sandra artur d dadas
Uma nova espécie de mosquito galhador (Diptera, Cecidomvyiidae) associado com Sebastiania glandulosa (Euphorbiaceae).
A new species of gall midge (Diptera, Cecidomyiidae) associated with Sebastiania glandulosa (Euphorbiaceae).
ULPIOLIVEIRA 87 VOID MAIA cocos cenonnadentao pes Le ieenirdad dado cUnabo Siad dd caca dio EE pino ndd dios pes S cndemd adm dis a sobcdioa E cerrada dani
Mosquitos de galhas (Diptera, Cecidomvyiidae) associados com Heteropteris nitida DC. (Malpighiaceae).
Gall midges (Diptera, Cecidomyiidae) associated with Heteropteris nitida DC. (Malpighiaceae).
RNOVO-GUEDES 87 VCID:MALA = ro co sro donas cai trio nao COS Sa ra En E GO SU do e io dn RO ir o Alo RR ESP a ão
Morfologia comparata da terminália masculina de quatro espécies de Oxysardexia Townsend, 1917 (Diptera, Sarcophagidae).
Comparative morphology of the male terminalia of four species of Oxysarcodexia Townsend, 1917 (Diptera, Sarcophagidae).
RE SILVA 2 CA MELLO-DATIUO, decr Lar racao hnreo better eua En ae SUR oo CO eo o Da RC o o AO ES o
Primeiro registro de Eurythenes obesus (Chevreux, 1905) (Amphipoda, Lysianassoidea, Eurytheneidae) para as águas brasileiras.
First record of Eurythenes obesus (chevreux, 1905) (Amphipoda, Lysianassoidea, Eurytheneidae) in Brazilian waters.
AR SENNA Br SS SERENO ia, tesiro ss nata nei itia o Topa n eb a Sl nbs A E E a Op A E
Revisão do conhecimento sobre os mamíferos aquáticos da costa norte do Brasil.
Review on the knowledge about aquatic mammals of the north coast of Brazil.
S.SICILIANO, N.R.EMIN-LIMA, A.F.COSTA, A.L.F.RODRIGUES, F.A. MAGALHÃES, C.H.TOSI, R.G.GARRI, C.R.SILVA
&Z IESSSTEV A JUNIO Ra era, ga ti o, bra Se de rh a VR RR DA AL e ARA PS SR catia EAD lb
GEOLOGIA E PALEONTOLOGIA / GEOLOGY AND PALEONTOLOGY
À importância do Museu dos Dinossauros no desenvolvimento socioespacial de Peirópolis - Uberaba (Minas Gerais): diagnóstico
para o turismo paleontológico.
The importance of the Museu dos Dinossauros in the development of the Peirópolis — Uberaba (Minas Gerais): diagnostic for
paleontological tourism.
WoE SANTOS SESCARVALHO aereas presaerenierer ava ergue Conor CA E É AT CS A TAC COLA AQ TONGA EG pa nda
Arquivos do Museu Nacional, Rio de Janeiro, v.66, n.2, abr./jun.2008
ISSN 0365-4508
MUSEU NACIONAL
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Quinta da Boa Vista, São Cristóvão
20940-040 - Rio de Janeiro, RJ, Brasil
Impresso na IMOS Gráfica e Editora